Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
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Quarta-feira, Abril 27, 2005

Se você dança com o Diabo - ÚLTIMO CAPÍTULO

São poucos os momentos em que consigo pensar com clareza.
Passo a maior parte do dia dopado. Babando como os outros internos. Só me deixam são durante as refeições, para que eu possa mastigar e engolir a comida, amarrado na minha cadeira de rodas.
Já não sei há quanto tempo estou aqui. Às vezes parecem dias, às vezes, anos.
São poucos, bem poucos, os momentos em que consigo raciocinar direito. Acho que já disse isso. Mesmo nesses poucos momentos, o ódio atrapalha muito. Eles me amarram e me dopam porque sabem que do contrário eu matava todos eles.
Já não sei bem quanto tempo faz que eu estou aqui. Foi o Rafael quem me traiu. Foi o Rafael quem me entregou para eles. De curiosidade morreu o gato, eles dizem.
Estou há muito tempo aqui. Não sei bem quanto. E foram raras as vezes em que pude refletir com lucidez. O ódio perturba muito. E não é a sacanagem que eles fizeram comigo. Não é estar aqui trancado como um animal raivoso. Não é a falta de esperança para o futuro. Não é aquele canalha traidor do Rafael. Não é nada disso o que me deixa realmente furioso...
Acho que vou ficar aqui para sempre. Talvez nunca mais eles me deixem pensar de verdade. Os remédios causam alucinações. Tenho pesadelos durante a noite.
Sonho com o Rafael. Ele está parado na minha frente. Faço força para esticar os meus braços. Quero apertar o seu pescoço. Mas os meus membros se atrofiam e eu não consigo mais alcançá-lo. Ele ri por muito tempo. Balança meu nariz e desaparece.
Acordo. E com os meus gritos acorda também o resto do hospício:
Rafael! Pelo amor de Deus, Rafael! Me conta o seu segredo! Rafael, seu nerdezinho filho de uma puta leprosa! Me conta! Por favor, me conta a porra do seu segredo!
Não sei se é ainda um resto de sonho, se é alucinação ou se é verdade. Mas, vindo de muito longe, de outra ala do sanatório, viajando pelos corredores, reverberando pelas paredes, tenho a impressão de ouvir o longínquo e eufórico eco de um inconfundível te enganei.

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Se você dança com o Diabo - Penúltimo capítulo (34 de 35).

Chegamos ao sanatório de madrugada. Os funcionários da portaria estranharam nossa presença ali naquele horário. Mais uma vez, foi providencial a colaboração do diretor. Disse a eles que se tratava de um caso muito urgente, que não poderia esperar até a manhã seguinte.
Entramos. Receberam-nos lá dentro dois enfermeiros que estavam de plantão. O diretor, seguindo minha orientação prévia, pediu a eles que fossem buscar o Rafael.
Quem? Perguntaram os dois ao mesmo tempo.
O Te enganei. Respondeu o velho.
Mas... a essa hora ele está dormindo...
E eu perguntei alguma coisa? Tragam ele aqui! Já!
Aqui!? No saguão!?
É, suas mulas! Aqui, no saguão!
Era abusar da sorte. Os enfermeiros ficaram desconfiados. Talvez já tivessem reparado no rosto pálido e nas roupas amassadas do velho. Começaram a se aproximar de nós.
O senhor tem mesmo certeza de que está tudo bem?
Eu não tinha alternativa. Tirei a arma do bolso da jaqueta e, agarrando o diretor pelo pescoço, encostei-a na sua cabeça.
Não! Não está tudo bem! Não está nada bem! Tem um maluco com uma arma apontada para a cabeça do seu chefe e vocês podem ter certeza que eu apago ele se vocês tentarem qualquer coisa! Entenderam!? Você! Fica parado aí! Nem pense em se mexer! E você vai lá buscar o Rafael agora! Anda! Estou mandando! Você tem trinta segundos!
Mas...
Vinte e nove! Vinte e oito!
O enfermeiro desapareceu por alguns instantes e voltou puxando o Rafael pelo braço. Sonolento, o interno andava devagar e era quase arrastado pela impaciência do funcionário.
Rafael! Me escuta! Eu falhei com você. Me perdoa! As coisas se complicaram.
Ele parou ao meu lado e agora me olhava em silêncio.
Não tive escolha. Vim te resgatar. Vou tirar você daqui à força. Eu sei que você tinha planejado as coisas de um outro jeito. Sei que você ficou com medo de voltar a ser torturado se eles soubessem que você não estava louco de verdade.
O interno permanecia em silêncio.
Me desculpa! As coisas se complicaram muito. Mas não esquenta. Vou tirar você daqui. Nós vamos fugir. Sou de uma família rica, Rafael. Meu pai é uma pessoa influente. Vai conseguir nos proteger. Vai conseguir fazer a gente sumir por uns tempos. Eu vou falar com ele e vai ficar tudo bem. Você vai ver, o meu pai vai...
Não tive tempo de terminar a frase.
Rafael deu uma larga gargalhada. Pulou na minha frente. Prendeu o meu nariz entre os dedos, balançando de um lado para o outro.
Te enganei! Te enganei!
No susto, disparei a arma. Ouviu-se um estalo seco, seguido de um gemido do diretor. A bolinha azul de plástico duro foi rolando pelo chão até parar no pé de um dos enfermeiros. Arremessei a pistola contra o rosto do primeiro funcionário que tentou se aproximar. Acertei o nariz dele. Larguei o pescoço do professor. Tentei me virar para sair correndo, mas não consegui me desvencilhar do Rafael que me abraçava com gritos eufóricos.
Te enganei! Te enganei!
O segundo enfermeiro nos alcançou. Me imobilizou com um mata-leão. O primeiro chegou em seguida, com o nariz sangrando, furioso. Acertou um soco forte no meu estômago.
Depois disso apenas dor e o mundo escurecendo.

