Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
--------------------->Compre o meu livro de poemas<----------------

Sábado, Abril 08, 2006

Blog abandonado. Visite o novo blog.

Blog abandonado. Visite o novo blog.

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Saco cheio.

Estou vivo, porém quase morto, de tédio.

Terça-feira, Julho 05, 2005

Ontem demos um passeio num shopping center local. Comprei um dicionario de Portugues-italiano e vice-versa e um livro do Pirandello. Ja me ensinou meu sabio amigo Tony que livro fechado e tijolo (e tijolo caro), mas espero algum dia aprender italiano e le-lo.
Depois, eu e meu irmao hospitaleiro fomos ao cinema assistir a A guerra dos mundos. Teve que ser em italiano porque aqui na Europa (pelo menos sei que na França e na Espanha tambem e assim) so passam filmes dublados nos cinemas. Deu para entender a maior parte. Convenhamos, nao e uma tarefa dificil dada a natureza boboca do filme. Nao obstante, foi divertido. Ate gostei do filme. No geral uma atmosfera razoavelmente convincente de pesadelo. O final, claro, estraga tudo. Como sempre, cria-se um inimigo alienigena tao poderoso que, para que o filme possa acabar bem (necessidade do genero) se faz imprescindivel um tolo deus ex machina. Ainda assim, repito, foi divertido.
Hoje fiz um novo passeio pelas montanhas. Dessa vez, pelas montanhas mais proximas do proprio vale onde estou hospedado. A familia que me recebe possui ali uma cabine aconchegante. Acendemos a lareira e tomamos vinhos e licores. Li bstante e comecei a escrever a segunda parte de "A morte cansada".

Domingo, Julho 03, 2005

Festinha idiota. Visita à Suiça.

Ontem, depois da missa, me levaram para uma festinha da igreja. Como era de se esperar, coisa ultra cretina e massante. Como diria nosso sàbio Zé Medeiros, idiotia juvenil pandèmica e, nesse caso, catòlica ainda por cima.
Houve uma espécie de show de calouros cujas melhores partes eram aquelas diante das quais eu conseguia rir, de tào ridiculas. No geral, menininhas que devem sonhar serem a Avril Lavine cantando e dançando coreografias diante das quais o màximo que se pode sentir é piedade.
Acabei cochilando um pouco na cadeira.
Hoje de manhà, minha familia hospedeira me levou para um passeio na Suiça. Apenas a uma hora daqui. Visitamos uma cidade nas montanhas onde hà um lindo lago. Chama-se St. Moriz. Se alguém encontrar o Patrick por ai, perguntem a ele se conhece. Ficamos o dia todo là passeando.
A comida daqui é excelente. Vou ficar um porco de tào gordo.

Sábado, Julho 02, 2005

Onde està Zaratustra?

Hoje foi dia de missa.

O padre começou o sermào dizendo que o paraiso é apenas para aqueles que tem consciència, poder e coragem. Um cara tocou uns acordes no violào e um coro entoou:

Antes de mais nada, é preciso consciència
para despertar sua vontade de potència.
Guia as nossas almas e também as ilustra
a sabedoria do profeta Zaratustra.

O paraiso, disse o padre, embora seja metafisico, nào é um espaço, nào é um loccus amoenus. Nào, meus irmaos. O paraiso nao passa de um estado de espirito.

O paraiso nào é um loccus amoenus,
apenas o estado dos espiritos fortes e serenos.
Guia as nossas almas e também as ilustra
a sabedoria do profeta Zaratustra.


Ao fim da missa, quando é de costume apertar a mào do pròximo e dizer "pace" (paz), o sacerdote apertou a bunda do corinha, piscou o olho e disse: "piacere" (prazer). Sob o altar de Dionisio, teve inicio uma grande orgia. Todos nus, atiraram-se uns sobre os outros como se fosse o apocalipse. Nem os idosos foram poupados e as beatas se babavam de tanto gargalhar. Algumas delas tendo que tirar o fraldào para entrarem na festinha.

Apenas as criaças ficaram de fora. Assistiam a tudo apaixonadas. Corriam em volta e batiam palmas de tanta alegria. Algumas vezes escorregavam nos fluidos que inundavam o chào e caiam. Vi um negào enorme tirar seu avantajado falo para fora, oferecè-lo a uma coroa e sorrir sem modéstia: "Piacere pra caralho", disse.

Sò eu fiquei de fora. Sabem como é. Tenho namorada e sempre me comporto. Tentaram avançar para cima de mim, mas ai bastou mostrar a tatuagem para que eles recuassem desanimados: "Deixa pra là. Esse ai é puritano."



Moral da historia: Uma missa nunca é chata. Vocè é que tem pouca imaginaçào.


Começa a aventura.

Começa a aventura. Despeço-me da minha màe e da minha irmà e entro na zona internacional de embarque. Sempre nessa hora eu me lembro de uma velha cançào do King Diamond que dizia "Now you're on your own, yeah!". Horrivel. Nào consigo evitar.
Durante o vòo, uma criança chata chuta minha poltrona. Nào durmo. Leio Nélson Rodrigues. O casamento, presente da minha namorada. Terminei a leitura antes de aterrisar. Achei médio. Comecei a ler Quando Nietzsche chorou, também presente da Renata. Muito interessante. Como romance? Na minha opiniào, ruim.
Estou impressionado com minhas abilidades (de abilio) linguisticas. As pessoas falam em inglès, eu entendo; em portuguès, eu entendo; em espanhol, eu entendo; em francès, eu entendo e em Italiano, para minha grande surpresa, eu também entendo.
Para variar, todos os guardas de aeroporto nào vào com a minha cara. Me param. Pedem (em italiano) documentos. Fazem perguntas (em italiano). Respondo (em espanhol).
No aeroporto me esperam meu irmao e meu tio hospedeiros. O ultimo é a cara do Bruce Willis.
Me levam para a minha nova casa temporàaria. A estrada tem mais de vinte tùneis (sem exagero), cada um com mais de dois kilòmetros de comprimento. Sinto-me uma minhoca.
A cidade aqui é bonita. Um vale cercado de montanhas. Muito verde.

Uma estadia relaxante ( e tediosa?).

Quarta-feira, Abril 27, 2005

Se você dança com o Diabo - ÚLTIMO CAPÍTULO

São poucos os momentos em que consigo pensar com clareza.
Passo a maior parte do dia dopado. Babando como os outros internos. Só me deixam são durante as refeições, para que eu possa mastigar e engolir a comida, amarrado na minha cadeira de rodas.
Já não sei há quanto tempo estou aqui. Às vezes parecem dias, às vezes, anos.
São poucos, bem poucos, os momentos em que consigo raciocinar direito. Acho que já disse isso. Mesmo nesses poucos momentos, o ódio atrapalha muito. Eles me amarram e me dopam porque sabem que do contrário eu matava todos eles.
Já não sei bem quanto tempo faz que eu estou aqui. Foi o Rafael quem me traiu. Foi o Rafael quem me entregou para eles. De curiosidade morreu o gato, eles dizem.
Estou há muito tempo aqui. Não sei bem quanto. E foram raras as vezes em que pude refletir com lucidez. O ódio perturba muito. E não é a sacanagem que eles fizeram comigo. Não é estar aqui trancado como um animal raivoso. Não é a falta de esperança para o futuro. Não é aquele canalha traidor do Rafael. Não é nada disso o que me deixa realmente furioso...
Acho que vou ficar aqui para sempre. Talvez nunca mais eles me deixem pensar de verdade. Os remédios causam alucinações. Tenho pesadelos durante a noite.
Sonho com o Rafael. Ele está parado na minha frente. Faço força para esticar os meus braços. Quero apertar o seu pescoço. Mas os meus membros se atrofiam e eu não consigo mais alcançá-lo. Ele ri por muito tempo. Balança meu nariz e desaparece.
Acordo. E com os meus gritos acorda também o resto do hospício:
Rafael! Pelo amor de Deus, Rafael! Me conta o seu segredo! Rafael, seu nerdezinho filho de uma puta leprosa! Me conta! Por favor, me conta a porra do seu segredo!
Não sei se é ainda um resto de sonho, se é alucinação ou se é verdade. Mas, vindo de muito longe, de outra ala do sanatório, viajando pelos corredores, reverberando pelas paredes, tenho a impressão de ouvir o longínquo e eufórico eco de um inconfundível te enganei.

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Se você dança com o Diabo - Penúltimo capítulo (34 de 35).

Chegamos ao sanatório de madrugada. Os funcionários da portaria estranharam nossa presença ali naquele horário. Mais uma vez, foi providencial a colaboração do diretor. Disse a eles que se tratava de um caso muito urgente, que não poderia esperar até a manhã seguinte.
Entramos. Receberam-nos lá dentro dois enfermeiros que estavam de plantão. O diretor, seguindo minha orientação prévia, pediu a eles que fossem buscar o Rafael.
Quem? Perguntaram os dois ao mesmo tempo.
O Te enganei. Respondeu o velho.
Mas... a essa hora ele está dormindo...
E eu perguntei alguma coisa? Tragam ele aqui! Já!
Aqui!? No saguão!?
É, suas mulas! Aqui, no saguão!
Era abusar da sorte. Os enfermeiros ficaram desconfiados. Talvez já tivessem reparado no rosto pálido e nas roupas amassadas do velho. Começaram a se aproximar de nós.
O senhor tem mesmo certeza de que está tudo bem?
Eu não tinha alternativa. Tirei a arma do bolso da jaqueta e, agarrando o diretor pelo pescoço, encostei-a na sua cabeça.
Não! Não está tudo bem! Não está nada bem! Tem um maluco com uma arma apontada para a cabeça do seu chefe e vocês podem ter certeza que eu apago ele se vocês tentarem qualquer coisa! Entenderam!? Você! Fica parado aí! Nem pense em se mexer! E você vai lá buscar o Rafael agora! Anda! Estou mandando! Você tem trinta segundos!
Mas...
Vinte e nove! Vinte e oito!
O enfermeiro desapareceu por alguns instantes e voltou puxando o Rafael pelo braço. Sonolento, o interno andava devagar e era quase arrastado pela impaciência do funcionário.
Rafael! Me escuta! Eu falhei com você. Me perdoa! As coisas se complicaram.
Ele parou ao meu lado e agora me olhava em silêncio.
Não tive escolha. Vim te resgatar. Vou tirar você daqui à força. Eu sei que você tinha planejado as coisas de um outro jeito. Sei que você ficou com medo de voltar a ser torturado se eles soubessem que você não estava louco de verdade.
O interno permanecia em silêncio.
Me desculpa! As coisas se complicaram muito. Mas não esquenta. Vou tirar você daqui. Nós vamos fugir. Sou de uma família rica, Rafael. Meu pai é uma pessoa influente. Vai conseguir nos proteger. Vai conseguir fazer a gente sumir por uns tempos. Eu vou falar com ele e vai ficar tudo bem. Você vai ver, o meu pai vai...
Não tive tempo de terminar a frase.
Rafael deu uma larga gargalhada. Pulou na minha frente. Prendeu o meu nariz entre os dedos, balançando de um lado para o outro.
Te enganei! Te enganei!
No susto, disparei a arma. Ouviu-se um estalo seco, seguido de um gemido do diretor. A bolinha azul de plástico duro foi rolando pelo chão até parar no pé de um dos enfermeiros. Arremessei a pistola contra o rosto do primeiro funcionário que tentou se aproximar. Acertei o nariz dele. Larguei o pescoço do professor. Tentei me virar para sair correndo, mas não consegui me desvencilhar do Rafael que me abraçava com gritos eufóricos.
Te enganei! Te enganei!
O segundo enfermeiro nos alcançou. Me imobilizou com um mata-leão. O primeiro chegou em seguida, com o nariz sangrando, furioso. Acertou um soco forte no meu estômago.
Depois disso apenas dor e o mundo escurecendo.

