Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
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Quinta-feira, Março 31, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 24

Mais uma vez tive a impressão de que a indiferença tinha desaparecido do rosto dele por um segundo.
E se você mesmo se fingisse de louco? Uma vez louco, você não serviria mais para eles. O segredo estaria trancado para sempre dentro de um cérebro doente e inacessível. Enfim, eles te deixariam em paz. Seria um plano esperto, não é verdade? Desesperado, mas esperto.
Parei de falar e o fiquei encarando. Eu estava me sentindo tonto. Além de doer muito, a minha cabeça girava. O fôlego começava a faltar. Sentia muito frio. As minhas mãos, os meus braços e as minhas pernas tremiam sem parar. Tentei me acalmar um pouco.
Só que é claro que, por mais assustado que você estivesse, você não pretendia ficar num sanatório o resto da sua vida. Não. Ninguém, por mais desesperado que esteja, quer ficar num sanatório para o resto da vida. Seria apenas uma temporada de férias. Só até a poeira lá fora baixar. Nesse caso, você precisava de um plano de saída. Obvio, não bastaria simplesmente dizer “Estou curado. Não estou mais louco.” para que eles abrissem as portas e deixassem você sair. O mais provável é que ninguém te desse ouvidos. Era preciso portanto convencer alguém de fora da sua sanidade. Fazer com que alguém concluísse por si só.
Eu sentia que já estava no final das minhas forças. O ar me faltava cada vez mais. Reuni o que sobrava do meu fôlego para concluir.
Foi para isso que você me escolheu. Não foi, Rafael? Para tirar você daqui. Para mim eles darão ouvidos se eu disser que você está são. Você conseguiu. Vou falar com o diretor. Conversaremos juntos com ele e você sairá logo, logo. Fique tranqüilo. Não mencionarei nada sobre o que descobri do seu segredo. Faremos de conta que você tinha mesmo enlouquecido e que ficou bom de repente, sem nenhuma explicação. Mas acho justo pedir alguma coisa em troca. Uma coisinha de nada em troca da sua liberdade. Quero saber o segredo, Rafael. O segredo que você guardou só para você durante esses quase três anos. Você me conta e eu tiro você daqui. E então, Rafael? O que você me diz?

Quarta-feira, Março 30, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 23

Nós temos pouco tempo, Rafael. Eu vou direto ao assunto. Fiquei sabendo de muita coisa desde a última vez que te visitei. Sei que você descobriu alguma coisa antes de vir para cá. Algum segredo. Alguma coisa importante. Que talvez estivesse relacionada com o atentado. Não sei que coisa é essa. Também não sei como foi que você descobriu. Mas sei que você queria ir para os Estados Unidos meses antes do atentado. Que você tem um sobrenome árabe. Que seu pai era um guerrilheiro durante a ditadura. Um guerrilheiro que odiava os Estados Unidos. Foi a sua tia que me contou. Mas ela nunca disse nada sobre que tipo de guerrilheiro era seu pai. Fácil pensar que era mais um com ideais socialistas lutando para libertar o país da ditadura. O período, o contexto apontariam para isso. Mas, talvez, ele não fosse nada disso. Talvez ele fosse alguém de origem árabe. Insatisfeito com o imperialismo americano. E se, por exemplo, supuséssemos que a família dele tivesse sido expulsa de suas terras por judeus em Israel? Que não tivesse tido alternativa além de emigrar? E se supuséssemos que seu pai tivesse se ligado a um grupo terrorista islâmico? Tudo muito improvável, Rafael. Tudo muito improvável. Mas quem acreditaria se predisséssemos o que aconteceu no World Trade Center?
Tive a impressão de que os olhos dele tinham se fixado em mim por um instante.
Tudo isso são só especulações, Rafael. Só especulações fúteis da minha cabeça. O que eu sei, do que eu tenho certeza é que você descobriu alguma coisa. Que estava sendo perseguido por causa disso. Que tinha gente atrás de você por causa desse segredo. Talvez tenham te torturado. Como aquele afegão na foto que eu te mostrei. Você estava com medo. Você precisava encontrar uma saída. Um jeito de se esconder. Um jeito de ser deixado em paz. Você estava desesperado. Talvez no dia do atentado suas informações passassem a valer mais. Eles viriam babando para cima de você. Que nem loucos. Quem nem loucos, Rafael. Foi então que você teve a idéia. “E se eu mesmo me fingisse de louco?”

Segunda-feira, Março 28, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 22

Saltei do carro na frente do hospício. Minha cabeça doía muito. Devia estar com febre. Talvez o amigo do Rafael tivesse razão. Talvez eu precisasse mesmo de assistência médica. Não dava tempo.
O funcionário da recepção já me conhecia. Disse a ele que precisava ver o Rafael.
Mas o diretor não me avisou de nada...
É urgente. Preciso falar com ele agora mesmo.
É que o diretor tinha me dito que acompanharia todas as suas visitas.
O diretor está aí?
Acabou de sair. Só volta amanhã.
Não posso esperar até amanhã. Preciso terminar um relatório para o meu estudo. É para amanhã e eu tinha esquecido. Meu professor vai ficar uma fera se eu não entregar. Só preciso falar com o Rafael uns dez minutos. Não vai demorar mais. Eu prometo. O diretor não precisa ficar sabendo. Você entende, não entende? Se você não me ajudar, eu estou na merda...
Ele ainda hesitou um pouco. Acabou me acompanhando até o quarto. Entramos. Rafael estava sentado na cama. Pareceu indiferente à nossa presença. Nem olhou para nós.
Preciso falar com ele sozinho.
O funcionário deixou o quarto resmungando que se o diretor soubesse daquilo ele seria mandado embora. Eu disse que ele podia ficar tranqüilo.
Saiu. Fechou a porta atrás de si. Corri e me ajoelhei na frente do Rafael. Estendi uma mão sobre o seu ombro. Eu estava tremendo de frio. Ele me olhava com o rosto inexpressivo.