Domingo, Abril 24, 2005

Se você dança com Diabo - Capítulo 33 (de 35)

Depois de ter desamordaçado o velho, coloquei o caderno aberto sobre seu colo.
Segurando a arma de bolinhas na mão direita, eu disse com a voz muito calma:
Leia.
O que é isso?
Leia.
Ele obedeceu. Fixou o olhar no caderno e se concentrou. Um instante depois, quando percebeu do que se tratava, ergueu novamente os olhos para mim.
Onde foi que você conseguiu isso?
Permaneci em silêncio. Sem esperar minha resposta, ele voltou a ler o manuscrito. Como continuava amarrado na cadeira, me pedia para virar a folha, ao final de cada página.
Terminada a leitura, ele fez uma cara pensativa. Murmurou apenas.
Agora sim eu entendo porque o te enganei ficava tão nervoso com o café-da-manhã...
Explodi.
Ergui meu joelho direito à altura do peito e, empregando toda a força da minha perna, derrubei, com um coice para frente, a cadeira com o diretor de costas no chão.
Perdi a porra da minha paciência com você, velho! Disse, chutando as costelas dele. Você ouviu? Perdi a paciência! Vocês acham que eu sou o quê!? Algum idiota!? Vocês acharam mesmo que iam conseguir me enganar com essa merda!? Perguntei, pegando o caderno do chão e o arremessando com força contra a cara dele. Vocês acharam mesmo que eu ia acreditar nessa porra dessa história ridícula!? Anda! Levanta daí! Ergui a cadeira com ele, puxando pelos seus cabelos. Comecei a desamarrá-lo. Nós vamos dar mais uma voltinha...

Sábado, Abril 23, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 32 (de 35)