Domingo, Abril 24, 2005

Se você dança com Diabo - Capítulo 33 (de 35)

Depois de ter desamordaçado o velho, coloquei o caderno aberto sobre seu colo.
Segurando a arma de bolinhas na mão direita, eu disse com a voz muito calma:
Leia.
O que é isso?
Leia.
Ele obedeceu. Fixou o olhar no caderno e se concentrou. Um instante depois, quando percebeu do que se tratava, ergueu novamente os olhos para mim.
Onde foi que você conseguiu isso?
Permaneci em silêncio. Sem esperar minha resposta, ele voltou a ler o manuscrito. Como continuava amarrado na cadeira, me pedia para virar a folha, ao final de cada página.
Terminada a leitura, ele fez uma cara pensativa. Murmurou apenas.
Agora sim eu entendo porque o te enganei ficava tão nervoso com o café-da-manhã...
Explodi.
Ergui meu joelho direito à altura do peito e, empregando toda a força da minha perna, derrubei, com um coice para frente, a cadeira com o diretor de costas no chão.
Perdi a porra da minha paciência com você, velho! Disse, chutando as costelas dele. Você ouviu? Perdi a paciência! Vocês acham que eu sou o quê!? Algum idiota!? Vocês acharam mesmo que iam conseguir me enganar com essa merda!? Perguntei, pegando o caderno do chão e o arremessando com força contra a cara dele. Vocês acharam mesmo que eu ia acreditar nessa porra dessa história ridícula!? Anda! Levanta daí! Ergui a cadeira com ele, puxando pelos seus cabelos. Comecei a desamarrá-lo. Nós vamos dar mais uma voltinha...

Sábado, Abril 23, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 32 (de 35)

Quando alguém encontrar esse caderno, eu já estarei morto.
Fui obrigado a me matar para poder validar os resultados do meu experimento.
A idéia por trás da minha experiência me ocorreu há alguns meses, quando, apesar de todos os meus esforços, não consegui realizar o maior de todos os meus sonhos: ir estudar matemática nos Estados Unidos.
Foi então que, com a ajuda de narcóticos, que enriqueceram minha percepção, cheguei à conclusão que quanto mais se quer uma coisa, maior a probabilidade de essa coisa dar errado.
É verdade que todo mundo já fez essa constatação em algum momento da vida.
Ninguém nunca a demonstrou empiricamente.
Dessa maneira, após ter tido a revelação, fiquei determinado a prová-la por estatística.
O enunciado da minha teoria era: “a probabilidade de um evento é inversamente proporcional a toda a vontade consciente associada a ele”.
Escolhi, por casualidade, testar minha hipótese com um fenômeno já constatado na cultura popular: a queda do pão com manteiga.
Diz o folclore que o pão com manteiga sempre cairá com o lado amanteigado para baixo. Minha intuição me disse que se tratava de uma exageração de algo verdadeiro. Óbvio que, uma vez ou outra, o pão cairá com o lado amanteigado para cima. No entanto, supus que seria capaz de demonstrar que a tendência do pão era de cair, na grande maioria das vezes, com a manteiga para baixo.
Tendo escolhido o objeto da minha pesquisa, era necessário, em seguida, detalhar o modus operandi do experimento.
Em primeiro lugar, decidi usar o pão de forma. Isso porque o seu formato mais homogêneo e simétrico seria mais aerodinamicamente neutro do que o do seu rival, o pão francês. Além do mais, o centro de gravidade variaria menos de uma fatia para a outra.
Em segundo lugar, a manteiga deveria ser passada no pão só depois que o mesmo fosse ligeiramente torrado, para que não houvesse risco de deformação pela pressão exercida pela faca.
Em terceiro lugar, a camada de manteiga deveria ser bem fina, para que sua massa, em relação ao total da fatia amanteigada, pudesse ser considerada desprezível e para evitar, mais uma vez, variações do centro de gravidade das fatias.
Tendo determinado essas condições iniciais, passei à segunda fase do experimento, isto é, a prática.
Dei início aos arremessos.
Na primeira tentativa, lancei sucessivamente ao ar 100 (cem) fatias de pão amanteigado. Claro que, antes de cada novo arremesso, tive o cuidado de anotar o resultado da queda anterior e de remover a fatia caída do chão.
Para a minha surpresa, obtive um resultado bastante avesso ao que esperava. 52 (cinqüenta duas) quedas com a manteiga para cima (doravante QC), 48 (quarenta e oito) com a manteiga para baixo (doravante QB).
Fiquei tão frustrado com esses primeiros resultados que quase desisti da minha teoria. Porém, refletindo melhor, cheguei à conclusão de que deveria haver alguma interferência nos arremessos que eu estava esquecendo de levar em conta. Meditei a respeito e supus que o problema era que eu tinha coberto o chão das quedas com jornal, para evitar sujeira.
Ora, a sujeira era mais do que necessária. Do contrário, o prejuízo da queda com a manteiga para baixo seria minimizado. Minimizado o prejuízo, minimizada seria a probabilidade de ele ocorrer.
Repeti a experiência sem os jornais. 49 QC; 51 QB.
Matematicamente, ainda era um empate. Todavia, fiquei entusiasmado com o aumento das QB e pensei que, talvez, se eu aumentasse o prejuízo, conseguiria aumentar sua incidência.
Fui a uma loja de tapetes importados e gastei todas as minhas economias em um pequenino, porém caríssimo, tapete persa. Passei a arremessar as torradas em cima dele. Após cada queda. Eu retirava a torrada, limpava o tapete, anotava o resultado e partia para o arremesso seguinte.
47 QC; 53 QB. O tapete tinha dado resultado, mas ainda não era o suficiente. Era necessário aumentar ainda mais o prejuízo causado pelas QB. No entanto, eu não tinha dinheiro para comprar um tapete mais caro do que aquele.
Talvez se eu me humilhasse um pouco pudesse obter números mais significativos.
Decidi então que, cada vez que fosse limpar o tapete, ao invés de fazê-lo com um pano úmido, como vinha fazendo, passaria a limpá-lo com a própria língua.
A sensação de lamber um tapete amanteigado era horrível. Me enchia de náuseas e de pelos na boca. Cheguei a vomitar uma vez.
46 QC; 54 QB. Mais uma vez os resultados demonstraram que eu estava no caminho certo. Essa alegria, porém, foi perturbada por uma preocupação. Comecei a ter a sensação de estar sendo observado na rua e nos lugares públicos. Passei a desconfiar que talvez alguém estivesse a par da minha descoberta e quisesse roubá-la de mim. De todo modo, como ainda não tinha certeza de nada, resolvi continuar com meus experimentos e ver o que aconteceria.
Prejuízo financeiro, humilhação e náusea... Que mais eu poderia acrescentar à experiência para afinar os resultados?
Dor.
Talvez pudesse refinar o experimento com dor. Interrompi temporariamente os testes para construir um circuito elétrico que me permitisse, através do pressionamento de um botão, infligir-me choques bastante violentos cada vez que ocorresse uma QB.
Foi duro. Acho que quando tive a idéia do circuito não imaginei quão dolorosas e desgastantes seriam aquelas seções de eletrochoque. No final da nova série de arremessos, após haver lambido aquele maldito tapete dezenas de vezes e me submetido a dezenas de choques elétricos, eu estava tão emocionalmente abalado que desabei na minha cama chorando e fiquei assim por muito tempo. Perdi a consciência. Penso que desmaiei. Sonhei com torradas voadoras. Elas estavam atacando a cidade e matando todas as pessoas. Acordei e liguei para uma amiga no meio da madrugada. Disse a ela que as torradas estavam prestes a atacar a cidade e achei aquilo muito engraçado. Tive um ataque de riso e desliguei o telefone. Continuei rindo até desmaiar novamente. Acordei no dia seguinte ainda bastante perturbado. Olhei para os lados. Tive certeza que tinham estado no meu quarto durante a noite. Os malditos estavam atrás da minha descoberta. Eu passara por todo aquele sofrimento e eram eles que iam ficar com a glória. Corri para a mesa e verifiquei que as minhas anotações ainda estavam lá, apesar de estarem remexidas.
Finalmente, contabilizei os arremessos que tinha feito acompanhados dos choques. 50 QC; 50 QB.
Fiquei desesperado. Alguma coisa estava errada. Alguma coisa deveria estar errada na base da minha idéia.
Levei dias de muita angústia para perceber qual era o problema.
Entendi, enfim, que o meu próprio experimento era um paradoxo em si mesmo. O desejo de ser bem sucedido na experiência estava fazendo, a cada queda, com que, ao contrário do que normalmente ocorreria, eu desejasse uma QB. O meu desejo pela QB tinha, desde o começo, atrapalhado tudo, pois de acordo com a minha própria teoria, o desejo levava ao fracasso.
Assim, meu desejo cada vez maior por uma disparidade entre as QB e as QC, potencializado pelos suplícios auto-impostos, estava fazendo com que justamente o contrário ocorresse, isto é, que houvesse incidências semelhantes dos dois eventos.
O maior problema é que, mesmo através dessa nova interpretação dos fatos, nada ficava provado, já que a incidência próxima coincidia com o que seria esperado que ocorresse sem nenhuma interferência da vontade e, por conseqüência, da minha teoria.
O segredo, portanto, estava em não desejar.
Mas como podia eu não desejar aquilo que mais queria? O paradoxo parecia matematicamente insolúvel.
Analisando a raiz do meu desejo, percebi que se tratava de um desejo de fama, de reconhecimento, de aplauso. E se eu garantisse que ninguém jamais saberia o resultado do meu experimento? Nesse caso, ficava anulado o desejo de ser reconhecido. Mas como garanti-lo absolutamente? Só se eu me matasse após o término do mesmo, depois de haver destruído todas as minhas anotações a respeito. Sim, nesse caso ninguém jamais saberia do resultado final. O que esvaziaria o experimento em si de qualquer sentido prático.
Era essa a idéia.
Claro que ainda sobraria o desejo de ter tido razão. De ter estado certo desde o começo. Mas esse desejo seria suficientemente compensado pelo medo da morte e do vazio que anularia qualquer prazer de ter inferido a verdade.
Restava, por fim, analisar a hipótese de o experimento funcionar e eu não me matar depois. Eu não podia garantir de nenhuma forma às leis da probabilidade que eu chegaria às vias de fato. O que eu poderia fazer para convencê-las da minha real intenção?
Era simples. Se o experimento funcionasse e em seguida eu não me matasse, seria exatamente o mesmo que o experimento não ter funcionado. Sem a minha morte subseqüente, toda a fundamentação teórica da experiência ia por água abaixo. O resultado seria considerado aleatório como qualquer outro.
Foi assim que eu decidi me matar.
Para obter a coragem necessária para realizar novamente o experimento, com as lambidas no tapete, com os choques elétricos e, dessa vez, com meu suicídio no final, fui procurar um amigo para conseguir narcóticos. Ele se negou. Procurei outro traficante e pedi uma amostra grátis. Ele me deu.
Continuam me seguindo. Já não resta a menor dúvida sobre isso. Quando voltei da minha excursão de compra de narcóticos, reparei que, da esquina da rua da pensão onde moro, um motoqueiro me observava. Era uma moto esportiva. Ele vestia um grande sobretudo negro, apesar do calor. Não pude ver o rosto dele, pois o capacete preto, com viseira preta, o cobria.
Já não faz diferença. Assim que terminar de escrever essa carta, prosseguirei com a etapa final do experimento, tomando primeiro os narcóticos e, logo em seguida, iniciando os arremessos. Ao terminá-los, cometerei suicídio.
Deixo essa carta de despedida para o mundo e parto como se fosse uma sonda lançada em direção a um buraco negro. Um empreendimento sem sentido. A sonda jamais poderá voltar ou mandar qualquer sinal para a Terra
O fato de eu ter deixado essas anotações em nada compromete a base teórica da experiência. Apesar de deixar escritas, a título de explicação para meu suicídio, as idéias principais do meu experimento, não revelarei jamais o resultado final.
Adeus!