Domingo, Março 27, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 21

Tive uma vertigem. Por um instante perdi o equilíbrio. Respirei fundo e segurei com as duas mãos no banco do motorista à minha frente.
Alguma coisa errada? Você está passando mal?
Respirei fundo mais uma vez. Soltei minhas mãos do banco. Acendi outro cigarro.
Eu estou bem. Continue.
Bom... Quando ele me viu ali, parado, olhando para ele com aquela bandeja na mão, ele tomou um puta de um susto. Queimou a mão no ferro. Deu um urro de dor e de raiva. Agarrou o lençol da cama e jogou por cima da mesa. Cobriu o circuito. Para que eu não visse. Depois começou a gritar comigo. Me perguntou que caralho eu estava fazendo ali. Que ele estava muito ocupado. Que estava trabalhando. Que não podia ser interrompido assim sem mais nem menos. Se quisesse mais doce ele me procuraria. Que eu fosse embora. Que não queria porra nenhuma para comer. Que levasse comigo aquela merda daquela bandeja. Que o cheiro daquilo já estava deixando ele enjoado. Enfim, me botou para fora como seu fosse um cachorro fedido. E sarnento...
As palavras dele se tornavam vaporosas na minha cabeça. Mais ou menos como no estado que precede o sono. Quando os pensamentos vão se desencadeando. Como um trem que descarrila. Os vagões perdendo o rumo. Ganhando independência cinética. A energia se libertando do julgo humano. A fumaça do meu cigarro dançava lúdica na minha frente. Com meu dedo indicador esticado, eu tentava dar a ela uma forma qualquer. De qualquer coisa bonita. De qualquer coisa que fizesse sentido.
Alô! Estou falando com você, cara! Você está me ouvindo?
Hein?
Perguntei se você está me ouvindo. Eu hein, velho. Você está com uma cara péssima. Devia consultar um médico. Olhou o relógio. Já é tarde. Se você não tem mais nada para me perguntar eu acho que eu já vou indo.
E... e depois dessa vez... dessa vez do circuito... você não viu mais o... o Rafael?
Teve uma última vez. Mas acho que aí já não conta. Ele já estava completamente maluco. Foi uns dias antes de ele ser internado. Ele foi lá em casa. Queria que eu vendesse doce fiado para ele. Eu disse que não. Não vendo fiado. Porque nesse negócio se você vende fiado e o cara não paga, você tem que matar o cara. Se não perde o respeito da clientela. E eu não gosto de matar ninguém. Muito menos um amigo meu. Por isso falei que sem chance. Não ia vender doce fiado para ele. Aí ele ficou furioso. Explodiu de verdade. “Vocês são todos um idiotas!” ele disse. “Todos uns retardados que não conseguem enxergar o que está bem na frente de vocês. Eu consigo. Eu sei de tudo. Está me entendendo? E eles nunca vão conseguir tirar o segredo de mim. Eu já achei a saída. Vou fugir. Me esconder num lugar onde eles nunca vão me encontrar”. E saiu dando risada. Depois disso eu não vi mais ele. Só muito tempo depois foi que eu fiquei sabendo que ele tinha sido internado e eu nem imaginava que... Cara! O que você tem? Está mesmo com uma cara péssima. Quer que eu te leve até um pronto-socorro?
Não... eu... eu estou bem... mas já deve estar tarde. Vim de metrô até aqui. Será que você não poderia... me dar uma carona?
Para sua casa?
Não. Para o sanatório.

Sábado, Março 26, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 20

Aposto que aquela vadia deu em cima de você.
Hein?
A puta que te deu o meu e-mail. Aposto que ela ficou jogando charminho para cima de você.
Por que você está dizendo isso?
Ele riu.
Aquela vaca dá em cima de todo mundo. É impressionante. Ela deve ser doente. Na hora H ela tira o corpo fora que eu estou ligado.
Ela dava em cima de você também?
Em mim não porque eu nunca dei trela. Mas dava em cima do Rafael o tempo todo.
Ela dava em cima do Rafael!?
Dava. Por quê?
Engraçado. Para mim ela falou que achava que era ele quem estava apaixonado por ela.
Ele gargalhou.
O Rafael? Ela deve estar mais maluca do que ele! O Rafael é a pessoa mais assexuada que eu já conheci. Só se interessava por matemática. Acho que teve uma namorada antes de se mudar para a capital e foi só. Quanto a essa garota da faculdade, ele mesmo vivia reclamando para mim que ela não largava do pé dele.
Ele atirou a bituca do cigarro pela janela e voltou a fechar o vidro.
Melhor você fechar a sua janela também.
Por quê?
Por causa dos homens.
Que que tem os homens?
Estão me vigiando...
Foi a minha vez de dar risada.
Ninguém está te vigiando.
E o que é que você sabe sobre isso? Está aí todo saidinho só porque deu sorte e conseguiu me desarmar. Aliás, conseguiu me desarmar o caralho. Se a arma fosse de verdade ia ter pedaço do seu cérebro por todo o pára-brisa.
Houve uma pausa.
Sou um bandido perigoso.
Dei risada novamente. Um bandido perigoso com uma arma inofensiva.
Inofensiva!? Você já viu no espelho tamanho da pelota na sua testa!? Além do mais, você sabe quanto custa uma arma de verdade? A venda de narcóticos está em baixa.
Dei risada outra vez.
Então é isso que você é. Um traficantezinho de faculdade. Um Zé-Ninguém preocupado com a polícia. Fica tranqüilo. A polícia está cagando e andando para você.
Você ainda não me perdoou pelo susto, não é mesmo? De qualquer jeito fala baixo. Eles podem estar te ouvindo. Diz aí. O que é que você quer de mim.
Já disse. Quero saber como foi e por que foi que o Rafael enlouqueceu.
Mas isso é muito simples. Vocês doutores não conseguiram descobrir sozinhos, não? Precisaram vir perguntar para o traficantezinho de merda aqui? O Rafael ficou maluco porque estava abusando do doce.
Do doce?
É, cara, do ácido.
Ele tomava ácido?! Você vendia ácido para ele?!
Só do da melhor qualidade.
E você acha que foi por isso que ele ficou louco?
Você é burro ou o quê? Eu não disse que ele enlouqueceu porque tomava ácido. Todo mundo toma ácido. Eu disse que ele surtou porque abusava do ácido. E se ele abusava, isso já não é culpa minha. Cada um tem que cuidar de si. Tem que saber os seus limites. O traficante é um homem de negócios. Não é necessariamente um assassino, mas também não é a mãe de ninguém. O cigarro também mata uma galera e ninguém fecha as porras das fábricas de tabaco. Ninguém enche o saco quando você vai comprar o seu cigarrinho. Se o cara abusa do álcool e atropela alguém, ninguém vai encher o saco do dono do bar. Então também não me venha azucrinar porque um cliente meu abusou do doce e ficou maluco.
Se tem alguém te azucrinando é a sua própria consciência... Eu cago montes para a sua responsabilidade ou ausência dela no enlouquecimento do Rafael. Já disse que meu interesse é científico. Não é moral. E não me venha com essa merda desse discurso ridículo de apologia ao tráfico. Faz uma coisa útil Me explica aí essa história de abusar do ácido.
É simples. Ele começou a comprar cada vez mais. Além disso, estava numa paranóia forte. Vivia me repetindo que tinha descoberto uma coisa. Uma coisa muito foda. Era o que ele dizia. Quando eu perguntava que coisa foda era aquela, ele me dizia que isso, infelizmente, ele não podia me contar. Eu não insistia muito porque já estava desconfiado que aquilo era viagem do doce.
Me diz uma coisa. Ele chegou a comentar com você alguma coisa sobre ir para os Estados Unidos.
Falou, sim. Falou muito, aliás. Mas isso foi antes... Ele apertou os olhos como se fizesse um esforço para se lembrar. É... isso foi bem antes. Ele nem estava tomando doce ainda. Isso não foi viagem. Isso foi coisa séria. O cara parece que estava meio desiludido com as possibilidades acadêmicas daqui. Queria ir para fora para estudar. Prestou uns exames e tal. Conseguiu a vaga. Não conseguiu a grana. Enfim, não deu certo...
Sei. E aí?
Aí ele ficou muito deprimido. É... foi isso mesmo. Foi aí que ele me falou pela primeira fez que estava querendo experimentar coisas novas. A gente já era amigo há algum tempo. Ele sabia que eu vendia droga na faculdade. Mas aquela foi a primeira vez que ele veio falar disso comigo. Disse que estava querendo conhecer melhor o mundo em volta dele. Daí eu sugeri que ele experimentasse o doce.
E ele?
Relutou um pouco no começo. Nem beber direito ele bebia. Acabou experimentando. Ficou fissurado. Na semana seguinte veio falar comigo com os olhinhos brilhando. Disse que queria mais.
E você deu mais para ele?
Dei não que dar a gente só dá a amostra grátis. Sabe como é. A gente tem que confiar no produto. Se o doce é bom, o cliente volta.
E ele voltou.
Voltou. Disse que tinha adorado. Que queria mais. Eu vendi mais para ele. E quanto mais ele ia tomando, mais ele ia querendo. Eu percebi que o cara estava se viciando pesado. Aumentei o preço. Na camaradagem. Para ver se ele se tocava que o negócio estava ficando sério para ele. Mas ele não se tocou. Gastava todo o dinheiro dele com isso. Uma fortuna por semana. Começou a matar aulas na faculdade. Depois veio com aqueles papos esquisitos.
De que tinha descoberto alguma coisa?
Isso mesmo. Tinha descoberto uma coisa foda. Não podia contar para ninguém. A vida dele estava correndo perigo. Tinha uns caras atrás dele. Querendo pegar ele por causa do que ele tinha descoberto. Era uma informação que não tinha preço. Que valia mais que muitas vidas humanas juntas. Enfim, doidera pura.
Comecei a sentir a minha cabeça latejando.
Depois teve outro dia que, como ele não aparecia mais na faculdade, eu fui até a pensão onde ele morava. Para ver se ele queria mais doce. Cheguei lá e a dona da pensão, que já me conhecia, foi dizendo para eu entrar. Que o Rafael estava enfurnado no quarto. Me perguntou se ele estava doente. Já fazia dois dias que ele não saía. Respondi que sim. Que eu estava ali para visitar ele. “Coitadinho”. “Leva isso aqui para ele e vê se ele come”. Subi as escadas com a bandeja na mão. Parei em frente da porta. Chamei. Ele não respondeu. Empurrei a porta com o pé. O Rafael estava sentado na frente de uma mesa. Tinha um ferro de soldar na mão. Estava trabalhando no que parecia ser uma espécie de circuito eletrônico, ou coisa do tipo.