Quando alguém encontrar esse caderno, eu já estarei morto.
Fui obrigado a me matar para poder validar os resultados do meu experimento.
A idéia por trás da minha experiência me ocorreu há alguns meses, quando, apesar de todos os meus esforços, não consegui realizar o maior de todos os meus sonhos: ir estudar matemática nos Estados Unidos.
Foi então que, com a ajuda de narcóticos, que enriqueceram minha percepção, cheguei à conclusão que quanto mais se quer uma coisa, maior a probabilidade de essa coisa dar errado.
É verdade que todo mundo já fez essa constatação em algum momento da vida.
Ninguém nunca a demonstrou empiricamente.
Dessa maneira, após ter tido a revelação, fiquei determinado a prová-la por estatística.
O enunciado da minha teoria era: “a probabilidade de um evento é inversamente proporcional a toda a vontade consciente associada a ele”.
Escolhi, por casualidade, testar minha hipótese com um fenômeno já constatado na cultura popular: a queda do pão com manteiga.
Diz o folclore que o pão com manteiga sempre cairá com o lado amanteigado para baixo. Minha intuição me disse que se tratava de uma exageração de algo verdadeiro. Óbvio que, uma vez ou outra, o pão cairá com o lado amanteigado para cima. No entanto, supus que seria capaz de demonstrar que a tendência do pão era de cair, na grande maioria das vezes, com a manteiga para baixo.
Tendo escolhido o objeto da minha pesquisa, era necessário, em seguida, detalhar o modus operandi do experimento.
Em primeiro lugar, decidi usar o pão de forma. Isso porque o seu formato mais homogêneo e simétrico seria mais aerodinamicamente neutro do que o do seu rival, o pão francês. Além do mais, o centro de gravidade variaria menos de uma fatia para a outra.
Em segundo lugar, a manteiga deveria ser passada no pão só depois que o mesmo fosse ligeiramente torrado, para que não houvesse risco de deformação pela pressão exercida pela faca.
Em terceiro lugar, a camada de manteiga deveria ser bem fina, para que sua massa, em relação ao total da fatia amanteigada, pudesse ser considerada desprezível e para evitar, mais uma vez, variações do centro de gravidade das fatias.
Tendo determinado essas condições iniciais, passei à segunda fase do experimento, isto é, a prática.
Dei início aos arremessos.
Na primeira tentativa, lancei sucessivamente ao ar 100 (cem) fatias de pão amanteigado. Claro que, antes de cada novo arremesso, tive o cuidado de anotar o resultado da queda anterior e de remover a fatia caída do chão.
Para a minha surpresa, obtive um resultado bastante avesso ao que esperava. 52 (cinqüenta duas) quedas com a manteiga para cima (doravante QC), 48 (quarenta e oito) com a manteiga para baixo (doravante QB).
Fiquei tão frustrado com esses primeiros resultados que quase desisti da minha teoria. Porém, refletindo melhor, cheguei à conclusão de que deveria haver alguma interferência nos arremessos que eu estava esquecendo de levar em conta. Meditei a respeito e supus que o problema era que eu tinha coberto o chão das quedas com jornal, para evitar sujeira.
Ora, a sujeira era mais do que necessária. Do contrário, o prejuízo da queda com a manteiga para baixo seria minimizado. Minimizado o prejuízo, minimizada seria a probabilidade de ele ocorrer.
Repeti a experiência sem os jornais. 49 QC; 51 QB.
Matematicamente, ainda era um empate. Todavia, fiquei entusiasmado com o aumento das QB e pensei que, talvez, se eu aumentasse o prejuízo, conseguiria aumentar sua incidência.
Fui a uma loja de tapetes importados e gastei todas as minhas economias em um pequenino, porém caríssimo, tapete persa. Passei a arremessar as torradas em cima dele. Após cada queda. Eu retirava a torrada, limpava o tapete, anotava o resultado e partia para o arremesso seguinte.
47 QC; 53 QB. O tapete tinha dado resultado, mas ainda não era o suficiente. Era necessário aumentar ainda mais o prejuízo causado pelas QB. No entanto, eu não tinha dinheiro para comprar um tapete mais caro do que aquele.
Talvez se eu me humilhasse um pouco pudesse obter números mais significativos.
Decidi então que, cada vez que fosse limpar o tapete, ao invés de fazê-lo com um pano úmido, como vinha fazendo, passaria a limpá-lo com a própria língua.
A sensação de lamber um tapete amanteigado era horrível. Me enchia de náuseas e de pelos na boca. Cheguei a vomitar uma vez.
46 QC; 54 QB. Mais uma vez os resultados demonstraram que eu estava no caminho certo. Essa alegria, porém, foi perturbada por uma preocupação. Comecei a ter a sensação de estar sendo observado na rua e nos lugares públicos. Passei a desconfiar que talvez alguém estivesse a par da minha descoberta e quisesse roubá-la de mim. De todo modo, como ainda não tinha certeza de nada, resolvi continuar com meus experimentos e ver o que aconteceria.
Prejuízo financeiro, humilhação e náusea... Que mais eu poderia acrescentar à experiência para afinar os resultados?
Dor.
Talvez pudesse refinar o experimento com dor. Interrompi temporariamente os testes para construir um circuito elétrico que me permitisse, através do pressionamento de um botão, infligir-me choques bastante violentos cada vez que ocorresse uma QB.
Foi duro. Acho que quando tive a idéia do circuito não imaginei quão dolorosas e desgastantes seriam aquelas seções de eletrochoque. No final da nova série de arremessos, após haver lambido aquele maldito tapete dezenas de vezes e me submetido a dezenas de choques elétricos, eu estava tão emocionalmente abalado que desabei na minha cama chorando e fiquei assim por muito tempo. Perdi a consciência. Penso que desmaiei. Sonhei com torradas voadoras. Elas estavam atacando a cidade e matando todas as pessoas. Acordei e liguei para uma amiga no meio da madrugada. Disse a ela que as torradas estavam prestes a atacar a cidade e achei aquilo muito engraçado. Tive um ataque de riso e desliguei o telefone. Continuei rindo até desmaiar novamente. Acordei no dia seguinte ainda bastante perturbado. Olhei para os lados. Tive certeza que tinham estado no meu quarto durante a noite. Os malditos estavam atrás da minha descoberta. Eu passara por todo aquele sofrimento e eram eles que iam ficar com a glória. Corri para a mesa e verifiquei que as minhas anotações ainda estavam lá, apesar de estarem remexidas.
Finalmente, contabilizei os arremessos que tinha feito acompanhados dos choques. 50 QC; 50 QB.
Fiquei desesperado. Alguma coisa estava errada. Alguma coisa deveria estar errada na base da minha idéia.
Levei dias de muita angústia para perceber qual era o problema.
Entendi, enfim, que o meu próprio experimento era um paradoxo em si mesmo. O desejo de ser bem sucedido na experiência estava fazendo, a cada queda, com que, ao contrário do que normalmente ocorreria, eu desejasse uma QB. O meu desejo pela QB tinha, desde o começo, atrapalhado tudo, pois de acordo com a minha própria teoria, o desejo levava ao fracasso.
Assim, meu desejo cada vez maior por uma disparidade entre as QB e as QC, potencializado pelos suplícios auto-impostos, estava fazendo com que justamente o contrário ocorresse, isto é, que houvesse incidências semelhantes dos dois eventos.
O maior problema é que, mesmo através dessa nova interpretação dos fatos, nada ficava provado, já que a incidência próxima coincidia com o que seria esperado que ocorresse sem nenhuma interferência da vontade e, por conseqüência, da minha teoria.
O segredo, portanto, estava em não desejar.
Mas como podia eu não desejar aquilo que mais queria? O paradoxo parecia matematicamente insolúvel.
Analisando a raiz do meu desejo, percebi que se tratava de um desejo de fama, de reconhecimento, de aplauso. E se eu garantisse que ninguém jamais saberia o resultado do meu experimento? Nesse caso, ficava anulado o desejo de ser reconhecido. Mas como garanti-lo absolutamente? Só se eu me matasse após o término do mesmo, depois de haver destruído todas as minhas anotações a respeito. Sim, nesse caso ninguém jamais saberia do resultado final. O que esvaziaria o experimento em si de qualquer sentido prático.
Era essa a idéia.
Claro que ainda sobraria o desejo de ter tido razão. De ter estado certo desde o começo. Mas esse desejo seria suficientemente compensado pelo medo da morte e do vazio que anularia qualquer prazer de ter inferido a verdade.
Restava, por fim, analisar a hipótese de o experimento funcionar e eu não me matar depois. Eu não podia garantir de nenhuma forma às leis da probabilidade que eu chegaria às vias de fato. O que eu poderia fazer para convencê-las da minha real intenção?
Era simples. Se o experimento funcionasse e em seguida eu não me matasse, seria exatamente o mesmo que o experimento não ter funcionado. Sem a minha morte subseqüente, toda a fundamentação teórica da experiência ia por água abaixo. O resultado seria considerado aleatório como qualquer outro.
Foi assim que eu decidi me matar.
Para obter a coragem necessária para realizar novamente o experimento, com as lambidas no tapete, com os choques elétricos e, dessa vez, com meu suicídio no final, fui procurar um amigo para conseguir narcóticos. Ele se negou. Procurei outro traficante e pedi uma amostra grátis. Ele me deu.
Continuam me seguindo. Já não resta a menor dúvida sobre isso. Quando voltei da minha excursão de compra de narcóticos, reparei que, da esquina da rua da pensão onde moro, um motoqueiro me observava. Era uma moto esportiva. Ele vestia um grande sobretudo negro, apesar do calor. Não pude ver o rosto dele, pois o capacete preto, com viseira preta, o cobria.
Já não faz diferença. Assim que terminar de escrever essa carta, prosseguirei com a etapa final do experimento, tomando primeiro os narcóticos e, logo em seguida, iniciando os arremessos. Ao terminá-los, cometerei suicídio.
Deixo essa carta de despedida para o mundo e parto como se fosse uma sonda lançada em direção a um buraco negro. Um empreendimento sem sentido. A sonda jamais poderá voltar ou mandar qualquer sinal para a Terra
O fato de eu ter deixado essas anotações em nada compromete a base teórica da experiência. Apesar de deixar escritas, a título de explicação para meu suicídio, as idéias principais do meu experimento, não revelarei jamais o resultado final.
Adeus!