Sexta-feira, Abril 22, 2005

Inspirado no Andersão.

E aí? Que tal vocês acharam a aparição heróica do Jonathan - inspirado no Anderson - na história?

Se você dança com o Diabo - Capítulo 31 (de 35)

Fiquei sentado sob o olhar vigilante do grandão. Depois de um tempo ela voltou trazendo o caderno.
Muito obrigado.
Agora você já pode ir embora, disse o rapaz.
Eu já estou indo. Mas antes vocês vão me explicar direitinho que história é essa dos “outros”.
O grandão fechou a cara e o punho. Começou a andar em minha direção. Tirei a arma do bolso e apontei para ele. A mulher deu um grito histérico e caiu desmaiada no chão. Ele parou um instante. Chegou a recuar um passo. Depois deu uma gargalhada.
O que você está pensando que eu sou, ô palhaço? Algum idiota? Essa arma aí é de mentira.
Enfiei a arma de volta no bolso. Dei meia volta. Saí correndo pela porta com o caderno na mão. Era melhor eu desaparecer antes que seu bom-humor passasse.
Se você voltar aqui eu parto a sua cara, está me ouvindo?

Quinta-feira, Abril 21, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 30 (de 35)

Era uma mulher muito gorda. Os cabelos grisalhos. Olheiras profundas embaixo dos olhos. Rugas que despontavam por toda parte.
Boa noite. A senhora é a dona da pensão?
Sou eu sim. Diz logo o que você quer.
A senhora se lembra do Rafael? Um estudante que morou aqui há mais ou menos um ano e que
Eu sabia que eu não devia ter deixado você entrar! Ah! Como eu sou ingênua! Eu já disse que não tenho nada a dizer sobre esse estudante! Nem sobre ele, nem sobre os outros!
Outros!?, perguntei pasmo. Que outros!?
Ela me olhou confusa durante alguns segundos.
Então você não sabe dos outros?
Não. Que outros!?
Não interessa! Não é nada.
Agora a senhora vai falar.
Não vou não! Filho! Ô meu filho!
Uma porta se abriu e apareceu um jovem gordo e barbudo, com cara de poucos amigos.
Algum problema, mãe?
Pergunta para o rapaz aqui. Algum problema, meu rapaz?
Algum problema, babaca?, perguntou o sujeito, enquanto uma barata caminhava timidamente para fora da porta que ele tinha deixado aberta.
Problema nenhum, problema nenhum. Acho que fiquei um pouco nervoso. Me desculpem. Já passou. A senhora não me deu chance de me explicar. Sou primo do Rafael. Minha mãe, tia dele, foi quem me mandou. Ela está à beira da morte. Me pediu para vir buscar um caderno dele que ficou aqui. Eu não sei por que, de uma hora para a outra, ela cismou que quer o caderno. Como pode ser o último desejo da minha velha e como ela me disse que a senhora tinha ligado dizendo
Liguei mesmo, interrompeu ela, mais calma, mas isso já tem um tempo. Sua mãe me disse que não queria nada. Que eu podia jogar tudo fora.
E a senhora jogou?
Não. Quer dizer. Eu me desfiz de quase tudo. Dei as roupas e tudo que se podia aproveitar. Mas, por acaso, acabei guardando um caderno. Talvez seja esse mesmo que você está querendo. Pelo menos foi o único que estava nas coisas dele. Não sei se vai servir de alguma coisa.
Por quê?
Naquela manhã que ele foi para o sanatório, eu ouvi gritos no quarto dele. Era o Rafael que estava berrando muito alto. Te enganei! Te enganei! Berrava isso e depois dava uma gargalhada. Fiquei assustada. Chamei meu filho. Dei a chave reserva do quarto na mão dele. Ele destrancou a porta e nós entramos. O Rafael estava sentado no chão do quarto. Tinha uma arminha de brinquedo na mão. Daquelas que atiram água. Erguia até a cabeça. Apertava o gatilho. Depois de receber uma esguichada ele gritava te enganei! Te enganei! E dava uma gargalhada. Ficamos assustados e chamamos a polícia. Os policiais quando viram aquilo não tiveram dúvida. Enlouqueceu. Manda para um sanatório. Chamamos então uma ambulância que veio buscar ele. Depois telefonei para a sua tia avisando. O resto você já sabe.
Sim, mas o que tem tudo isso a ver com o caderno? Por que você disse que ele não vai servir mais?
É verdade. Eu me esqueci. O caderno estava em cima da cama. Mas ele tinha arrancado as folhas e picotado tudo. Os pedacinhos de papel estavam por todo o quarto.
E o que a senhora fez com eles?
O que você queria que eu fizesse com um monte de papel picado? Joguei fora. É claro.
Então parece que eu perdi a minha viagem.
Bom. Não sei por que a sua tia podia querer aquele caderno. Não sei se vai adiantar alguma coisa. Mas o Rafael deixou umas dez páginas escritas nele. Um monte de maluquice, mas está aqui. Eu guardei. Sente-se. Eu vou buscar para você.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

Tradutor automático.

Vejam como ficou o capítulo 28 no tradutor automático!

He was not difficult to find the second pension where Rafael had lived. He was accurately in front of the college, as its aunt had informed.A great signboard where if it read Pension Harmony. Some engraçadinho had pichado the poster, adding a DES in the front of the Harmony.When I went down of the car, I repaired in a citizen that, with a can of spray, finished a new pichação in the green wall.Care! Pension of the death!So soon he saw me, the youngster left running and disappeared in a esquina.I touched the bell some times without getting reply. Finally, a woman opened a window and cried out for is.They go even so, its moleques badly-servant! They leave me in peace!I placed myself ahead of the window.Good night. It forgives me for bothering in this schedule. I have a very urgent subject to deal with the owner of this house.Jornalzinho of excrement can come back toward its, the woman cried out. Vocês is losing its time! I already said that I do not go to give to interview none!Mine lady! I am not of periodical none. I am prime of a student who liveed here has more or but one year. Necessary to talk with Mrs. on a urgent subject. It is a case of life or death. Please, it opens the door so that I can explain everything.It looked at me from above low, the distrustful one. She closed the window. After some minutes she opened the door of the house.
posted by Abilio 13:20 0 comments

Se você dança com o Daibo - Capítulo 29 (de 34)

Não foi difícil encontrar a segunda pensão em que o Rafael tinha vivido. Ficava exatamente em frente à faculdade, como sua tia havia informado.
Um letreiro grande onde se lia Pensão Harmonia. Algum engraçadinho tinha pichado o cartaz, acrescentando um Des na frente do Harmonia.
Quando desci do carro, reparei num sujeito que, com uma lata de spray, terminava uma nova pichação no muro verde.
Cuidado! Pensão da morte!
Tão logo me viu, o rapaz saiu correndo e desapareceu numa esquina.
Toquei a campainha algumas vezes sem obter resposta. Por fim, uma mulher abriu uma janela e gritou para fora.
Vão embora, seus moleques mal-criados! Me deixem em paz!
Eu me coloquei diante da janela.
Boa noite. Me desculpe por incomodar nesse horário. Tenho um assunto muito urgente para tratar com a dona dessa casa.
Pode voltar para o seu jornalzinho de merda!, gritou a mulher. Vocês estão perdendo o seu tempo! Eu já disse que não vou dar entrevista nenhuma!
Minha senhora! Eu não sou de jornal nenhum. Sou primo de um estudante que morou aqui há mais ou menos um ano. Preciso conversar com a senhora sobre um assunto urgente. É um caso de vida ou morte. Por favor, abra a porta para que eu possa explicar tudo.
Ela me olhou de cima a baixo, desconfiada. Fechou a janela. Depois de alguns minutos abriu a porta da casa.