Sexta-feira, Março 25, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 19

Olhei para ele indignado Tive vontade de bater mais. Rolei para cima dele de novo. Ergui o braço. Fechei o punho.
Ele gargalhava.
Não cara! Chega! Por favor, não bate mais em mim.
Está rindo do quê? Palhaço!
Você precisava – risos – você devia – risos – devia ter visto a sua cara de susto – risos – quando eu dei o primeiro tiro.
Ele mal conseguia abrir os olhos por causa do inchaço do rosto. Os dentes apareciam vermelhos do sangue que brotava das gengivas. O nariz talvez estivesse quebrado. Eu devia matar aquele imbecil. Não valia a pena. Eu estava cansado demais.
Idiota!
Saí de cima dele. Me encostei à porta. Abri a janela. Tirei do bolso um cigarro todo amassado e o acendi.
Ele também se levantou, ainda rindo. Abriu o porta-luvas e tirou de lá um pacote de lenços de papel. Começou a enxugar o suor do rosto e o sangue do nariz.
Cara, você me quebrou inteiro.
Devia ter te matado.
Ele riu outra vez.
Me dá um cigarro?
Dei. Ele abriu a janela do seu lado. Se encostou à porta. Começou a fumar também.

Quarta-feira, Março 23, 2005

Carência sem carisma

Cadê meus leitores, porra? Negócio é o seguinte. Resolvi radicalizar. Só continuo contando a história quando pelo menos três pessoas comentarem dizendo que já leram até aqui.

Se você dança com o Diabo - Capítulo 18

Ouvi o estalo da arma e senti uma ardência no meio da testa. Uma bolinha azul de plástico duro ricocheteou ainda no vidro da janela e depois desapareceu embaixo do banco do motorista. Passei a mão, trêmula, pela cabeça. Fiquei olhando para a arma um instante sem entender. Demorou meio segundo. Parti para cima dele furioso. Com um ódio que eu nunca tinha sentido antes. O canalha ainda me acertou outro tiro, na bochecha.
Ai, ai! Filho da puta!
Durante cerca de dez minutos nós trocamos murros e safanões no banco de trás daquele carro. Em certa altura, consegui tomar a arma e descarreguei o que tinha sobrado do pente de bolinhas na cara dele. Depois voltei a bater. Já o tipo mais se defendia do que me atacava. Só parei de esmurrar quando acabou o fôlego. Quando o braço, cansado, já não obedecia mais.
Rolei para o lado. Guardei a arma dele num bolso da jaqueta. Fiquei ali. Os olhos fechados. O peito arfando. O suor escorrendo pelo corpo. Depois de um tempo olhei para o lado e vi que ele também ainda estava lá. Meio morto. O rosto inchado. Sangue escorrendo do nariz.
Os vidros do carro estavam todos embaçados. Quem o visse de fora, acharia que dentro estava um casal de namorados. Mas não passava ninguém pela rua. No silêncio do local, ouvíamos apenas nossas respirações ofegantes. De repente ele começou a rir.