Sexta-feira, Abril 22, 2005

Inspirado no Andersão.

E aí? Que tal vocês acharam a aparição heróica do Jonathan - inspirado no Anderson - na história?

Se você dança com o Diabo - Capítulo 31 (de 35)

Fiquei sentado sob o olhar vigilante do grandão. Depois de um tempo ela voltou trazendo o caderno.
Muito obrigado.
Agora você já pode ir embora, disse o rapaz.
Eu já estou indo. Mas antes vocês vão me explicar direitinho que história é essa dos “outros”.
O grandão fechou a cara e o punho. Começou a andar em minha direção. Tirei a arma do bolso e apontei para ele. A mulher deu um grito histérico e caiu desmaiada no chão. Ele parou um instante. Chegou a recuar um passo. Depois deu uma gargalhada.
O que você está pensando que eu sou, ô palhaço? Algum idiota? Essa arma aí é de mentira.
Enfiei a arma de volta no bolso. Dei meia volta. Saí correndo pela porta com o caderno na mão. Era melhor eu desaparecer antes que seu bom-humor passasse.
Se você voltar aqui eu parto a sua cara, está me ouvindo?

Quinta-feira, Abril 21, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 30 (de 35)

Era uma mulher muito gorda. Os cabelos grisalhos. Olheiras profundas embaixo dos olhos. Rugas que despontavam por toda parte.
Boa noite. A senhora é a dona da pensão?
Sou eu sim. Diz logo o que você quer.
A senhora se lembra do Rafael? Um estudante que morou aqui há mais ou menos um ano e que
Eu sabia que eu não devia ter deixado você entrar! Ah! Como eu sou ingênua! Eu já disse que não tenho nada a dizer sobre esse estudante! Nem sobre ele, nem sobre os outros!
Outros!?, perguntei pasmo. Que outros!?
Ela me olhou confusa durante alguns segundos.
Então você não sabe dos outros?
Não. Que outros!?
Não interessa! Não é nada.
Agora a senhora vai falar.
Não vou não! Filho! Ô meu filho!
Uma porta se abriu e apareceu um jovem gordo e barbudo, com cara de poucos amigos.
Algum problema, mãe?
Pergunta para o rapaz aqui. Algum problema, meu rapaz?
Algum problema, babaca?, perguntou o sujeito, enquanto uma barata caminhava timidamente para fora da porta que ele tinha deixado aberta.
Problema nenhum, problema nenhum. Acho que fiquei um pouco nervoso. Me desculpem. Já passou. A senhora não me deu chance de me explicar. Sou primo do Rafael. Minha mãe, tia dele, foi quem me mandou. Ela está à beira da morte. Me pediu para vir buscar um caderno dele que ficou aqui. Eu não sei por que, de uma hora para a outra, ela cismou que quer o caderno. Como pode ser o último desejo da minha velha e como ela me disse que a senhora tinha ligado dizendo
Liguei mesmo, interrompeu ela, mais calma, mas isso já tem um tempo. Sua mãe me disse que não queria nada. Que eu podia jogar tudo fora.
E a senhora jogou?
Não. Quer dizer. Eu me desfiz de quase tudo. Dei as roupas e tudo que se podia aproveitar. Mas, por acaso, acabei guardando um caderno. Talvez seja esse mesmo que você está querendo. Pelo menos foi o único que estava nas coisas dele. Não sei se vai servir de alguma coisa.
Por quê?
Naquela manhã que ele foi para o sanatório, eu ouvi gritos no quarto dele. Era o Rafael que estava berrando muito alto. Te enganei! Te enganei! Berrava isso e depois dava uma gargalhada. Fiquei assustada. Chamei meu filho. Dei a chave reserva do quarto na mão dele. Ele destrancou a porta e nós entramos. O Rafael estava sentado no chão do quarto. Tinha uma arminha de brinquedo na mão. Daquelas que atiram água. Erguia até a cabeça. Apertava o gatilho. Depois de receber uma esguichada ele gritava te enganei! Te enganei! E dava uma gargalhada. Ficamos assustados e chamamos a polícia. Os policiais quando viram aquilo não tiveram dúvida. Enlouqueceu. Manda para um sanatório. Chamamos então uma ambulância que veio buscar ele. Depois telefonei para a sua tia avisando. O resto você já sabe.
Sim, mas o que tem tudo isso a ver com o caderno? Por que você disse que ele não vai servir mais?
É verdade. Eu me esqueci. O caderno estava em cima da cama. Mas ele tinha arrancado as folhas e picotado tudo. Os pedacinhos de papel estavam por todo o quarto.
E o que a senhora fez com eles?
O que você queria que eu fizesse com um monte de papel picado? Joguei fora. É claro.
Então parece que eu perdi a minha viagem.
Bom. Não sei por que a sua tia podia querer aquele caderno. Não sei se vai adiantar alguma coisa. Mas o Rafael deixou umas dez páginas escritas nele. Um monte de maluquice, mas está aqui. Eu guardei. Sente-se. Eu vou buscar para você.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