Domingo, Abril 17, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 28 (de 34)

Está tudo bem... Disse o velho com um sorriso para o funcionário e para a enfermeira que esperavam do lado de fora. Ele já me explicou tudo. Estava só testando o paciente. Verificando se reagiria frente a uma situação de violência. Todo modo, meu jovem, eu gostaria que você fosse jantar comigo. Precisamos discutir algumas coisas.
Com todo prazer, senhor diretor.
O funcionário olhou para nós desconfiado. Senhor diretor, tem certeza que está tudo bem?
Claro que está tudo bem, sua besta! Agora vai ver como está o Rafael.
Deixamos o sanatório.
Murmurei no ouvido dele: bom trabalho! Continue assim e nós vamos nos entender perfeitamente.
Por favor, não faça nenhuma besteira.
Cala a boca. Vamos indo.
O carro dele estava estacionado na rua. Fiz com que entrasse e se sentasse no banco do motorista. Entrei pela porta traseira do mesmo lado. Me sentei atrás dele, apontando a arma para a sua cabeça.
Agora liga o carro e dirige. Lembre-se, velho. Não me desaponte.
Disse o endereço da minha casa e ele nos conduziu até lá. Saltamos do carro.
Para não levantar suspeitas, informei ao porteiro do meu prédio que aquele era meu tio-avô. Tinha chegado de viagem e ia passar uns dias comigo.
O senhor quer que eu ajude com as malas?
As malas se extraviaram no aeroporto. Colocaram no avião errado e elas foram parar em Buenos Aires. Vão chegar daqui uns dias.
Subimos ao meu apartamento.
Você mente muito bem, velhote. Eu já devia ter imaginado.
Depois de acompanhá-lo ao banheiro, levei-o para o quartinho de empregada. O amarrei a uma cadeira com um cabo de extensão e o amordacei com fita adesiva. Tranquei a porta por dentro e guardei a chave.
Procurei pelo número do celular da amiga de Rafael.
Alô?
Oi. Sou eu, o cara que estava estudando o Rafael...
Oi! Que bom que você ligou!
Escuta, eu estava pensando naquela nossa conversa do outro dia e me lembrei que você tinha mencionado um caderno... um caderno que você disse que o Rafael tinha... que ele vivia anotando coisas...
Sim, eu me lembro.
Então... na hora eu não dei muita atenção porque era muita informação. Mas agora eu me lembrei disso e acho que o tal caderno pode ser fundamental para o meu estudo. Você tem alguma idéia de onde ele pode ter ido parar?
Nossa... depois de tanto tempo não sei não. Talvez a tia dele tenha guardado. Você já tentou perguntar para ela?
Alô?
Boa noite. Eu sou o estudante que esteve aí no outro dia. Não sei se a senhora se lembra?
Sim, sim. Como vai? Descobriu alguma coisa sobre o Rafael?
Ainda não. Na verdade estou numa pista importante e gostaria que a senhora me ajudasse.
Pista? Então agora você é um detetive?
Eu me expressei mal.
Sei. Em que posso ajudar?
Estou procurando um caderno. Um caderno do Rafael.
O Rafael era um estudante. Tinha muitos cadernos.
Sim. Mas esse era um caderno que ele tinha sempre com ele. Em que vivia anotando coisas.
Acho que não vou poder te ajudar. Fazia muito tempo que eu não via o Rafael quando ele foi internado.
Mas e as coisas dele? A senhora não foi buscar as coisas dele na pensão onde ele morava?
Ouvi um gritinho do outro lado da linha. Pareceu semelhante àquele que ela emitira quando eu tinha entornado o cinzeiro no tapete. A sua voz se tornou excitada.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha!
O que foi?
Acabei de me lembrar que, faz uns três meses, a dona da pensão onde o Rafael morava me telefonou e me disse que estava com umas coisas dele guardadas lá ainda. Se eu não queria ir buscar. Eu disse que não. Que ela podia jogar fora.
Espera aí. Mas eu liguei para aquele número que a senhora me deu e me disseram que a pensão já tinha fechado há mais de seis meses!
Novo gritinho.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha! Eu devo ter te dado o número da pensão antiga onde o Rafael ficou logo no começo quando se mudou para a capital. Mas o Rafael só morou lá por umas semanas e depois se mudou para uma outra pensão que era bem em frente à faculdade dele. Eu lembro que fui visitar e levar umas coisinhas logo depois de ele ter se mudado. Era muito melhor que a outra. Uma casa grande e verde se não me falha a memória. Deve ter sido algum amigo dele que... Alô? Alô?

Sábado, Abril 16, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 28 (de 34)

Está tudo bem... Disse o velho com um sorriso para o funcionário e para a enfermeira que esperavam do lado de fora. Ele já me explicou tudo. Estava só testando o paciente. Verificando se reagiria frente a uma situação de violência. Todo modo, meu jovem, eu gostaria que você fosse jantar comigo. Precisamos discutir algumas coisas.
Com todo prazer, senhor diretor.
O funcionário olhou para nós desconfiado. Senhor diretor, tem certeza que está tudo bem?
Claro que está tudo bem, sua besta! Agora vai ver como está o Rafael.
Deixamos o sanatório.
Murmurei no ouvido dele: bom trabalho! Continue assim e nós vamos nos entender perfeitamente.
Por favor, não faça nenhuma besteira.
Cala a boca. Vamos indo.
O carro dele estava estacionado na rua. Fiz com que entrasse e se sentasse no banco do motorista. Entrei pela porta traseira do mesmo lado. Me sentei atrás dele, apontando a arma para a sua cabeça.
Agora liga o carro e dirige. Lembre-se, velho. Não me desaponte.
Disse o endereço da minha casa e ele nos conduziu até lá. Saltamos do carro.
Para não levantar suspeitas, informei ao porteiro do meu prédio que aquele era meu tio-avô. Tinha chegado de viagem e ia passar uns dias comigo.
O senhor quer que eu ajude com as malas?
As malas se extraviaram no aeroporto. Colocaram no avião errado e elas foram parar em Buenos Aires. Vão chegar daqui uns dias.
Subimos ao meu apartamento.
Você mente muito bem, velhote. Eu já devia ter imaginado.
Depois de acompanhá-lo ao banheiro, levei-o para o quartinho de empregada. O amarrei a uma cadeira com um cabo de extensão e o amordacei com fita adesiva. Tranquei a porta por dentro e guardei a chave.
Procurei pelo número do celular da amiga de Rafael.
Alô?
Oi. Sou eu, o cara que estava estudando o Rafael...
Oi! Que bom que você ligou!
Escuta, eu estava pensando naquela nossa conversa do outro dia e me lembrei que você tinha mencionado um caderno... um caderno que você disse que o Rafael tinha... que ele vivia anotando coisas...
Sim, eu me lembro.
Então... na hora eu não dei muita atenção porque era muita informação. Mas agora eu me lembrei disso e acho que o tal caderno pode ser fundamental para o meu estudo. Você tem alguma idéia de onde ele pode ter ido parar?
Nossa... depois de tanto tempo não sei não. Talvez a tia dele tenha guardado. Você já tentou perguntar para ela?
Alô?
Boa noite. Eu sou o estudante que esteve aí no outro dia. Não sei se a senhora se lembra?
Sim, sim. Como vai? Descobriu alguma coisa sobre o Rafael?
Ainda não. Na verdade estou numa pista importante e gostaria que a senhora me ajudasse.
Pista? Então agora você é um detetive?
Eu me expressei mal.
Sei. Em que posso ajudar?
Estou procurando um caderno. Um caderno do Rafael.
O Rafael era um estudante. Tinha muitos cadernos.
Sim. Mas esse era um caderno que ele tinha sempre com ele. Em que vivia anotando coisas.
Acho que não vou poder te ajudar. Fazia muito tempo que eu não via o Rafael quando ele foi internado.
Mas e as coisas dele? A senhora não foi buscar as coisas dele na pensão onde ele morava?
Ouvi um gritinho do outro lado da linha. Pareceu semelhante àquele que ela emitira quando eu tinha entornado o cinzeiro no tapete. A sua voz se tornou excitada.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha!
O que foi?
Acabei de me lembrar que, faz uns três meses, a dona da pensão onde o Rafael morava me telefonou e me disse que estava com umas coisas dele guardadas lá ainda. Se eu não queria ir buscar. Eu disse que não. Que ela podia jogar fora.
Espera aí. Mas eu liguei para aquele número que a senhora me deu e me disseram que a pensão já tinha fechado há mais de seis meses!
Novo gritinho.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha! Eu devo ter te dado o número da pensão antiga onde o Rafael ficou logo no começo quando se mudou para a capital. Mas o Rafael só morou lá por umas semanas e depois se mudou para uma outra pensão que era bem em frente à faculdade dele. Eu lembro que fui visitar e levar umas coisinhas logo depois de ele ter se mudado. Era muito melhor que a outra. Uma casa grande e verde se não me falha a memória. Deve ter sido algum amigo dele que... Alô? Alô?

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Problemas técnicos.

O blog esteve fora do ar por alguns dias por problemas técnicos. A partir de amanhã, voltarei a postar os capítulos de "Se você dança com o Diabo".

