Quando alguém encontrar esse caderno, eu já estarei morto.
Fui obrigado a me matar para poder validar os resultados do meu experimento.
A idéia por trás da minha experiência me ocorreu há alguns meses, quando, apesar de todos os meus esforços, não consegui realizar o maior de todos os meus sonhos: ir estudar matemática nos Estados Unidos.
Foi então que, com a ajuda de narcóticos, que enriqueceram minha percepção, cheguei à conclusão que quanto mais se quer uma coisa, maior a probabilidade de essa coisa dar errado.
É verdade que todo mundo já fez essa constatação em algum momento da vida.
Ninguém nunca a demonstrou empiricamente.
Dessa maneira, após ter tido a revelação, fiquei determinado a prová-la por estatística.
O enunciado da minha teoria era: “a probabilidade de um evento é inversamente proporcional a toda a vontade consciente associada a ele”.
Escolhi, por casualidade, testar minha hipótese com um fenômeno já constatado na cultura popular: a queda do pão com manteiga.
Diz o folclore que o pão com manteiga sempre cairá com o lado amanteigado para baixo. Minha intuição me disse que se tratava de uma exageração de algo verdadeiro. Óbvio que, uma vez ou outra, o pão cairá com o lado amanteigado para cima. No entanto, supus que seria capaz de demonstrar que a tendência do pão era de cair, na grande maioria das vezes, com a manteiga para baixo.
Tendo escolhido o objeto da minha pesquisa, era necessário, em seguida, detalhar o modus operandi do experimento.
Em primeiro lugar, decidi usar o pão de forma. Isso porque o seu formato mais homogêneo e simétrico seria mais aerodinamicamente neutro do que o do seu rival, o pão francês. Além do mais, o centro de gravidade variaria menos de uma fatia para a outra.
Em segundo lugar, a manteiga deveria ser passada no pão só depois que o mesmo fosse ligeiramente torrado, para que não houvesse risco de deformação pela pressão exercida pela faca.
Em terceiro lugar, a camada de manteiga deveria ser bem fina, para que sua massa, em relação ao total da fatia amanteigada, pudesse ser considerada desprezível e para evitar, mais uma vez, variações do centro de gravidade das fatias.
Tendo determinado essas condições iniciais, passei à segunda fase do experimento, isto é, a prática.
Dei início aos arremessos.
Na primeira tentativa, lancei sucessivamente ao ar 100 (cem) fatias de pão amanteigado. Claro que, antes de cada novo arremesso, tive o cuidado de anotar o resultado da queda anterior e de remover a fatia caída do chão.
Para a minha surpresa, obtive um resultado bastante avesso ao que esperava. 52 (cinqüenta duas) quedas com a manteiga para cima (doravante QC), 48 (quarenta e oito) com a manteiga para baixo (doravante QB).
Fiquei tão frustrado com esses primeiros resultados que quase desisti da minha teoria. Porém, refletindo melhor, cheguei à conclusão de que deveria haver alguma interferência nos arremessos que eu estava esquecendo de levar em conta. Meditei a respeito e supus que o problema era que eu tinha coberto o chão das quedas com jornal, para evitar sujeira.
Ora, a sujeira era mais do que necessária. Do contrário, o prejuízo da queda com a manteiga para baixo seria minimizado. Minimizado o prejuízo, minimizada seria a probabilidade de ele ocorrer.
Repeti a experiência sem os jornais. 49 QC; 51 QB.
Matematicamente, ainda era um empate. Todavia, fiquei entusiasmado com o aumento das QB e pensei que, talvez, se eu aumentasse o prejuízo, conseguiria aumentar sua incidência.
Fui a uma loja de tapetes importados e gastei todas as minhas economias em um pequenino, porém caríssimo, tapete persa. Passei a arremessar as torradas em cima dele. Após cada queda. Eu retirava a torrada, limpava o tapete, anotava o resultado e partia para o arremesso seguinte.
47 QC; 53 QB. O tapete tinha dado resultado, mas ainda não era o suficiente. Era necessário aumentar ainda mais o prejuízo causado pelas QB. No entanto, eu não tinha dinheiro para comprar um tapete mais caro do que aquele.
Talvez se eu me humilhasse um pouco pudesse obter números mais significativos.
Decidi então que, cada vez que fosse limpar o tapete, ao invés de fazê-lo com um pano úmido, como vinha fazendo, passaria a limpá-lo com a própria língua.
A sensação de lamber um tapete amanteigado era horrível. Me enchia de náuseas e de pelos na boca. Cheguei a vomitar uma vez.
46 QC; 54 QB. Mais uma vez os resultados demonstraram que eu estava no caminho certo. Essa alegria, porém, foi perturbada por uma preocupação. Comecei a ter a sensação de estar sendo observado na rua e nos lugares públicos. Passei a desconfiar que talvez alguém estivesse a par da minha descoberta e quisesse roubá-la de mim. De todo modo, como ainda não tinha certeza de nada, resolvi continuar com meus experimentos e ver o que aconteceria.
Prejuízo financeiro, humilhação e náusea... Que mais eu poderia acrescentar à experiência para afinar os resultados?
Dor.
Talvez pudesse refinar o experimento com dor. Interrompi temporariamente os testes para construir um circuito elétrico que me permitisse, através do pressionamento de um botão, infligir-me choques bastante violentos cada vez que ocorresse uma QB.