Tradutor automático.

Vejam como ficou o capítulo 28 no tradutor automático!

He was not difficult to find the second pension where Rafael had lived. He was accurately in front of the college, as its aunt had informed.A great signboard where if it read Pension Harmony. Some engraçadinho had pichado the poster, adding a DES in the front of the Harmony.When I went down of the car, I repaired in a citizen that, with a can of spray, finished a new pichação in the green wall.Care! Pension of the death!So soon he saw me, the youngster left running and disappeared in a esquina.I touched the bell some times without getting reply. Finally, a woman opened a window and cried out for is.They go even so, its moleques badly-servant! They leave me in peace!I placed myself ahead of the window.Good night. It forgives me for bothering in this schedule. I have a very urgent subject to deal with the owner of this house.Jornalzinho of excrement can come back toward its, the woman cried out. Vocês is losing its time! I already said that I do not go to give to interview none!Mine lady! I am not of periodical none. I am prime of a student who liveed here has more or but one year. Necessary to talk with Mrs. on a urgent subject. It is a case of life or death. Please, it opens the door so that I can explain everything.It looked at me from above low, the distrustful one. She closed the window. After some minutes she opened the door of the house.
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Se você dança com o Daibo - Capítulo 29 (de 34)

Não foi difícil encontrar a segunda pensão em que o Rafael tinha vivido. Ficava exatamente em frente à faculdade, como sua tia havia informado.
Um letreiro grande onde se lia Pensão Harmonia. Algum engraçadinho tinha pichado o cartaz, acrescentando um Des na frente do Harmonia.
Quando desci do carro, reparei num sujeito que, com uma lata de spray, terminava uma nova pichação no muro verde.
Cuidado! Pensão da morte!
Tão logo me viu, o rapaz saiu correndo e desapareceu numa esquina.
Toquei a campainha algumas vezes sem obter resposta. Por fim, uma mulher abriu uma janela e gritou para fora.
Vão embora, seus moleques mal-criados! Me deixem em paz!
Eu me coloquei diante da janela.
Boa noite. Me desculpe por incomodar nesse horário. Tenho um assunto muito urgente para tratar com a dona dessa casa.
Pode voltar para o seu jornalzinho de merda!, gritou a mulher. Vocês estão perdendo o seu tempo! Eu já disse que não vou dar entrevista nenhuma!
Minha senhora! Eu não sou de jornal nenhum. Sou primo de um estudante que morou aqui há mais ou menos um ano. Preciso conversar com a senhora sobre um assunto urgente. É um caso de vida ou morte. Por favor, abra a porta para que eu possa explicar tudo.
Ela me olhou de cima a baixo, desconfiada. Fechou a janela. Depois de alguns minutos abriu a porta da casa.