Terça-feira, Abril 05, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 27

O caderno!
O grito ecoou por toda a enfermaria.
Ah! Até que enfim você acordou. Nós temos mesmo muito que conversar. Acho que você me deve uma explicação...
Eu estava deitado numa cama. Uma gaze úmida sobre a minha testa. Uma agulha espetada no meu braço. Pendurado numa haste de metal, um saco plástico com um líquido transparente.
Sentado ao meu lado, o diretor me olhava com um sorriso paciente.
Arranquei a agulha da minha veia.
­Que merda é essa!? Que merda é essa que vocês estão injetando em mim!?
Ele se levantou da cadeira e me dominou com a ajuda de um funcionário.
Calma! O que você pensa que está fazendo!? Arrancando o soro assim desse jeito!?
A enfermeira voltou a espetar a agulha.
Não adiantava. Não ia conseguir vencê-los pela força. Tentei relaxar.
Desculpa. Eu estava tendo um pesadelo. Acho que foi um delírio por causa da febre.
Os olhos dele me examinaram devagar.
Você estava muito exaltado dentro daquele quarto. Volto aqui para buscar minha carteira que tinha esquecido. Passo em frente à porta. Ouço gritos. Não sei como você conseguiu entrar. Não vi nenhum funcionário por perto. Abro a porta e me deparo com você tentando estrangular o interno. Espero que você tenha uma boa explicação para tudo isso.
Sim, senhor. Eu posso explicar tudo. O senhor vai entender. Mas, se o senhor não se importa, eu preferia conversar com o senhor a sós.
Mais uma vez os olhos dele me farejaram desconfiados. Sorriu. Disse ao funcionário e à enfermeira que saíssem. Que não se preocupassem. Eu não o ia morder. No caso de qualquer problema, ele chamaria.
Pronto. Estamos a sós. Pode falar agora.
Estou com frio. O senhor não faz a gentileza de me cobrir com a minha jaqueta? Aquela ali, no cabideiro.
Posso pedir para a enfermeira buscar um cobertor.
Não precisa. Quero explicar logo as coisas para o senhor. A jaqueta mesmo resolve.
Ele pegou o casaco e o estendeu sobre mim.
Tirei a arma de bolinhas do bolso em que tinha ficado. Saltei da cama sobre ele. Apertei com uma mão a sua garganta para que não gritasse. Com a outra pressionei o cano da arma contra a sua cabeça. O velho gemeu apavorado.
Cala a boca, filho da puta, que agora eu vou te explicar tudo direitinho. Tenho novidades para você, vovô. Eu já sei tudo. Sei tudo que vocês sabem. Sei ainda coisas que nem vocês sabem. A única coisa que eu ainda não sei, vocês também não sabem. Estão tão loucos para descobrir quanto eu mesmo. Por isso não vou perder meu tempo fazendo perguntas...
Mas do que é que você...
Não banque o babaca, vovô. Não vou cair de novo nas suas armadilhas. Entreguei quase tudo de bandeja para vocês enquanto vocês nos observavam por aquele espelho. Não vou cometer o mesmo erro de novo.
Mas...
Cala a boca! Cala a boca que para mim já não faz mais a menor diferença estourar essa sua cabecinha ou não. Você é um psiquiatra experiente, vovô. Analise meu caso. Sabe, eu nunca aprendi a lidar com as frustrações. Agora nós vamos dar uma voltinha. Se você não fizer exatamente tudo o que eu mandar, vou ficar muito, muito frustrado. Se você tentar avisar alguém ou pedir socorro de alguma forma, também vou ficar deprimido. Se qualquer coisa der errado. Qualquer coisa mesmo. Se na saída daqui a gente pegar muito farol vermelho, vou ficar decepcionado. Por isso, como um doutor esperto que você é, aposto que vai colaborar o máximo possível comigo, não é verdade, vovô?
Ele fez que sim com a cabeça.
Ótimo. Sempre achei você uma boa pessoa. Agora vamos andando. Lembre-se, minha arma vai estar aqui, no bolso da minha jaqueta, apontada para as suas costas. Você prefere morrer ou ficar paraplégico?

Domingo, Abril 03, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 26

A porta do quarto se abriu e apareceu o diretor.
Mas, mas o que é isso!? O que está acontecendo aqui!? O que você pensa que está fazendo!?
Larguei o pescoço do Rafael e me afastei assustado. A febre me dominava. Delírio. O espelho na parede. Vidro inquebrável para que o interno não pudesse parti-lo. A saliva dele nos meus polegares. O rosto espantado do diretor. Contornos de pesadelo.
O espelho na parede. O grande espelho que me mostrava um rosto confuso que não parecia ser o meu.
O funcionário tinha me dito que o diretor não estava lá.
A saliva do Rafael nos meus polegares. Toquei o meu rosto com eles. Ungi a minha testa com a saliva de um louco.
Não me reconheci no espelho.
Estúpido. Como eu tinha sido estúpido. Rafael continuava fingindo. Olhava para o espelho. Olhava para mim. Como se me repreendesse. Como se me acusasse de ter estragado tudo. De ter botado tudo a perder. Eu devia ter desconfiado. Para que gastar tanto dinheiro com um espelho inquebrável num asilo decadente como aquele?
Estúpido. Queria pedir desculpas. Dizer que tinha sido impulsivo. Um idiota. Não tinha pensado em tudo. Tinha deixado lacunas no meu raciocínio. Agora era tarde. Tão perto da verdade e tão longe de a compreender. Tão perto do segredo e tão longe de o descobrir.
Senti uma mão firme apertar o meu braço. Era a mão do diretor. Ele tinha crescido. Tinha se tornado enorme, de repente. Era um fantasma gigante que apertava meu braço com força. Eu me ajoelhei no chão. Rendido. Ele me ergueu. Me levantou nas alturas. Como uma águia capturando um coelho.
Nesse momento, um segundo ates de perder a consciência. Ouvi a voz de Rafael sussurrar ao meu ouvido:
O caderno. Você esqueceu o caderno.

Sábado, Abril 02, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 25

Me levantei do chão e perdi o equilíbrio por um instante. Levei a mão à cabeça. Dei dois passos cambaleantes para o lado. Depois voltei para frente do Rafael. Pus as duas mãos sobre os ombros dele. Fiquei olhando firme para os seus olhos. Esperando a resposta.
Ele permanecia mudo. Estava indeciso. Calculando a minha oferta. Os olhos ainda pareciam vazios. O fio de baba continuava escorrendo da sua boca.
Vai, Rafael. Não precisa mais fingir. Eu sei de tudo. É pegar ou largar. Nós não temos tempo para brincar de maluco agora.
O rosto permanecia sem expressão. Parecia não estar ouvindo uma só palavra do que eu dizia. Impaciente, comecei a sacudi-lo.
Anda, Rafael! Não se faça de surdo comigo! Me conta o segredo!
Nada. Eu o sacudia com mais força.
Me conta o segredo!
Silêncio. A febre tomava conta de mim. Meu corpo inteiro tremia. Aos poucos, as coisas foram perdendo o contorno. Sem saber direito o que estava fazendo, comecei a apertar o pescoço dele com as duas mãos. Ele não reagiu. Apenas engasgava de tempo em tempo e punha a língua para fora. Me conta a porra do segredo, seu nerdezinho filho de uma puta!

Quinta-feira, Março 31, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 24

Mais uma vez tive a impressão de que a indiferença tinha desaparecido do rosto dele por um segundo.
E se você mesmo se fingisse de louco? Uma vez louco, você não serviria mais para eles. O segredo estaria trancado para sempre dentro de um cérebro doente e inacessível. Enfim, eles te deixariam em paz. Seria um plano esperto, não é verdade? Desesperado, mas esperto.
Parei de falar e o fiquei encarando. Eu estava me sentindo tonto. Além de doer muito, a minha cabeça girava. O fôlego começava a faltar. Sentia muito frio. As minhas mãos, os meus braços e as minhas pernas tremiam sem parar. Tentei me acalmar um pouco.
Só que é claro que, por mais assustado que você estivesse, você não pretendia ficar num sanatório o resto da sua vida. Não. Ninguém, por mais desesperado que esteja, quer ficar num sanatório para o resto da vida. Seria apenas uma temporada de férias. Só até a poeira lá fora baixar. Nesse caso, você precisava de um plano de saída. Obvio, não bastaria simplesmente dizer “Estou curado. Não estou mais louco.” para que eles abrissem as portas e deixassem você sair. O mais provável é que ninguém te desse ouvidos. Era preciso portanto convencer alguém de fora da sua sanidade. Fazer com que alguém concluísse por si só.
Eu sentia que já estava no final das minhas forças. O ar me faltava cada vez mais. Reuni o que sobrava do meu fôlego para concluir.
Foi para isso que você me escolheu. Não foi, Rafael? Para tirar você daqui. Para mim eles darão ouvidos se eu disser que você está são. Você conseguiu. Vou falar com o diretor. Conversaremos juntos com ele e você sairá logo, logo. Fique tranqüilo. Não mencionarei nada sobre o que descobri do seu segredo. Faremos de conta que você tinha mesmo enlouquecido e que ficou bom de repente, sem nenhuma explicação. Mas acho justo pedir alguma coisa em troca. Uma coisinha de nada em troca da sua liberdade. Quero saber o segredo, Rafael. O segredo que você guardou só para você durante esses quase três anos. Você me conta e eu tiro você daqui. E então, Rafael? O que você me diz?