Se você dança com o Diabo - Capítulo 17

Nunca soube de onde tirei a coragem para ir ao encontro. Não tinha a mínima idéia se aquele cão apenas ladrava ou se também mordia. Latir, pelo menos, latia bem. Eu bem podia agora estar indo encontrar um maluco de verdade. Um psicopata. Nada como os mansos do hospício. Um psicopata. Solto e armado. Provocado pela minha teimosia.
Já não havia preço que fosse alto demais para desvendar o mistério. Tinha a sensação de que tinha nascido para isso. Se Deus existisse, ele teria me criado para descobrir a verdade. Somente a verdade. Nada mais que a verdade.
Você é o cara?
Eu esperava sentado num banco da praça quando ouvi a pergunta atrás de mim. Fiz um gesto para virar a cabeça. A mesma voz interveio num tom imperativo e grave:
Não vira para mim! Levanta! Depois murmurando no meu ouvido: Tenho uma arma apontada para sua coluna, palhaço! Prefere morrer ou ficar paraplégico?
Por correio eletrônico, as ameaças intimidam pouco. Outra coisa é ter uma voz ao ouvido dizendo que você vai morrer e sentir a pressão de uma arma contra o dorso. O medo me dominou. Tive vontade de sair correndo. Correndo o mais rápido que pudesse. Em zigue-zague entre as pessoas. Desaparecer na multidão. Me enfiar na primeira delegacia de polícia que encontrasse. Nunca mais sair de lá. Como deveria ser confortável e segura uma delegacia de polícia. Como seria bom estar numa delas agora. Tomando um café com o seu delegado. Vendo um monte de policiais armados que impediriam que um maluco viesse apontar uma arma para as minhas costas e me dizer que eu ia morrer.
Você está surdo? Porra! Eu disse para você ir andando para frente. Hei! Devagar, devagar. Para que a pressa? Assim é melhor. Vira à direita aqui nesta rua. Vai andando. À esquerda agora.
Ele foi me levando para uma rua deserta. Minhas pernas tremiam. Desespero. Tentava pensar numa maneira de escapar. Não conseguia.
Está vendo aquele carro preto estacionado ali na frente? Aquele filmado. Quero que você abra devagar a porta direita da frente. Depois senta no banco do passageiro e fecha a porta.
Enquanto eu obedecia, o sujeito, por sua vez, entrou pela porta traseira do mesmo lado e se sentou no banco atrás de mim. Agora não tinha mais jeito. Ele ia mesmo me matar. Que estúpido eu tinha sido. Deveria ter tentado fugir quando tinha tido a chance. Se eu tivesse saído correndo no meio da praça era improvável que ele se arriscasse a me assassinar na frente de tantas testemunhas. Meu medo, minha submissão tinham lhe facilitado muito o serviço. Agora podia me matar ali. À queima-roupa. Com um tiro preciso. Sem testemunhas. Agora eu ia morrer. Não podia fazer nada para me salvar. O pensamento se assentou na minha cabeça. Curioso. Senti uma certa tranqüilidade. Uma certa resignação. Afinal, não era um jeito tão ruim para se morrer. Um tiro assim na nuca não deveria nem dar tempo de doer. Talvez não desse nem tempo de eu ouvir o disparo. Desaparecer simplesmente. Como se fosse mágica.
Pode começar a falar, babaca! Quem é você? Por que está atrás de mim?
Fica calmo. Eu já te disse. Sou um estudante...
O caralho! Pensa que eu sou idiota? Pensa que eu vou engolir essa?
Fica calmo, por favor.
Ele apertou o cano da arma contra a minha têmpora esquerda.
Se você me mandar ficar calmo outra vez, prometo que vai ser a última, está me entendendo?
Estou.
Ótimo. Agora me diz. Se você é mesmo uma porra de estudante, por que está no meu pé que nem se fosse a porra da minha mãe? Por que não vai estudar outro caralho de pessoa?
Foi o que eu tentei te explicar nas mensagens que te mandei. Não é você que eu quero estudar. É um amigo seu. Um que enlouqueceu quando fazia faculdade com você. Se chamava Rafael Nasser. Você não se lembra?
Um instante de silêncio.
Sim. Eu me lembro do Rafael.
Novo silêncio.
Mas como foi que você conseguiu o meu e-mail?
Eu expliquei a ele.
Então foi aquela vaca que te deu o meu email?
Foi.
Vaca. Que estúpido que eu sou também. Já devia ter mudado essa porra desse endereço. O foda era avisar todos os clientes.
Enquanto ele se distraía falando consigo mesmo, aproveitei e dei uma espiada no retrovisor. Era um jovem franzino. Na mão esquerda segurava a arma. Apesar de próxima à minha cabeça, nesse momento ela estava apontada para outro lado. Era agora.
Fiz um movimento rápido. Girei o corpo. Agarrei o braço dele. Claro que não deu certo. Não podia nunca ter dado certo com uma arma assim tão perto da minha cabeça. Percebi isso no meio da manobra. Tive vontade de voltar atrás. Já não dava mais tempo.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 16

Demorou algum tempo para que o sujeito respondesse à terceira mensagem que enviei. Às duas primeiras tinha respondido apenas que não conhecia nenhum Rafael. Que não sabia do que eu estava falando. Na terceira resposta mudou de tom. Partiu para a ameaça franca.
Se você não parar de encher a porra do meu saco, eu te mato. Não me importa se você for da polícia ou que porra qualquer que seja. Eu te mato, entendeu?
Na quarta mensagem, eu tentei apaziguá-lo. Na quinta perdi a paciência e o insultei e recomendei a ele práticas sexuais consideradas indignas.
Não sei se ele gostou da sugestão. Sei apenas que se deixou vencer pela minha teimosia. Combinou comigo um encontro numa praça da cidade.
Se você tentar qualquer gracinha, saio atirando em quem estiver na frente: polícia ou civil. Não tenho medo de morrer. Levo para o inferno comigo alguém que tenha.

Domingo, Março 20, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 15

No caminho de volta para casa, a imagem dela ainda apareceu algumas vezes na minha frente. Como um adesivo colado ao pára-brisa. Como uma sujeira na lente dos óculos escuros. Como uma interferência na televisão.
A mensagem veio ainda no mesmo dia. Lá estava o endereço eletrônico que eu tinha pedido.
No mais, dizia ter me achado simpático. Me desejava boa sorte com o trabalho. Me perguntava se um dia não nos veríamos novamente. Me lembrava que, agora, eu já tinha o número do seu celular.

Sábado, Março 19, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 14

Não pude conter minha surpresa. Nem minha exaltação. Apertei com minhas mãos os ombros dela. Quase gritei:
O quê!?
Um pouco assustada com a explosão, ela balbuciou:
É... foi isso que ele disse... que estava com medo... medo do ataque...
Minha respiração estava ofegante. Ouvia meu coração bater dentro da minha cabeça.
Não é possível, não é possível!
Você está me machucando... Murmurou, cada vez mais assustada.
Desculpa. Mas...! Não! Não é possível! Afinal, de que ataque ele estava falando!?
Foi o que eu também perguntei para ele...
E ele!?
Deu uma gargalhada e começou a gritar: “das torradas! Das torradas!”
Das torradas!?
É... provavelmente ele já estava doidinho. Coitado. Não deve ter sido nada fácil para ele ter sufocado uma paixão durante três anos. Claro – eu acho que sei o que você está pensando – alguns dias depois, quando caiu o World Trade Center, eu fiquei toda arrepiada me lembrando do que o Rafa tinha me dito. Mas só pode ter sido coincidência. Afinal, o que ele podia ter a ver com tudo aquilo?
Cheguei a abrir a boca para responder. Percebi que a pergunta era retórica.
E essa foi a última vez que nós nos falamos. Alguns dias depois fiquei sabendo que ele tinha sido internado.
Longo silêncio. Me esqueci da presença dela e fiquei meditando.
Não. Meditar não é o verbo. Meditar pressupõe calma, tranqüilidade de espírito. E o meu era tomado pelo caos verdadeiro. Medo. Excitação. Angústia. Rafael tinha deixado para mim um caminho obscuro de pistas difíceis. Segui-las era como seguir os seus próprios passos. Era como percorrer o mesmo caminho.
A verdade não poderia estar longe agora. Eu sentia seu cheiro nos cabelos da garota. Ouvia seu murmúrio vindo de dentro das minhas próprias entranhas. Não. A verdade não estava longe. Como seria ela? Poderia eu suportá-la? Quão absurda e irracional ela pareceria? Poderia eu acreditar nela? Convencer-me dela? Convencê-los dela?
Tem mais alguma coisa que você queira me perguntar?
Tem sim. Eu estava pensando... Será que tem algum jeito de eu entrar em contato com esse outro amigo do Rafael? Esse que você disse que tinha cara de marginal...
Eu acho que tenho o e-mail dele em algum lugar. Quer que eu te mande?
Por favor.
Eu mando.
Breve silêncio.
E então?
Então o quê?
O que você acha?
O que eu acho do quê?
Ela riu.
Ih... mas você é distraidinho que nem o Rafa.
Ficou um instante me olhando nos olhos.
Você não acha que eu estou certa? Você não acha que ele enlouqueceu por minha causa?
Sorri.
Tenho certeza que sim.