Domingo, Abril 17, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 28 (de 34)

Está tudo bem... Disse o velho com um sorriso para o funcionário e para a enfermeira que esperavam do lado de fora. Ele já me explicou tudo. Estava só testando o paciente. Verificando se reagiria frente a uma situação de violência. Todo modo, meu jovem, eu gostaria que você fosse jantar comigo. Precisamos discutir algumas coisas.
Com todo prazer, senhor diretor.
O funcionário olhou para nós desconfiado. Senhor diretor, tem certeza que está tudo bem?
Claro que está tudo bem, sua besta! Agora vai ver como está o Rafael.
Deixamos o sanatório.
Murmurei no ouvido dele: bom trabalho! Continue assim e nós vamos nos entender perfeitamente.
Por favor, não faça nenhuma besteira.
Cala a boca. Vamos indo.
O carro dele estava estacionado na rua. Fiz com que entrasse e se sentasse no banco do motorista. Entrei pela porta traseira do mesmo lado. Me sentei atrás dele, apontando a arma para a sua cabeça.
Agora liga o carro e dirige. Lembre-se, velho. Não me desaponte.
Disse o endereço da minha casa e ele nos conduziu até lá. Saltamos do carro.
Para não levantar suspeitas, informei ao porteiro do meu prédio que aquele era meu tio-avô. Tinha chegado de viagem e ia passar uns dias comigo.
O senhor quer que eu ajude com as malas?
As malas se extraviaram no aeroporto. Colocaram no avião errado e elas foram parar em Buenos Aires. Vão chegar daqui uns dias.
Subimos ao meu apartamento.
Você mente muito bem, velhote. Eu já devia ter imaginado.
Depois de acompanhá-lo ao banheiro, levei-o para o quartinho de empregada. O amarrei a uma cadeira com um cabo de extensão e o amordacei com fita adesiva. Tranquei a porta por dentro e guardei a chave.
Procurei pelo número do celular da amiga de Rafael.
Alô?
Oi. Sou eu, o cara que estava estudando o Rafael...
Oi! Que bom que você ligou!
Escuta, eu estava pensando naquela nossa conversa do outro dia e me lembrei que você tinha mencionado um caderno... um caderno que você disse que o Rafael tinha... que ele vivia anotando coisas...
Sim, eu me lembro.
Então... na hora eu não dei muita atenção porque era muita informação. Mas agora eu me lembrei disso e acho que o tal caderno pode ser fundamental para o meu estudo. Você tem alguma idéia de onde ele pode ter ido parar?
Nossa... depois de tanto tempo não sei não. Talvez a tia dele tenha guardado. Você já tentou perguntar para ela?
Alô?
Boa noite. Eu sou o estudante que esteve aí no outro dia. Não sei se a senhora se lembra?
Sim, sim. Como vai? Descobriu alguma coisa sobre o Rafael?
Ainda não. Na verdade estou numa pista importante e gostaria que a senhora me ajudasse.
Pista? Então agora você é um detetive?
Eu me expressei mal.
Sei. Em que posso ajudar?
Estou procurando um caderno. Um caderno do Rafael.
O Rafael era um estudante. Tinha muitos cadernos.
Sim. Mas esse era um caderno que ele tinha sempre com ele. Em que vivia anotando coisas.
Acho que não vou poder te ajudar. Fazia muito tempo que eu não via o Rafael quando ele foi internado.
Mas e as coisas dele? A senhora não foi buscar as coisas dele na pensão onde ele morava?
Ouvi um gritinho do outro lado da linha. Pareceu semelhante àquele que ela emitira quando eu tinha entornado o cinzeiro no tapete. A sua voz se tornou excitada.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha!
O que foi?
Acabei de me lembrar que, faz uns três meses, a dona da pensão onde o Rafael morava me telefonou e me disse que estava com umas coisas dele guardadas lá ainda. Se eu não queria ir buscar. Eu disse que não. Que ela podia jogar fora.
Espera aí. Mas eu liguei para aquele número que a senhora me deu e me disseram que a pensão já tinha fechado há mais de seis meses!
Novo gritinho.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha! Eu devo ter te dado o número da pensão antiga onde o Rafael ficou logo no começo quando se mudou para a capital. Mas o Rafael só morou lá por umas semanas e depois se mudou para uma outra pensão que era bem em frente à faculdade dele. Eu lembro que fui visitar e levar umas coisinhas logo depois de ele ter se mudado. Era muito melhor que a outra. Uma casa grande e verde se não me falha a memória. Deve ter sido algum amigo dele que... Alô? Alô?

Sábado, Abril 16, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 28 (de 34)