Quarta-feira, Março 30, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 23

Nós temos pouco tempo, Rafael. Eu vou direto ao assunto. Fiquei sabendo de muita coisa desde a última vez que te visitei. Sei que você descobriu alguma coisa antes de vir para cá. Algum segredo. Alguma coisa importante. Que talvez estivesse relacionada com o atentado. Não sei que coisa é essa. Também não sei como foi que você descobriu. Mas sei que você queria ir para os Estados Unidos meses antes do atentado. Que você tem um sobrenome árabe. Que seu pai era um guerrilheiro durante a ditadura. Um guerrilheiro que odiava os Estados Unidos. Foi a sua tia que me contou. Mas ela nunca disse nada sobre que tipo de guerrilheiro era seu pai. Fácil pensar que era mais um com ideais socialistas lutando para libertar o país da ditadura. O período, o contexto apontariam para isso. Mas, talvez, ele não fosse nada disso. Talvez ele fosse alguém de origem árabe. Insatisfeito com o imperialismo americano. E se, por exemplo, supuséssemos que a família dele tivesse sido expulsa de suas terras por judeus em Israel? Que não tivesse tido alternativa além de emigrar? E se supuséssemos que seu pai tivesse se ligado a um grupo terrorista islâmico? Tudo muito improvável, Rafael. Tudo muito improvável. Mas quem acreditaria se predisséssemos o que aconteceu no World Trade Center?
Tive a impressão de que os olhos dele tinham se fixado em mim por um instante.
Tudo isso são só especulações, Rafael. Só especulações fúteis da minha cabeça. O que eu sei, do que eu tenho certeza é que você descobriu alguma coisa. Que estava sendo perseguido por causa disso. Que tinha gente atrás de você por causa desse segredo. Talvez tenham te torturado. Como aquele afegão na foto que eu te mostrei. Você estava com medo. Você precisava encontrar uma saída. Um jeito de se esconder. Um jeito de ser deixado em paz. Você estava desesperado. Talvez no dia do atentado suas informações passassem a valer mais. Eles viriam babando para cima de você. Que nem loucos. Quem nem loucos, Rafael. Foi então que você teve a idéia. “E se eu mesmo me fingisse de louco?”

Segunda-feira, Março 28, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 22

Saltei do carro na frente do hospício. Minha cabeça doía muito. Devia estar com febre. Talvez o amigo do Rafael tivesse razão. Talvez eu precisasse mesmo de assistência médica. Não dava tempo.
O funcionário da recepção já me conhecia. Disse a ele que precisava ver o Rafael.
Mas o diretor não me avisou de nada...
É urgente. Preciso falar com ele agora mesmo.
É que o diretor tinha me dito que acompanharia todas as suas visitas.
O diretor está aí?
Acabou de sair. Só volta amanhã.
Não posso esperar até amanhã. Preciso terminar um relatório para o meu estudo. É para amanhã e eu tinha esquecido. Meu professor vai ficar uma fera se eu não entregar. Só preciso falar com o Rafael uns dez minutos. Não vai demorar mais. Eu prometo. O diretor não precisa ficar sabendo. Você entende, não entende? Se você não me ajudar, eu estou na merda...
Ele ainda hesitou um pouco. Acabou me acompanhando até o quarto. Entramos. Rafael estava sentado na cama. Pareceu indiferente à nossa presença. Nem olhou para nós.
Preciso falar com ele sozinho.
O funcionário deixou o quarto resmungando que se o diretor soubesse daquilo ele seria mandado embora. Eu disse que ele podia ficar tranqüilo.
Saiu. Fechou a porta atrás de si. Corri e me ajoelhei na frente do Rafael. Estendi uma mão sobre o seu ombro. Eu estava tremendo de frio. Ele me olhava com o rosto inexpressivo.

Domingo, Março 27, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 21

Tive uma vertigem. Por um instante perdi o equilíbrio. Respirei fundo e segurei com as duas mãos no banco do motorista à minha frente.
Alguma coisa errada? Você está passando mal?
Respirei fundo mais uma vez. Soltei minhas mãos do banco. Acendi outro cigarro.
Eu estou bem. Continue.
Bom... Quando ele me viu ali, parado, olhando para ele com aquela bandeja na mão, ele tomou um puta de um susto. Queimou a mão no ferro. Deu um urro de dor e de raiva. Agarrou o lençol da cama e jogou por cima da mesa. Cobriu o circuito. Para que eu não visse. Depois começou a gritar comigo. Me perguntou que caralho eu estava fazendo ali. Que ele estava muito ocupado. Que estava trabalhando. Que não podia ser interrompido assim sem mais nem menos. Se quisesse mais doce ele me procuraria. Que eu fosse embora. Que não queria porra nenhuma para comer. Que levasse comigo aquela merda daquela bandeja. Que o cheiro daquilo já estava deixando ele enjoado. Enfim, me botou para fora como seu fosse um cachorro fedido. E sarnento...
As palavras dele se tornavam vaporosas na minha cabeça. Mais ou menos como no estado que precede o sono. Quando os pensamentos vão se desencadeando. Como um trem que descarrila. Os vagões perdendo o rumo. Ganhando independência cinética. A energia se libertando do julgo humano. A fumaça do meu cigarro dançava lúdica na minha frente. Com meu dedo indicador esticado, eu tentava dar a ela uma forma qualquer. De qualquer coisa bonita. De qualquer coisa que fizesse sentido.
Alô! Estou falando com você, cara! Você está me ouvindo?
Hein?
Perguntei se você está me ouvindo. Eu hein, velho. Você está com uma cara péssima. Devia consultar um médico. Olhou o relógio. Já é tarde. Se você não tem mais nada para me perguntar eu acho que eu já vou indo.
E... e depois dessa vez... dessa vez do circuito... você não viu mais o... o Rafael?
Teve uma última vez. Mas acho que aí já não conta. Ele já estava completamente maluco. Foi uns dias antes de ele ser internado. Ele foi lá em casa. Queria que eu vendesse doce fiado para ele. Eu disse que não. Não vendo fiado. Porque nesse negócio se você vende fiado e o cara não paga, você tem que matar o cara. Se não perde o respeito da clientela. E eu não gosto de matar ninguém. Muito menos um amigo meu. Por isso falei que sem chance. Não ia vender doce fiado para ele. Aí ele ficou furioso. Explodiu de verdade. “Vocês são todos um idiotas!” ele disse. “Todos uns retardados que não conseguem enxergar o que está bem na frente de vocês. Eu consigo. Eu sei de tudo. Está me entendendo? E eles nunca vão conseguir tirar o segredo de mim. Eu já achei a saída. Vou fugir. Me esconder num lugar onde eles nunca vão me encontrar”. E saiu dando risada. Depois disso eu não vi mais ele. Só muito tempo depois foi que eu fiquei sabendo que ele tinha sido internado e eu nem imaginava que... Cara! O que você tem? Está mesmo com uma cara péssima. Quer que eu te leve até um pronto-socorro?
Não... eu... eu estou bem... mas já deve estar tarde. Vim de metrô até aqui. Será que você não poderia... me dar uma carona?
Para sua casa?
Não. Para o sanatório.

Sábado, Março 26, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 20

Aposto que aquela vadia deu em cima de você.
Hein?
A puta que te deu o meu e-mail. Aposto que ela ficou jogando charminho para cima de você.
Por que você está dizendo isso?
Ele riu.
Aquela vaca dá em cima de todo mundo. É impressionante. Ela deve ser doente. Na hora H ela tira o corpo fora que eu estou ligado.
Ela dava em cima de você também?
Em mim não porque eu nunca dei trela. Mas dava em cima do Rafael o tempo todo.
Ela dava em cima do Rafael!?
Dava. Por quê?
Engraçado. Para mim ela falou que achava que era ele quem estava apaixonado por ela.
Ele gargalhou.
O Rafael? Ela deve estar mais maluca do que ele! O Rafael é a pessoa mais assexuada que eu já conheci. Só se interessava por matemática. Acho que teve uma namorada antes de se mudar para a capital e foi só. Quanto a essa garota da faculdade, ele mesmo vivia reclamando para mim que ela não largava do pé dele.
Ele atirou a bituca do cigarro pela janela e voltou a fechar o vidro.
Melhor você fechar a sua janela também.
Por quê?
Por causa dos homens.
Que que tem os homens?
Estão me vigiando...
Foi a minha vez de dar risada.
Ninguém está te vigiando.
E o que é que você sabe sobre isso? Está aí todo saidinho só porque deu sorte e conseguiu me desarmar. Aliás, conseguiu me desarmar o caralho. Se a arma fosse de verdade ia ter pedaço do seu cérebro por todo o pára-brisa.
Houve uma pausa.
Sou um bandido perigoso.
Dei risada novamente. Um bandido perigoso com uma arma inofensiva.
Inofensiva!? Você já viu no espelho tamanho da pelota na sua testa!? Além do mais, você sabe quanto custa uma arma de verdade? A venda de narcóticos está em baixa.
Dei risada outra vez.
Então é isso que você é. Um traficantezinho de faculdade. Um Zé-Ninguém preocupado com a polícia. Fica tranqüilo. A polícia está cagando e andando para você.
Você ainda não me perdoou pelo susto, não é mesmo? De qualquer jeito fala baixo. Eles podem estar te ouvindo. Diz aí. O que é que você quer de mim.
Já disse. Quero saber como foi e por que foi que o Rafael enlouqueceu.
Mas isso é muito simples. Vocês doutores não conseguiram descobrir sozinhos, não? Precisaram vir perguntar para o traficantezinho de merda aqui? O Rafael ficou maluco porque estava abusando do doce.
Do doce?
É, cara, do ácido.
Ele tomava ácido?! Você vendia ácido para ele?!
Só do da melhor qualidade.
E você acha que foi por isso que ele ficou louco?
Você é burro ou o quê? Eu não disse que ele enlouqueceu porque tomava ácido. Todo mundo toma ácido. Eu disse que ele surtou porque abusava do ácido. E se ele abusava, isso já não é culpa minha. Cada um tem que cuidar de si. Tem que saber os seus limites. O traficante é um homem de negócios. Não é necessariamente um assassino, mas também não é a mãe de ninguém. O cigarro também mata uma galera e ninguém fecha as porras das fábricas de tabaco. Ninguém enche o saco quando você vai comprar o seu cigarrinho. Se o cara abusa do álcool e atropela alguém, ninguém vai encher o saco do dono do bar. Então também não me venha azucrinar porque um cliente meu abusou do doce e ficou maluco.
Se tem alguém te azucrinando é a sua própria consciência... Eu cago montes para a sua responsabilidade ou ausência dela no enlouquecimento do Rafael. Já disse que meu interesse é científico. Não é moral. E não me venha com essa merda desse discurso ridículo de apologia ao tráfico. Faz uma coisa útil Me explica aí essa história de abusar do ácido.
É simples. Ele começou a comprar cada vez mais. Além disso, estava numa paranóia forte. Vivia me repetindo que tinha descoberto uma coisa. Uma coisa muito foda. Era o que ele dizia. Quando eu perguntava que coisa foda era aquela, ele me dizia que isso, infelizmente, ele não podia me contar. Eu não insistia muito porque já estava desconfiado que aquilo era viagem do doce.
Me diz uma coisa. Ele chegou a comentar com você alguma coisa sobre ir para os Estados Unidos.
Falou, sim. Falou muito, aliás. Mas isso foi antes... Ele apertou os olhos como se fizesse um esforço para se lembrar. É... isso foi bem antes. Ele nem estava tomando doce ainda. Isso não foi viagem. Isso foi coisa séria. O cara parece que estava meio desiludido com as possibilidades acadêmicas daqui. Queria ir para fora para estudar. Prestou uns exames e tal. Conseguiu a vaga. Não conseguiu a grana. Enfim, não deu certo...
Sei. E aí?
Aí ele ficou muito deprimido. É... foi isso mesmo. Foi aí que ele me falou pela primeira fez que estava querendo experimentar coisas novas. A gente já era amigo há algum tempo. Ele sabia que eu vendia droga na faculdade. Mas aquela foi a primeira vez que ele veio falar disso comigo. Disse que estava querendo conhecer melhor o mundo em volta dele. Daí eu sugeri que ele experimentasse o doce.
E ele?
Relutou um pouco no começo. Nem beber direito ele bebia. Acabou experimentando. Ficou fissurado. Na semana seguinte veio falar comigo com os olhinhos brilhando. Disse que queria mais.
E você deu mais para ele?
Dei não que dar a gente só dá a amostra grátis. Sabe como é. A gente tem que confiar no produto. Se o doce é bom, o cliente volta.
E ele voltou.
Voltou. Disse que tinha adorado. Que queria mais. Eu vendi mais para ele. E quanto mais ele ia tomando, mais ele ia querendo. Eu percebi que o cara estava se viciando pesado. Aumentei o preço. Na camaradagem. Para ver se ele se tocava que o negócio estava ficando sério para ele. Mas ele não se tocou. Gastava todo o dinheiro dele com isso. Uma fortuna por semana. Começou a matar aulas na faculdade. Depois veio com aqueles papos esquisitos.
De que tinha descoberto alguma coisa?
Isso mesmo. Tinha descoberto uma coisa foda. Não podia contar para ninguém. A vida dele estava correndo perigo. Tinha uns caras atrás dele. Querendo pegar ele por causa do que ele tinha descoberto. Era uma informação que não tinha preço. Que valia mais que muitas vidas humanas juntas. Enfim, doidera pura.
Comecei a sentir a minha cabeça latejando.
Depois teve outro dia que, como ele não aparecia mais na faculdade, eu fui até a pensão onde ele morava. Para ver se ele queria mais doce. Cheguei lá e a dona da pensão, que já me conhecia, foi dizendo para eu entrar. Que o Rafael estava enfurnado no quarto. Me perguntou se ele estava doente. Já fazia dois dias que ele não saía. Respondi que sim. Que eu estava ali para visitar ele. “Coitadinho”. “Leva isso aqui para ele e vê se ele come”. Subi as escadas com a bandeja na mão. Parei em frente da porta. Chamei. Ele não respondeu. Empurrei a porta com o pé. O Rafael estava sentado na frente de uma mesa. Tinha um ferro de soldar na mão. Estava trabalhando no que parecia ser uma espécie de circuito eletrônico, ou coisa do tipo.