Sexta-feira, Março 18, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo13

Fracassei na tentativa de conter o sorriso que a anedota me inspirou. Ela aproveitou para descarregar sobre mim um olhar reprovador na aparência. Talvez na essência também. Corrigi a expressão do meu rosto. Perguntei o que tinha se passado depois.
Depois a convivência entre eles se tornou insuportável. Foi nessa época que o Rafa decidiu vir estudar aqui e sair da casa da tia.
E vocês dois? Como foi que vocês se conheceram?
Satisfeita por voltar a ser o assunto da conversa, ela sorriu. Ajustou a postura no banco. Arrumou a blusinha que lhe comprimia os seios no decote.
Eu e o Rafa nos conhecemos no primeiro ano da faculdade. Vi que ele ficava sempre sozinho. Sempre quieto num canto. Anotando coisas num caderno. Fiquei com pena. Um dia, resolvi falar com ele. Ficamos amigos. Estudávamos juntos para as provas. Algumas vezes, almoçávamos. Com o tempo, ele passou a se comportar diferente. Passou a ter ciúme de mim. Não gostava que eu falasse de outros garotos. Vivia me olhando de um jeito esquisito. Fiquei assustada e me afastei um pouco.
E ele?
Começou a ficar cada vez mais estranho. Uns poucos meses antes de ser internado, passou a andar com as piores companhias. Principalmente com um menino da nossa turma. Um que tinha a maior cara de marginal. Os dois viviam juntos para lá e para cá. Pareciam estar aprontando alguma coisa. Olhavam para todo mundo como se estivessem desconfiados, como se tivessem algum segredo importante.
E depois?
Depois o Rafa veio com aquela história de ir estudar nos Estados Unidos. Parece que isso virou uma obsessão para ele. Chegou a prestar vários exames, a mandar currículos. Tinha até sido aceito em algum lugar. Não conseguiu ir porque não tinha grana para as despesas. Pediu dinheiro emprestado para a Tia. Aquele monstro não quis que ele fosse e não deu.
Alguma vez ele te disse por que ele queria tanto ir?
Não. Isso ele não disse.
E o que aconteceu depois?
Bem, eu me lembro que algumas semanas antes de ir para o hospício, ele começou a desaparecer da faculdade. Eu quase não via mais ele nas aulas. Quando aparecia estava com uma cara péssima. Devia ter alguma coisa muito séria atormentando ele. Fiquei preocupada. Perguntei o que estava acontecendo. Aí ele me olhou com um sorrisinho triste e disse: “eu descobri uma coisa”
Que coisa?
Foi o que eu perguntei na ocasião. Mas ele só ficou me olhando quieto. Não me disse mais nada. Daí eu comecei a desconfiar que o problema todo era que ele estava apaixonado por mim e não tinha coragem de me dizer.
Ela parou de falar e suspirou.
E essa foi a última vez que vocês se falaram?
Não. Teve ainda uma outra. Foi por telefone. Nas vésperas do internamento. Ele me ligou no meio da madrugada. Ficou mudo no começo. Quando eu já estava quase desligando, começou a soluçar. Percebi que era ele. Perguntei o que ele tinha. Não me respondeu. Ficou uns dez minutos chorando. Eu fiquei tentando acalmar. Um pouco mais sossegado, ele começou a repetir que não agüentava mais. Que estava com medo. Perguntei do que. Depois de ficar um tempo quieto, ele me disse que estava com medo do ataque...

Quarta-feira, Março 16, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 12

Me contou que antes de se mudar para a capital, Rafael tinha tido uma única namorada. Toda vez que se preparava para sair com a menina, a tia sofria de súbitos e agudos mal-estares. Reclamava de falta de ar, tonturas e dores no peito. Algumas vezes, tinha chegado a desmaiar.
O sobrinho mostrou paciência. Em diversas ocasiões, cancelou o programa. Mas a namorada se cansou logo daquilo e rompeu o relacionamento depois de meia-dúzia de ausências.
No dia em que os dois terminaram por telefone o namoro, Rafael, arrasado, tinha decidido sair de casa. Para espairecer. Desavisada, a tia acreditou que, como de costume, o rapaz pretendia encontrar a garota. De pronto vieram as tonturas, as dores no peito. Como Rafael parecia indiferente e sempre determinado a sair, a mulher desabou no meio da sala. Entre ele e a porta da rua.
Rafael não hesitou. Passou por cima do corpo caído. Uma perna, depois a outra. Não pisou em cima dela. Teve ainda essa atenção.
Mas quando já alcançava a porta, a tia lhe agarrou por uma das canelas. Quase o derrubou ao chão. Pôs-se a gritar com ele. Com um movimento brusco, ele se desvencilhou. Ganhou, enfim, a porta da rua.
Junto com ele, para fora da casa, pela porta deixada aberta, vinham os gritos estridentes e enfurecidos da mulher:
– Ingrato! Desalmado! Bastardo! Eu aqui morrendo e você passa por cima de mim como se eu fosse um entulho!?

Terça-feira, Março 15, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo11

Confuso, eu perguntei do que ela estava falando.
Do Rafa. Eu estou falando do Rafa. Foi tudo culpa minha. Foi por minha causa que ele ficou daquele jeito...
Ainda aturdido eu a contemplava num silêncio pasmo. Me esforçava para acompanhar aquela rápida transição de humor. Ela me olhava com um ar benevolente. Esperava, com paciência, que eu voltasse a mim para prosseguir.
Foi tudo culpa minha. Repetiu ela. Eu não sabia. Ele nunca me disse nada. O Rafa é muito tímido. Mas eu desconfiava. Ele me olhava de um jeitinho que eu devia ter adivinhado. Ele estava apaixonado por mim. Acho que ele me amava. Eu tenho certeza. Quando ele enlo- quando ele ficou doente, eu entendi. Coitadinho! Tudo culpa minha, tudo culpa minha...
Já não havia lágrimas em seus olhos. A expressão do rosto era dramática. Um pouco exagerada. A entonação da voz assumia uma melodia forte. Vulgar. Fui tomado por um certo incômodo. Como uma náusea indigestiva. Como uma suave ânsia de vômito Que não passou de um receber a realidade na medula. De um mau-gosto dos sentidos. De uma racionalização perniciosa das coisas.
Respirei fundo. Pedi a ela que tivesse calma. Que tentasse me explicar devagar os acontecimentos. Seus gestos, de súbito impacientes, protestaram contra o prosaísmo da exigência. Ela teimava em repetir as mesmas frases. A mesma confissão de culpa, para a qual, irritada, já não conseguia a mesma ênfase.
Tentando não contrariá-la, disse a ela que aceitava a sua hipótese, mas que, uma vez que o meu trabalho era de cunho científico, eu precisava de dados mais positivos, de provas mais contundentes que sua mera opinião subjetiva. Se ela mesma admitia que o Rafael nunca lhe dissera nada a respeito...
Claro que ele nunca me disse nada a respeito! Interrompeu ela cheia de cinismo e de desprezo.
Que queria eu? O Rafael era um rapaz muito tímido e reprimido. Sem dúvida por culpa da sua criação. Aquela sua tia era uma louca, uma megera. Passava por solícita, por boa, mas, na verdade, era uma pessoa doente. Exemplo disso era o imenso ciúme que sentia do sobrinho. As histórias que o Rafael contava a respeito eram absurdas. Perguntei-lhe que histórias seriam aquelas.
Ela passou a narrar, com um sorriso de triunfo nos lábios.