Está tudo bem... Disse o velho com um sorriso para o funcionário e para a enfermeira que esperavam do lado de fora. Ele já me explicou tudo. Estava só testando o paciente. Verificando se reagiria frente a uma situação de violência. Todo modo, meu jovem, eu gostaria que você fosse jantar comigo. Precisamos discutir algumas coisas.
Com todo prazer, senhor diretor.
O funcionário olhou para nós desconfiado. Senhor diretor, tem certeza que está tudo bem?
Claro que está tudo bem, sua besta! Agora vai ver como está o Rafael.
Deixamos o sanatório.
Murmurei no ouvido dele: bom trabalho! Continue assim e nós vamos nos entender perfeitamente.
Por favor, não faça nenhuma besteira.
Cala a boca. Vamos indo.
O carro dele estava estacionado na rua. Fiz com que entrasse e se sentasse no banco do motorista. Entrei pela porta traseira do mesmo lado. Me sentei atrás dele, apontando a arma para a sua cabeça.
Agora liga o carro e dirige. Lembre-se, velho. Não me desaponte.
Disse o endereço da minha casa e ele nos conduziu até lá. Saltamos do carro.
Para não levantar suspeitas, informei ao porteiro do meu prédio que aquele era meu tio-avô. Tinha chegado de viagem e ia passar uns dias comigo.
O senhor quer que eu ajude com as malas?
As malas se extraviaram no aeroporto. Colocaram no avião errado e elas foram parar em Buenos Aires. Vão chegar daqui uns dias.
Subimos ao meu apartamento.
Você mente muito bem, velhote. Eu já devia ter imaginado.
Depois de acompanhá-lo ao banheiro, levei-o para o quartinho de empregada. O amarrei a uma cadeira com um cabo de extensão e o amordacei com fita adesiva. Tranquei a porta por dentro e guardei a chave.
Procurei pelo número do celular da amiga de Rafael.
Alô?
Oi. Sou eu, o cara que estava estudando o Rafael...
Oi! Que bom que você ligou!
Escuta, eu estava pensando naquela nossa conversa do outro dia e me lembrei que você tinha mencionado um caderno... um caderno que você disse que o Rafael tinha... que ele vivia anotando coisas...
Sim, eu me lembro.
Então... na hora eu não dei muita atenção porque era muita informação. Mas agora eu me lembrei disso e acho que o tal caderno pode ser fundamental para o meu estudo. Você tem alguma idéia de onde ele pode ter ido parar?
Nossa... depois de tanto tempo não sei não. Talvez a tia dele tenha guardado. Você já tentou perguntar para ela?
Alô?
Boa noite. Eu sou o estudante que esteve aí no outro dia. Não sei se a senhora se lembra?
Sim, sim. Como vai? Descobriu alguma coisa sobre o Rafael?
Ainda não. Na verdade estou numa pista importante e gostaria que a senhora me ajudasse.
Pista? Então agora você é um detetive?
Eu me expressei mal.
Sei. Em que posso ajudar?
Estou procurando um caderno. Um caderno do Rafael.
O Rafael era um estudante. Tinha muitos cadernos.
Sim. Mas esse era um caderno que ele tinha sempre com ele. Em que vivia anotando coisas.
Acho que não vou poder te ajudar. Fazia muito tempo que eu não via o Rafael quando ele foi internado.
Mas e as coisas dele? A senhora não foi buscar as coisas dele na pensão onde ele morava?
Ouvi um gritinho do outro lado da linha. Pareceu semelhante àquele que ela emitira quando eu tinha entornado o cinzeiro no tapete. A sua voz se tornou excitada.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha!
O que foi?
Acabei de me lembrar que, faz uns três meses, a dona da pensão onde o Rafael morava me telefonou e me disse que estava com umas coisas dele guardadas lá ainda. Se eu não queria ir buscar. Eu disse que não. Que ela podia jogar fora.
Espera aí. Mas eu liguei para aquele número que a senhora me deu e me disseram que a pensão já tinha fechado há mais de seis meses!
Novo gritinho.
Que cabeça a minha! Que cabeça a minha! Eu devo ter te dado o número da pensão antiga onde o Rafael ficou logo no começo quando se mudou para a capital. Mas o Rafael só morou lá por umas semanas e depois se mudou para uma outra pensão que era bem em frente à faculdade dele. Eu lembro que fui visitar e levar umas coisinhas logo depois de ele ter se mudado. Era muito melhor que a outra. Uma casa grande e verde se não me falha a memória. Deve ter sido algum amigo dele que... Alô? Alô?

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Problemas técnicos.

O blog esteve fora do ar por alguns dias por problemas técnicos. A partir de amanhã, voltarei a postar os capítulos de "Se você dança com o Diabo".