Foi duro. Acho que quando tive a idéia do circuito não imaginei quão dolorosas e desgastantes seriam aquelas seções de eletrochoque. No final da nova série de arremessos, após haver lambido aquele maldito tapete dezenas de vezes e me submetido a dezenas de choques elétricos, eu estava tão emocionalmente abalado que desabei na minha cama chorando e fiquei assim por muito tempo. Perdi a consciência. Penso que desmaiei. Sonhei com torradas voadoras. Elas estavam atacando a cidade e matando todas as pessoas. Acordei e liguei para uma amiga no meio da madrugada. Disse a ela que as torradas estavam prestes a atacar a cidade e achei aquilo muito engraçado. Tive um ataque de riso e desliguei o telefone. Continuei rindo até desmaiar novamente. Acordei no dia seguinte ainda bastante perturbado. Olhei para os lados. Tive certeza que tinham estado no meu quarto durante a noite. Os malditos estavam atrás da minha descoberta. Eu passara por todo aquele sofrimento e eram eles que iam ficar com a glória. Corri para a mesa e verifiquei que as minhas anotações ainda estavam lá, apesar de estarem remexidas.
Finalmente, contabilizei os arremessos que tinha feito acompanhados dos choques. 50 QC; 50 QB.
Fiquei desesperado. Alguma coisa estava errada. Alguma coisa deveria estar errada na base da minha idéia.
Levei dias de muita angústia para perceber qual era o problema.
Entendi, enfim, que o meu próprio experimento era um paradoxo em si mesmo. O desejo de ser bem sucedido na experiência estava fazendo, a cada queda, com que, ao contrário do que normalmente ocorreria, eu desejasse uma QB. O meu desejo pela QB tinha, desde o começo, atrapalhado tudo, pois de acordo com a minha própria teoria, o desejo levava ao fracasso.
Assim, meu desejo cada vez maior por uma disparidade entre as QB e as QC, potencializado pelos suplícios auto-impostos, estava fazendo com que justamente o contrário ocorresse, isto é, que houvesse incidências semelhantes dos dois eventos.
O maior problema é que, mesmo através dessa nova interpretação dos fatos, nada ficava provado, já que a incidência próxima coincidia com o que seria esperado que ocorresse sem nenhuma interferência da vontade e, por conseqüência, da minha teoria.
O segredo, portanto, estava em não desejar.
Mas como podia eu não desejar aquilo que mais queria? O paradoxo parecia matematicamente insolúvel.
Analisando a raiz do meu desejo, percebi que se tratava de um desejo de fama, de reconhecimento, de aplauso. E se eu garantisse que ninguém jamais saberia o resultado do meu experimento? Nesse caso, ficava anulado o desejo de ser reconhecido. Mas como garanti-lo absolutamente? Só se eu me matasse após o término do mesmo, depois de haver destruído todas as minhas anotações a respeito. Sim, nesse caso ninguém jamais saberia do resultado final. O que esvaziaria o experimento em si de qualquer sentido prático.
Era essa a idéia.
Claro que ainda sobraria o desejo de ter tido razão. De ter estado certo desde o começo. Mas esse desejo seria suficientemente compensado pelo medo da morte e do vazio que anularia qualquer prazer de ter inferido a verdade.
Restava, por fim, analisar a hipótese de o experimento funcionar e eu não me matar depois. Eu não podia garantir de nenhuma forma às leis da probabilidade que eu chegaria às vias de fato. O que eu poderia fazer para convencê-las da minha real intenção?
Era simples. Se o experimento funcionasse e em seguida eu não me matasse, seria exatamente o mesmo que o experimento não ter funcionado. Sem a minha morte subseqüente, toda a fundamentação teórica da experiência ia por água abaixo. O resultado seria considerado aleatório como qualquer outro.
Foi assim que eu decidi me matar.
Para obter a coragem necessária para realizar novamente o experimento, com as lambidas no tapete, com os choques elétricos e, dessa vez, com meu suicídio no final, fui procurar um amigo para conseguir narcóticos. Ele se negou. Procurei outro traficante e pedi uma amostra grátis. Ele me deu.
Continuam me seguindo. Já não resta a menor dúvida sobre isso. Quando voltei da minha excursão de compra de narcóticos, reparei que, da esquina da rua da pensão onde moro, um motoqueiro me observava. Era uma moto esportiva. Ele vestia um grande sobretudo negro, apesar do calor. Não pude ver o rosto dele, pois o capacete preto, com viseira preta, o cobria.
Já não faz diferença. Assim que terminar de escrever essa carta, prosseguirei com a etapa final do experimento, tomando primeiro os narcóticos e, logo em seguida, iniciando os arremessos. Ao terminá-los, cometerei suicídio.
Deixo essa carta de despedida para o mundo e parto como se fosse uma sonda lançada em direção a um buraco negro. Um empreendimento sem sentido. A sonda jamais poderá voltar ou mandar qualquer sinal para a Terra
O fato de eu ter deixado essas anotações em nada compromete a base teórica da experiência. Apesar de deixar escritas, a título de explicação para meu suicídio, as idéias principais do meu experimento, não revelarei jamais o resultado final.
Adeus!