Segunda-feira, Março 14, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 10

Ela me deixou esperando uns quarenta minutos, ao longo dos quais eu tentava espalhar minha impaciência com a fumaça dos cigarros que acendia.
Notei que minhas mãos tremiam um pouco. Sorri. Esperar alguém é sempre angustiante. Em especial, uma garota. Ainda que não se trate de um encontro amoroso.
Quando apareceu, caminhando em minha direção, adivinhei que era ela. Me levantei para a receber. Houve um momento de constrangimento em que hesitamos entre nos apertarmos as mãos ou nos beijarmos as faces. Ela acabou se decidindo pela segunda opção. Nós nos sentamos.
A moça era bastante bonita. Isso me surpreendeu. As primeiras palavras que eu disse saíram a custo. Pareceram bizarras, impertinentes.
Seu olhar e a expressão séria do seu rosto me encorajaram. Aos poucos deixei de prestar atenção no som estranho que as palavras tinham. Meu discurso foi ganhando fluidez. Pedi desculpas por incomodar. Confessei que o que ela tinha dito sobre o Rafael tinha me deixado curioso.
O rosto dela se nublou. Quase se apagou à menção do nome. Fez-se um silêncio de alguns minutos. Percebi que ela estava chorando. Me senti embaraçado. Talvez esperasse essa atitude da tia. Não a tinha imaginado para a garota.
Vacilante, toquei de leve seu braço com a minha mão. O gesto bastou para que ela encostasse sua cabeça no meu ombro e começasse a soluçar.
Sentia as lágrimas dela escorrendo pelo lado do meu pescoço. Se bifurcando entre o meu peito e as minhas costas. Enquanto o hálito quente dos seus soluços aquecia o fluxo do líquido.
Na tentativa de acalmá-la, passei meu braço ao redor dos seus ombros. Puxei-a para mim. Ficamos assim durante algum tempo. Até que ela parou de chorar e se afastou um pouco. Tirou do bolso um lenço de papel. Enxugou o rosto. Depois me olhou nos olhos e disse com a voz muito calma.
Foi tudo culpa minha.

Se você dança com o Diabo - Capítulo 9

9.
A primeira coisa que fiz, assim que voltei para a capital, foi ligar para a pensão onde o Rafael tinha vivido. O homem do outro lado da linha me informou que já havia mais de dois meses que o cortiço tinha sido vendido e transformado em “casa de massagem”. Perguntei se ele não teria alguma informação sobre o antigo proprietário. Ele desligou.
Minha investigação tinha me levado a um beco sem saída. Não poderia voltar ao hospício antes de, pelo menos, uma semana, por causa de obrigações cotidianas. Precisava de mais informação. Não sabia onde procurar.
Pensei em pesquisar nos jornais da época por alguma notícia sobre o enlouquecimento do estudante. Logo desisti. A busca levaria tempo. Era bastante improvável que os periódicos tivessem dado atenção a um caso tão mesquinho naquele dia em que se chegou a falar em “3ª guerra mundial”.
Me deparei com um vazio terrível dentro de mim. Só então percebi o quanto resolver o caso te enganei tinha se tornado importante. Toda a energia que estava gastando. Toda a libido que estava empregando. Descobrir a verdade tinha se tornado fundamental. Imprescindível. Já não bastaria qualquer resposta para satisfazer o meu desejo. Seria preciso uma solução genial. Fantástica. Surpreendente.
O tempo passava devagar. Os dias se esvaziavam de sentido. Tinha muita dificuldade para me concentrar nos afazeres rotineiros e burocráticos. Sempre me pegava pensando no Rafael. Me perguntando o que teria acontecido de verdade com ele. À noite tinha muitos pesadelos. Sonhava com conspirações internacionais. Intrigas políticas. O diretor do hospício. Meu professor. O pai guerrilheiro do Rafael. Morto em um acidente de carro com a esposa. A tia, que o queria impedir de viajar para os Estados Unidos. Que parecia estar escondendo alguma coisa... Acordava assustado. Os lençóis úmidos do meu suor. O ventilador, no teto, girando devagar.
Depois não conseguia mais dormir. Ficava na cama, amaldiçoando o calor. Tentando desembaralhar todas aquelas imagens na minha cabeça. Ligava a televisão na esperança de que ela me devolvesse o sono. Não funcionava. Passava o resto das noites assistindo aos filmes da TV a cabo.
Outras vezes eu ligava o computador. Me conectava à Internet. Entrava em páginas de busca. Procurava pelo nome do Rafael. Nunca obtive nada relevante dessa maneira. Apenas listas de aprovados em vestibulares e classificações em campeonatos de xadrez.
Assim transcorriam as noites. A fumaça dos cigarros no meu quarto se transformava numa neblina branca. Nuvens inertes de tédio. Imóveis como eu. Deitado na minha cama. Os olhos perdidos no teto.
Foi quando eu tive uma idéia. Pensei em vasculhar a rede em busca de uma comunidade virtual de ex-alunos da turma do Rafael na faculdade. Para minha enorme satisfação, acabei encontrando. Senti minha pulsação se acelerar.
Numa mensagem ao grupo, disse quem era. Que estava interessado no caso do Rafael. Que precisava de informações de alguém que o tivesse conhecido pessoalmente.
Dias depois, recebi uma resposta de uma garota.
“Eu sei porque o Rafa ficou maluco”. Embaixo, o número do seu celular.
Liguei para ele e nós combinamos um encontro para conversarmos, num parque da cidade.