Terça-feira, Abril 05, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 27

O caderno!
O grito ecoou por toda a enfermaria.
Ah! Até que enfim você acordou. Nós temos mesmo muito que conversar. Acho que você me deve uma explicação...
Eu estava deitado numa cama. Uma gaze úmida sobre a minha testa. Uma agulha espetada no meu braço. Pendurado numa haste de metal, um saco plástico com um líquido transparente.
Sentado ao meu lado, o diretor me olhava com um sorriso paciente.
Arranquei a agulha da minha veia.
­Que merda é essa!? Que merda é essa que vocês estão injetando em mim!?
Ele se levantou da cadeira e me dominou com a ajuda de um funcionário.
Calma! O que você pensa que está fazendo!? Arrancando o soro assim desse jeito!?
A enfermeira voltou a espetar a agulha.
Não adiantava. Não ia conseguir vencê-los pela força. Tentei relaxar.
Desculpa. Eu estava tendo um pesadelo. Acho que foi um delírio por causa da febre.
Os olhos dele me examinaram devagar.
Você estava muito exaltado dentro daquele quarto. Volto aqui para buscar minha carteira que tinha esquecido. Passo em frente à porta. Ouço gritos. Não sei como você conseguiu entrar. Não vi nenhum funcionário por perto. Abro a porta e me deparo com você tentando estrangular o interno. Espero que você tenha uma boa explicação para tudo isso.
Sim, senhor. Eu posso explicar tudo. O senhor vai entender. Mas, se o senhor não se importa, eu preferia conversar com o senhor a sós.
Mais uma vez os olhos dele me farejaram desconfiados. Sorriu. Disse ao funcionário e à enfermeira que saíssem. Que não se preocupassem. Eu não o ia morder. No caso de qualquer problema, ele chamaria.
Pronto. Estamos a sós. Pode falar agora.
Estou com frio. O senhor não faz a gentileza de me cobrir com a minha jaqueta? Aquela ali, no cabideiro.
Posso pedir para a enfermeira buscar um cobertor.
Não precisa. Quero explicar logo as coisas para o senhor. A jaqueta mesmo resolve.
Ele pegou o casaco e o estendeu sobre mim.
Tirei a arma de bolinhas do bolso em que tinha ficado. Saltei da cama sobre ele. Apertei com uma mão a sua garganta para que não gritasse. Com a outra pressionei o cano da arma contra a sua cabeça. O velho gemeu apavorado.
Cala a boca, filho da puta, que agora eu vou te explicar tudo direitinho. Tenho novidades para você, vovô. Eu já sei tudo. Sei tudo que vocês sabem. Sei ainda coisas que nem vocês sabem. A única coisa que eu ainda não sei, vocês também não sabem. Estão tão loucos para descobrir quanto eu mesmo. Por isso não vou perder meu tempo fazendo perguntas...
Mas do que é que você...
Não banque o babaca, vovô. Não vou cair de novo nas suas armadilhas. Entreguei quase tudo de bandeja para vocês enquanto vocês nos observavam por aquele espelho. Não vou cometer o mesmo erro de novo.
Mas...
Cala a boca! Cala a boca que para mim já não faz mais a menor diferença estourar essa sua cabecinha ou não. Você é um psiquiatra experiente, vovô. Analise meu caso. Sabe, eu nunca aprendi a lidar com as frustrações. Agora nós vamos dar uma voltinha. Se você não fizer exatamente tudo o que eu mandar, vou ficar muito, muito frustrado. Se você tentar avisar alguém ou pedir socorro de alguma forma, também vou ficar deprimido. Se qualquer coisa der errado. Qualquer coisa mesmo. Se na saída daqui a gente pegar muito farol vermelho, vou ficar decepcionado. Por isso, como um doutor esperto que você é, aposto que vai colaborar o máximo possível comigo, não é verdade, vovô?
Ele fez que sim com a cabeça.
Ótimo. Sempre achei você uma boa pessoa. Agora vamos andando. Lembre-se, minha arma vai estar aqui, no bolso da minha jaqueta, apontada para as suas costas. Você prefere morrer ou ficar paraplégico?

Domingo, Abril 03, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 26

A porta do quarto se abriu e apareceu o diretor.
Mas, mas o que é isso!? O que está acontecendo aqui!? O que você pensa que está fazendo!?
Larguei o pescoço do Rafael e me afastei assustado. A febre me dominava. Delírio. O espelho na parede. Vidro inquebrável para que o interno não pudesse parti-lo. A saliva dele nos meus polegares. O rosto espantado do diretor. Contornos de pesadelo.
O espelho na parede. O grande espelho que me mostrava um rosto confuso que não parecia ser o meu.
O funcionário tinha me dito que o diretor não estava lá.
A saliva do Rafael nos meus polegares. Toquei o meu rosto com eles. Ungi a minha testa com a saliva de um louco.
Não me reconheci no espelho.
Estúpido. Como eu tinha sido estúpido. Rafael continuava fingindo. Olhava para o espelho. Olhava para mim. Como se me repreendesse. Como se me acusasse de ter estragado tudo. De ter botado tudo a perder. Eu devia ter desconfiado. Para que gastar tanto dinheiro com um espelho inquebrável num asilo decadente como aquele?
Estúpido. Queria pedir desculpas. Dizer que tinha sido impulsivo. Um idiota. Não tinha pensado em tudo. Tinha deixado lacunas no meu raciocínio. Agora era tarde. Tão perto da verdade e tão longe de a compreender. Tão perto do segredo e tão longe de o descobrir.
Senti uma mão firme apertar o meu braço. Era a mão do diretor. Ele tinha crescido. Tinha se tornado enorme, de repente. Era um fantasma gigante que apertava meu braço com força. Eu me ajoelhei no chão. Rendido. Ele me ergueu. Me levantou nas alturas. Como uma águia capturando um coelho.
Nesse momento, um segundo ates de perder a consciência. Ouvi a voz de Rafael sussurrar ao meu ouvido:
O caderno. Você esqueceu o caderno.

Sábado, Abril 02, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 25

Me levantei do chão e perdi o equilíbrio por um instante. Levei a mão à cabeça. Dei dois passos cambaleantes para o lado. Depois voltei para frente do Rafael. Pus as duas mãos sobre os ombros dele. Fiquei olhando firme para os seus olhos. Esperando a resposta.
Ele permanecia mudo. Estava indeciso. Calculando a minha oferta. Os olhos ainda pareciam vazios. O fio de baba continuava escorrendo da sua boca.
Vai, Rafael. Não precisa mais fingir. Eu sei de tudo. É pegar ou largar. Nós não temos tempo para brincar de maluco agora.
O rosto permanecia sem expressão. Parecia não estar ouvindo uma só palavra do que eu dizia. Impaciente, comecei a sacudi-lo.
Anda, Rafael! Não se faça de surdo comigo! Me conta o segredo!
Nada. Eu o sacudia com mais força.
Me conta o segredo!
Silêncio. A febre tomava conta de mim. Meu corpo inteiro tremia. Aos poucos, as coisas foram perdendo o contorno. Sem saber direito o que estava fazendo, comecei a apertar o pescoço dele com as duas mãos. Ele não reagiu. Apenas engasgava de tempo em tempo e punha a língua para fora. Me conta a porra do segredo, seu nerdezinho filho de uma puta!