Sexta-feira, Março 25, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 19

Olhei para ele indignado Tive vontade de bater mais. Rolei para cima dele de novo. Ergui o braço. Fechei o punho.
Ele gargalhava.
Não cara! Chega! Por favor, não bate mais em mim.
Está rindo do quê? Palhaço!
Você precisava – risos – você devia – risos – devia ter visto a sua cara de susto – risos – quando eu dei o primeiro tiro.
Ele mal conseguia abrir os olhos por causa do inchaço do rosto. Os dentes apareciam vermelhos do sangue que brotava das gengivas. O nariz talvez estivesse quebrado. Eu devia matar aquele imbecil. Não valia a pena. Eu estava cansado demais.
Idiota!
Saí de cima dele. Me encostei à porta. Abri a janela. Tirei do bolso um cigarro todo amassado e o acendi.
Ele também se levantou, ainda rindo. Abriu o porta-luvas e tirou de lá um pacote de lenços de papel. Começou a enxugar o suor do rosto e o sangue do nariz.
Cara, você me quebrou inteiro.
Devia ter te matado.
Ele riu outra vez.
Me dá um cigarro?
Dei. Ele abriu a janela do seu lado. Se encostou à porta. Começou a fumar também.

Quarta-feira, Março 23, 2005

Carência sem carisma

Cadê meus leitores, porra? Negócio é o seguinte. Resolvi radicalizar. Só continuo contando a história quando pelo menos três pessoas comentarem dizendo que já leram até aqui.

Se você dança com o Diabo - Capítulo 18

Ouvi o estalo da arma e senti uma ardência no meio da testa. Uma bolinha azul de plástico duro ricocheteou ainda no vidro da janela e depois desapareceu embaixo do banco do motorista. Passei a mão, trêmula, pela cabeça. Fiquei olhando para a arma um instante sem entender. Demorou meio segundo. Parti para cima dele furioso. Com um ódio que eu nunca tinha sentido antes. O canalha ainda me acertou outro tiro, na bochecha.
Ai, ai! Filho da puta!
Durante cerca de dez minutos nós trocamos murros e safanões no banco de trás daquele carro. Em certa altura, consegui tomar a arma e descarreguei o que tinha sobrado do pente de bolinhas na cara dele. Depois voltei a bater. Já o tipo mais se defendia do que me atacava. Só parei de esmurrar quando acabou o fôlego. Quando o braço, cansado, já não obedecia mais.
Rolei para o lado. Guardei a arma dele num bolso da jaqueta. Fiquei ali. Os olhos fechados. O peito arfando. O suor escorrendo pelo corpo. Depois de um tempo olhei para o lado e vi que ele também ainda estava lá. Meio morto. O rosto inchado. Sangue escorrendo do nariz.
Os vidros do carro estavam todos embaçados. Quem o visse de fora, acharia que dentro estava um casal de namorados. Mas não passava ninguém pela rua. No silêncio do local, ouvíamos apenas nossas respirações ofegantes. De repente ele começou a rir.

Se você dança com o Diabo - Capítulo 17

Nunca soube de onde tirei a coragem para ir ao encontro. Não tinha a mínima idéia se aquele cão apenas ladrava ou se também mordia. Latir, pelo menos, latia bem. Eu bem podia agora estar indo encontrar um maluco de verdade. Um psicopata. Nada como os mansos do hospício. Um psicopata. Solto e armado. Provocado pela minha teimosia.
Já não havia preço que fosse alto demais para desvendar o mistério. Tinha a sensação de que tinha nascido para isso. Se Deus existisse, ele teria me criado para descobrir a verdade. Somente a verdade. Nada mais que a verdade.
Você é o cara?
Eu esperava sentado num banco da praça quando ouvi a pergunta atrás de mim. Fiz um gesto para virar a cabeça. A mesma voz interveio num tom imperativo e grave:
Não vira para mim! Levanta! Depois murmurando no meu ouvido: Tenho uma arma apontada para sua coluna, palhaço! Prefere morrer ou ficar paraplégico?
Por correio eletrônico, as ameaças intimidam pouco. Outra coisa é ter uma voz ao ouvido dizendo que você vai morrer e sentir a pressão de uma arma contra o dorso. O medo me dominou. Tive vontade de sair correndo. Correndo o mais rápido que pudesse. Em zigue-zague entre as pessoas. Desaparecer na multidão. Me enfiar na primeira delegacia de polícia que encontrasse. Nunca mais sair de lá. Como deveria ser confortável e segura uma delegacia de polícia. Como seria bom estar numa delas agora. Tomando um café com o seu delegado. Vendo um monte de policiais armados que impediriam que um maluco viesse apontar uma arma para as minhas costas e me dizer que eu ia morrer.
Você está surdo? Porra! Eu disse para você ir andando para frente. Hei! Devagar, devagar. Para que a pressa? Assim é melhor. Vira à direita aqui nesta rua. Vai andando. À esquerda agora.
Ele foi me levando para uma rua deserta. Minhas pernas tremiam. Desespero. Tentava pensar numa maneira de escapar. Não conseguia.
Está vendo aquele carro preto estacionado ali na frente? Aquele filmado. Quero que você abra devagar a porta direita da frente. Depois senta no banco do passageiro e fecha a porta.
Enquanto eu obedecia, o sujeito, por sua vez, entrou pela porta traseira do mesmo lado e se sentou no banco atrás de mim. Agora não tinha mais jeito. Ele ia mesmo me matar. Que estúpido eu tinha sido. Deveria ter tentado fugir quando tinha tido a chance. Se eu tivesse saído correndo no meio da praça era improvável que ele se arriscasse a me assassinar na frente de tantas testemunhas. Meu medo, minha submissão tinham lhe facilitado muito o serviço. Agora podia me matar ali. À queima-roupa. Com um tiro preciso. Sem testemunhas. Agora eu ia morrer. Não podia fazer nada para me salvar. O pensamento se assentou na minha cabeça. Curioso. Senti uma certa tranqüilidade. Uma certa resignação. Afinal, não era um jeito tão ruim para se morrer. Um tiro assim na nuca não deveria nem dar tempo de doer. Talvez não desse nem tempo de eu ouvir o disparo. Desaparecer simplesmente. Como se fosse mágica.
Pode começar a falar, babaca! Quem é você? Por que está atrás de mim?
Fica calmo. Eu já te disse. Sou um estudante...
O caralho! Pensa que eu sou idiota? Pensa que eu vou engolir essa?
Fica calmo, por favor.
Ele apertou o cano da arma contra a minha têmpora esquerda.
Se você me mandar ficar calmo outra vez, prometo que vai ser a última, está me entendendo?
Estou.
Ótimo. Agora me diz. Se você é mesmo uma porra de estudante, por que está no meu pé que nem se fosse a porra da minha mãe? Por que não vai estudar outro caralho de pessoa?
Foi o que eu tentei te explicar nas mensagens que te mandei. Não é você que eu quero estudar. É um amigo seu. Um que enlouqueceu quando fazia faculdade com você. Se chamava Rafael Nasser. Você não se lembra?
Um instante de silêncio.
Sim. Eu me lembro do Rafael.
Novo silêncio.
Mas como foi que você conseguiu o meu e-mail?
Eu expliquei a ele.
Então foi aquela vaca que te deu o meu email?
Foi.
Vaca. Que estúpido que eu sou também. Já devia ter mudado essa porra desse endereço. O foda era avisar todos os clientes.
Enquanto ele se distraía falando consigo mesmo, aproveitei e dei uma espiada no retrovisor. Era um jovem franzino. Na mão esquerda segurava a arma. Apesar de próxima à minha cabeça, nesse momento ela estava apontada para outro lado. Era agora.
Fiz um movimento rápido. Girei o corpo. Agarrei o braço dele. Claro que não deu certo. Não podia nunca ter dado certo com uma arma assim tão perto da minha cabeça. Percebi isso no meio da manobra. Tive vontade de voltar atrás. Já não dava mais tempo.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 16