Domingo, Março 13, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 8

Depois de uma semana em que fui tomado por outros compromissos, decidi dispor de um domingo para ir visitar, no interior, a tia do Rafael.
Combinei a entrevista por telefone. A mulher – uma solteirona de uns quarenta e cinco anos – me recebeu com cortesia e atenção.
Pediu, ao abrir a porta, que eu não reparasse na bagunça. Não estava acostumada a receber visitas.
Ela só podia estar brincando. Mesmo que eu quisesse contrariar o pedido, seria preciso usar a imaginação. Um capricho de dona-de-casa exemplar se insinuava na disposição simétrica de cada móvel. No brilho ascético do chão encerado.
Me perguntou se eu queria beber alguma coisa. Eu disse que aceitava um copo d’água. Ela me apontou um sofá e pediu que eu me sentasse. Obedeci.
A sala era simples; a decoração, antipática. Abundavam objetos pequenos de pequeno valor. Vasos de vidro colorido, cachorrinhos de porcelana, cinzeiros e outros bibelôs. Na parede, uma gravura que era de Jesus Cristo, mas que me lembrava o Hulk Hogan e um quebra-cabeça, montado e emoldurado, que representava a torre Eiffel. Sobre a mesa de centro, em frente ao sofá, um porta-retratos grande. Com uma fotografia em que reconheci o Rafael. Mais novo e com os cabelos compridos.
A mulher voltou trazendo nas mãos uma pequena bandeja retangular. No centro preciso estava meu copo com água. Colocou na mesinha à minha frente. Arrumou o porta-retratos que, suponho, eu não tinha devolvido ao lugar exato. Esperou que eu tomasse o primeiro gole.
Pensei que você fosse mais velho.
Acho que enrubesci. Abri a boca para dizer alguma coisa. Ela se adiantou.
Você deve ter mais ou menos a mesma idade que o Rafael.
Compreendi que aquela era a maneira pela qual ela pretendia dispersar meu embaraço inicial. Introduzir o assunto objetivo da visita. Sem querer desperdiçar a ajuda benevolente, expus de maneira sucinta meu interesse pelo caso do sobrinho. Pedi que ela me contasse tudo que pudesse ser relevante.
A mulher demonstrou má vontade no começo. Resmungou qualquer coisa sobre não entender por que só então alguém se ocupava de tentar explicar o que tinha acontecido. Depois, animada com o som da própria voz, ela foi acelerando seu ritmo de fala. Até desembestar numa tagarelice quase histérica, que a sacudia e agitava num pavoroso frenesi. O corpo permanecia imóvel. A postura, bem comportada. Mas a língua não parava. Todos os músculos do seu rosto se contorciam para pontuar com expressões faciais o fluxo descomunal. O peito arfava nas raras pausas para repor o oxigênio despendido no esforço físico.
Os pais do Rafael tinham morrido alguns meses depois que ele tinha nascido. Uma fatalidade, dizia ela. Parecia gostar dessa palavra. Uma fatalidade. Um acidente de carro. Os freios tinham falhado. Uma tragédia. Uma fatalidade. Ela era irmã do pai do Rafael. Não tinha hesitado em adotar o sobrinho. Desde então, o tinha criado como se ele fosse seu verdadeiro filho. Aliás, era isso mesmo que ele era. Seu filho. Tinha sacrificado tudo por ele. Tudo. Nunca tinha se casado por temer que o marido rejeitasse o menino. Tinha sofrido muito quando o Rafael se mudara para a capital. Tinha tentado mesmo dissuadi-lo. Tinha errado, admitia. Ficava feliz por ele nunca ter lhe dado ouvidos. Afinal de contas, era do futuro dele que se tratava. Ele tinha se mudado para a capital, para a faculdade. Faculdade de matemática. Os números eram a paixão do Rafael.
Nesse ponto eu a interrompi. Perguntei se ela se incomodaria se eu fumasse. Impaciente para voltar a ouvir a própria voz, ela apontou um cinzeiro na mesa de centro. Pediu que tomasse cuidado para não derrubar cinzas no tapete.
Os números eram a paixão do Rafael. Ele sempre tinha sido o melhor aluno de matemática da sala. Tinha ganhado todas as olimpíadas daquela matéria. Aos dezessete anos, tinha entrado na faculdade. Curso de matemática pura numa das melhores universidades do país. Não tinha chegado a se formar. Tinha enlouquecido antes. No quarto ano. Tinha sido pouco depois de receber o convite para ir estudar numa universidade americana. Sim, ele tinha sido convidado. Tinha mandado uns currículos. Tinha feito uns exames. Tinha recebido o convite. Ela tinha acabado conseguindo convencê-lo a não ir. Disso não se arrependia. Tinha certeza de que era melhor para ele ficar aqui. No país onde tinha nascido. Além do mais, imaginava que seu irmão até se reviraria na tumba se ela deixasse o sobrinho ir morar nos Estados Unidos. O pai do Rafael odiava os Estados Unidos. Não podia nem ouvir alguém falar bem daquele país que logo se irritava. Durante a ditadura, tinha sido guerrilheiro. Fora preso e torturado. Por pouco não tinha sido assassinado. Era de se esperar que tivesse as suas reservas contra americanófilos. Pois até por isso ela achava que tinha feito bem em conservar o Rafael no Brasil. Tinha a consciência tranqüila. Até porque os Estados Unidos já não eram mais tão seguros como antes...
Já tentei elaborar várias hipóteses para explicar o que aconteceu. Talvez tenha sido uma revolta inconsciente contra a falsidade plástica daquele ambiente. Daquela sala. Daqueles bibelôs. Talvez tenha sido um impulso de prazer sádico sobre a neurose daquela mulher. Mas também é possível que tenha sido apenas a única maneira que eu encontrei para fazê-la parar de falar.
Por qualquer que fosse o motivo – quem sabe não foi por acaso – com um movimento brusco da minha perna, derrubei sobre o tapete o cinzeiro e todo seu conteúdo. Por cima, entornei o copo com água.
Não fosse por um gritinho, breve e estridente, eu poderia dizer que ela permaneceu quase impassível. Levantou-se cheia de soberana resignação. Caminhou até a cozinha para buscar um pano e o material de limpeza necessário.
Assim que ela voltou, eu me desmanchei em desculpas. Me ofereci para levar o tapete a alguma loja especializada e arcar com a despesa. Ela resmungou qualquer coisa sobre não haver tais lojas naquela cidade. Que eu não me preocupasse. Não tinha sido culpa minha.
Insisti, mas não muito. Decidi que o melhor mesmo era ir embora.
Antes de me despedir, anotei o telefone da pensão onde o Rafael tinha morado na capital.
Só mais uma coisa ainda, se me permite. Se a senhora tivesse que arriscar um palpite, por que motivo diria que seu sobrinho ficou louco?
Muito estudo, com toda certeza. Acontece muito. Todo mundo sabe que gente que estuda demais acaba ficando maluca, não é verdade? Você mesmo já deve ter conhecido outro caso assim, não?
Refleti um instante antes de responder.
Conheci uma vez o Seu Alonso. Era um velho espanhol. Leu tanto que o cérebro secou... Agora preciso ir.
Ao dizer o último adeus, mais uma vez pedi desculpas pelo tapete. Ela me disse para não pensar mais naquilo. Tinha sido uma fatalidade.

Sábado, Março 12, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 7

Rafael tinha sido internado no dia onze de setembro de 2001. Apenas mais um dia, como qualquer outro, para enlouquecer. Mesmo assim, era curioso.
Nova York ficava muito longe. O Brasil nada tinha a ver com aquilo. A probabilidade era muito pequena. Sempre acreditei que uma coincidência é apenas uma coincidência. Até que se prove o contrário.
O que também não quer dizer que esse contrário nunca possa ser provado.
Na segunda visita que fiz ao meu paciente, se repetiu aquele nosso excêntrico cumprimento, seguido de seu estado de apatia irreversível. Desta vez tirei da minha pasta um saco plástico com algumas fotografias recortadas de jornais e revistas. Me sentei do lado dele, na cama. Sob o olhar curioso do diretor, passei a mostrar as imagens para o interno.
Comecei com fotos neutras de paisagens, pessoas, animais, objetos. Elas tinham objetivo duplo: servir como placebo na experiência; esconder meu verdadeiro intento dos olhos do velho.
Quando percebi que esse já não prestava atenção, meti a mão mais fundo no saco e passei a tirar dele fotos do atentado ao World Trade Center. Mostrava com insistência para o Rafael. Seu estado não se alterava em nada. Olhava sem interesse por poucos segundos. Logo em seguida voltava a babar repetindo sua frase única.
Eu tinha começado a perder as esperanças. Insistia ainda com algumas fotografias, que já não mostravam o atentado em si, mas eventos relacionados a ele. Como a invasão do Afeganistão. A guerra do Iraque.
Diante de uma delas, Rafael despertou. Depois de um breve instante de contemplação da imagem, explodiu em uma reação furiosa. Soltou um urro e me deu um soco. Subiu na cama. Começou a berrar coisas ininteligíveis. Lágrimas desciam pelo seu rosto. O diretor correu para fora e chamou um funcionário. Esse, ao tentar chegar perto do Rafael, levou um chute forte na cabeça e foi nocauteado. O rapaz acabou imobilizado por dois outros funcionários. Eles o seguraram enquanto um terceiro lhe injetava na veia um sonífero poderoso.
Minutos depois, o diretor, muito agitado, se aproximava de mim na enfermaria, enquanto cuidavam do sangramento do meu nariz.
Mas, afinal de contas, o que foi que você mostrou para ele?
Estendi a mão direita e a abri. Apareceu, toda amarrotada, a foto de uma cachoeira. Alguns turistas brincavam na água. O diretor olhou para a imagem. Depois olhou para mim.
Eu não... eu não percebo...
Ergui os ombros. Gemi mais alto quando a enfermeira encostou o algodão no meu nariz, para que ele entendesse que eu estava mais preocupado com o soco que levara no rosto. Contrariado, ele tentou disfarçar seu embaraço.
E... você está bem? Não se machucou muito? Eu lamento... ele nunca se comportou assim antes...
Quando entrei no carro, examinei meu próprio rosto no retrovisor. Estava inchado. Apesar de maluco, o Rafael ainda sabia como dar um soco. Tirei do bolso a foto que tinha escondido. Era uma imagem da guerra do Iraque. Numa sala pequena e escura, dois soldados americanos torturavam com fios elétricos um rebelde iraquiano capturado. Guardei a fotografia e dei a partida no carro. Era hora de mudar de frente.