Demorou algum tempo para que o sujeito respondesse à terceira mensagem que enviei. Às duas primeiras tinha respondido apenas que não conhecia nenhum Rafael. Que não sabia do que eu estava falando. Na terceira resposta mudou de tom. Partiu para a ameaça franca.
Se você não parar de encher a porra do meu saco, eu te mato. Não me importa se você for da polícia ou que porra qualquer que seja. Eu te mato, entendeu?
Na quarta mensagem, eu tentei apaziguá-lo. Na quinta perdi a paciência e o insultei e recomendei a ele práticas sexuais consideradas indignas.
Não sei se ele gostou da sugestão. Sei apenas que se deixou vencer pela minha teimosia. Combinou comigo um encontro numa praça da cidade.
Se você tentar qualquer gracinha, saio atirando em quem estiver na frente: polícia ou civil. Não tenho medo de morrer. Levo para o inferno comigo alguém que tenha.

Domingo, Março 20, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 15

No caminho de volta para casa, a imagem dela ainda apareceu algumas vezes na minha frente. Como um adesivo colado ao pára-brisa. Como uma sujeira na lente dos óculos escuros. Como uma interferência na televisão.
A mensagem veio ainda no mesmo dia. Lá estava o endereço eletrônico que eu tinha pedido.
No mais, dizia ter me achado simpático. Me desejava boa sorte com o trabalho. Me perguntava se um dia não nos veríamos novamente. Me lembrava que, agora, eu já tinha o número do seu celular.

Sábado, Março 19, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 14

Não pude conter minha surpresa. Nem minha exaltação. Apertei com minhas mãos os ombros dela. Quase gritei:
O quê!?
Um pouco assustada com a explosão, ela balbuciou:
É... foi isso que ele disse... que estava com medo... medo do ataque...
Minha respiração estava ofegante. Ouvia meu coração bater dentro da minha cabeça.
Não é possível, não é possível!
Você está me machucando... Murmurou, cada vez mais assustada.
Desculpa. Mas...! Não! Não é possível! Afinal, de que ataque ele estava falando!?
Foi o que eu também perguntei para ele...
E ele!?
Deu uma gargalhada e começou a gritar: “das torradas! Das torradas!”
Das torradas!?
É... provavelmente ele já estava doidinho. Coitado. Não deve ter sido nada fácil para ele ter sufocado uma paixão durante três anos. Claro – eu acho que sei o que você está pensando – alguns dias depois, quando caiu o World Trade Center, eu fiquei toda arrepiada me lembrando do que o Rafa tinha me dito. Mas só pode ter sido coincidência. Afinal, o que ele podia ter a ver com tudo aquilo?
Cheguei a abrir a boca para responder. Percebi que a pergunta era retórica.
E essa foi a última vez que nós nos falamos. Alguns dias depois fiquei sabendo que ele tinha sido internado.
Longo silêncio. Me esqueci da presença dela e fiquei meditando.
Não. Meditar não é o verbo. Meditar pressupõe calma, tranqüilidade de espírito. E o meu era tomado pelo caos verdadeiro. Medo. Excitação. Angústia. Rafael tinha deixado para mim um caminho obscuro de pistas difíceis. Segui-las era como seguir os seus próprios passos. Era como percorrer o mesmo caminho.
A verdade não poderia estar longe agora. Eu sentia seu cheiro nos cabelos da garota. Ouvia seu murmúrio vindo de dentro das minhas próprias entranhas. Não. A verdade não estava longe. Como seria ela? Poderia eu suportá-la? Quão absurda e irracional ela pareceria? Poderia eu acreditar nela? Convencer-me dela? Convencê-los dela?
Tem mais alguma coisa que você queira me perguntar?
Tem sim. Eu estava pensando... Será que tem algum jeito de eu entrar em contato com esse outro amigo do Rafael? Esse que você disse que tinha cara de marginal...
Eu acho que tenho o e-mail dele em algum lugar. Quer que eu te mande?
Por favor.
Eu mando.
Breve silêncio.
E então?
Então o quê?
O que você acha?
O que eu acho do quê?
Ela riu.
Ih... mas você é distraidinho que nem o Rafa.
Ficou um instante me olhando nos olhos.
Você não acha que eu estou certa? Você não acha que ele enlouqueceu por minha causa?
Sorri.
Tenho certeza que sim.

Sexta-feira, Março 18, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo13

Fracassei na tentativa de conter o sorriso que a anedota me inspirou. Ela aproveitou para descarregar sobre mim um olhar reprovador na aparência. Talvez na essência também. Corrigi a expressão do meu rosto. Perguntei o que tinha se passado depois.
Depois a convivência entre eles se tornou insuportável. Foi nessa época que o Rafa decidiu vir estudar aqui e sair da casa da tia.
E vocês dois? Como foi que vocês se conheceram?
Satisfeita por voltar a ser o assunto da conversa, ela sorriu. Ajustou a postura no banco. Arrumou a blusinha que lhe comprimia os seios no decote.
Eu e o Rafa nos conhecemos no primeiro ano da faculdade. Vi que ele ficava sempre sozinho. Sempre quieto num canto. Anotando coisas num caderno. Fiquei com pena. Um dia, resolvi falar com ele. Ficamos amigos. Estudávamos juntos para as provas. Algumas vezes, almoçávamos. Com o tempo, ele passou a se comportar diferente. Passou a ter ciúme de mim. Não gostava que eu falasse de outros garotos. Vivia me olhando de um jeito esquisito. Fiquei assustada e me afastei um pouco.
E ele?
Começou a ficar cada vez mais estranho. Uns poucos meses antes de ser internado, passou a andar com as piores companhias. Principalmente com um menino da nossa turma. Um que tinha a maior cara de marginal. Os dois viviam juntos para lá e para cá. Pareciam estar aprontando alguma coisa. Olhavam para todo mundo como se estivessem desconfiados, como se tivessem algum segredo importante.
E depois?
Depois o Rafa veio com aquela história de ir estudar nos Estados Unidos. Parece que isso virou uma obsessão para ele. Chegou a prestar vários exames, a mandar currículos. Tinha até sido aceito em algum lugar. Não conseguiu ir porque não tinha grana para as despesas. Pediu dinheiro emprestado para a Tia. Aquele monstro não quis que ele fosse e não deu.
Alguma vez ele te disse por que ele queria tanto ir?
Não. Isso ele não disse.
E o que aconteceu depois?
Bem, eu me lembro que algumas semanas antes de ir para o hospício, ele começou a desaparecer da faculdade. Eu quase não via mais ele nas aulas. Quando aparecia estava com uma cara péssima. Devia ter alguma coisa muito séria atormentando ele. Fiquei preocupada. Perguntei o que estava acontecendo. Aí ele me olhou com um sorrisinho triste e disse: “eu descobri uma coisa”
Que coisa?
Foi o que eu perguntei na ocasião. Mas ele só ficou me olhando quieto. Não me disse mais nada. Daí eu comecei a desconfiar que o problema todo era que ele estava apaixonado por mim e não tinha coragem de me dizer.
Ela parou de falar e suspirou.
E essa foi a última vez que vocês se falaram?
Não. Teve ainda uma outra. Foi por telefone. Nas vésperas do internamento. Ele me ligou no meio da madrugada. Ficou mudo no começo. Quando eu já estava quase desligando, começou a soluçar. Percebi que era ele. Perguntei o que ele tinha. Não me respondeu. Ficou uns dez minutos chorando. Eu fiquei tentando acalmar. Um pouco mais sossegado, ele começou a repetir que não agüentava mais. Que estava com medo. Perguntei do que. Depois de ficar um tempo quieto, ele me disse que estava com medo do ataque...

Quarta-feira, Março 16, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 12

Me contou que antes de se mudar para a capital, Rafael tinha tido uma única namorada. Toda vez que se preparava para sair com a menina, a tia sofria de súbitos e agudos mal-estares. Reclamava de falta de ar, tonturas e dores no peito. Algumas vezes, tinha chegado a desmaiar.
O sobrinho mostrou paciência. Em diversas ocasiões, cancelou o programa. Mas a namorada se cansou logo daquilo e rompeu o relacionamento depois de meia-dúzia de ausências.
No dia em que os dois terminaram por telefone o namoro, Rafael, arrasado, tinha decidido sair de casa. Para espairecer. Desavisada, a tia acreditou que, como de costume, o rapaz pretendia encontrar a garota. De pronto vieram as tonturas, as dores no peito. Como Rafael parecia indiferente e sempre determinado a sair, a mulher desabou no meio da sala. Entre ele e a porta da rua.
Rafael não hesitou. Passou por cima do corpo caído. Uma perna, depois a outra. Não pisou em cima dela. Teve ainda essa atenção.
Mas quando já alcançava a porta, a tia lhe agarrou por uma das canelas. Quase o derrubou ao chão. Pôs-se a gritar com ele. Com um movimento brusco, ele se desvencilhou. Ganhou, enfim, a porta da rua.
Junto com ele, para fora da casa, pela porta deixada aberta, vinham os gritos estridentes e enfurecidos da mulher:
– Ingrato! Desalmado! Bastardo! Eu aqui morrendo e você passa por cima de mim como se eu fosse um entulho!?