Sexta-feira, Março 11, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 6

Nesse meio tempo, reuni e revisei o material teórico que podia ser útil na minha pesquisa. Estudei com ênfase especial os textos que tratavam de casos de alienação parecidos. Me convenci de que o mais provável era que o rapaz tivesse ficado daquele jeito por causa de um trauma. Algum evento intenso. Agudo. Bem situado no tempo.
Quando voltei pela primeira vez ao sanatório, estava confiante. Me sentia inteligente. Poderoso.
O diretor me recebeu bem humorado, ainda que não fizesse o mínimo esforço para esconder o seu desprezo. Nos seus olhos, no seu sorriso bem calculado, apenas uma mensagem discreta e polida: eu estava perdendo meu tempo.
Um funcionário foi verificar se o paciente já estava acordado e em condições de receber minha primeira visita. O diretor me entregou a ficha. Começou a falar dele, enquanto caminhávamos pelo corredor escuro:
O Te enganei é um dos internos mais mansos. Está aqui já tem uns três meses e nunca tivemos problemas com ele. A não ser no começo quando a gente ainda servia café da manhã para ele. Não sei o que ele tem contra o café da manhã, mas era só o funcionário entrar com a bandeja que ficava na hora muito agitado. Berrava e se debatia até que tirassem a comida da frente. Depois a gente simplesmente parou de servir o café da manhã para ele e nunca mais tivemos nenhum tipo de problema. Ele gosta de brincar, como fez com você naquele dia, mas nunca faz mal a uma mosca. Parece que era um bom rapaz. É uma pena que tenha ficado assim, idiota. Os médicos nunca entenderam direito o que foi que aconteceu. Ele é desses lunáticos que perderam quase que completamente o contato com a realidade. Vive no mundinho dele, como se diz. Desde que chegou aqui nunca falou uma palavra que não fosse aquele te enganei de sempre. Uma pena mesmo. Ouvi dizer que era um rapaz inteligente, fazia até faculdade, engenharia, parece... Chegamos. O quarto dele é esse aqui.
Antes de entrar, enquanto o diretor trocava algumas palavras com o funcionário que tinha acabado de sair do quarto, aproveitei para dar uma olhada na ficha do meu interno.
O nome dele era Rafael Nasser. Tinha vinte e três anos. Era tudo que o papel informava a seu respeito. Além de alguns dados médicos como tipo sangüíneo, altura, peso, e do resultado de alguns exames de saúde que tinha feito. Todos normais. Grampeado à ficha estava o pedido de internação. Assinado por um psiquiatra, pelo diretor e por um parente responsável. No caso do Rafael era uma tia. Devia ser seu parente mais próximo. O endereço para contato de que constava a ficha era de uma cidade pequena. No interior do estado. Já o psiquiatra que tinha assinado o pedido não era outro se não o próprio professor que estava me orientando.
Assim que entrei no quarto, Rafael olhou para mim e tive a impressão de que ele tinha me reconhecido. Subiu na cama e bateu palmas. Os olhos radiantes:
Te enganei!
Sorri e perguntei se ele se lembrava de mim.
Como resposta, o rapaz desceu da cama, parou um segundo na minha frente, prendeu, como da outra vez, meu nariz entre seus dedos e começou a balançá-lo para lá e para cá, soltando gargalhadas e babando de alegria.
Te enganei!
Um pouco nervoso, sem saber direito o que fazer, segurei, eu também, o seu nariz e o balancei de maneira idêntica. Redobraram-se suas gargalhadas. Não me lembro de ter nunca lido em nenhum manual de psiquiatria que se devesse imitar o comportamento de um doente. Mas, ali, no improviso, foi a única coisa que me ocorreu. Uma espécie de impulso comunicativo, que, bem ou mal, parecia ter surtido algum efeito.
Um instante depois, já farto daquilo, ele me soltou. Voltou a se sentar na cama. Os olhos se fixaram no vazio. Começou a se balançar suavemente para frente e para trás. Murmurando o seu estribilho transformado numa espécie de mantra.
Te enganei... te enganei... te enganei...
Durante mais de uma hora, eu tentei restabelecer contato com ele. Esforço inútil. Ele já não estava ali. Chamei-lhe pelo nome e pelo apelido. Toquei algumas vezes no seu ombro e no seu rosto. Falei com ele. Tudo em vão. Nada parecia capaz de trazê-lo de volta naquele momento.
Do canto do quarto onde estava, o diretor observava a cena. Parecia satisfeito.
Eu bem que te avisei, meu jovem. O Te enganei é sempre assim. Você nunca vai conseguir tirar nada dele.
Desanimado, deixei meu corpo cair numa cadeira. Passei a examinar a ficha do Rafael. O diretor tagarelava sobre o tempo que ele mesmo tinha perdido em tentativas semelhantes de conversar com o paciente.
Um dado curioso chamou minha atenção na ficha. Acho que o velho percebeu. Na mesma hora me perguntou:
Alguma coisa errada?
Não sei muito bem por que, menti. Respondi que não era nada. Ele me olhou desconfiado. Seu rosto se nublou por um momento. Depois sorriu outra vez e disse, abrindo a porta do quarto:
Venha. Não adianta você insistir mais tempo hoje.
Obedeci. Deixamos o quarto. Ele me acompanhou até meu carro.

Quinta-feira, Março 10, 2005

Leitores, identifiquem-se.

Pelo aumento no número de visitas, é possível que algumas pessoas estejam mesmo acompanhando o folhetim. Infelizmente, ninguém tem comentado. De todo modo, gostaria ao menos de saber quem é (se é que realmente existe alguém e não se trata apenas de visitas aleatórias) que está seguindo a história. Peço por muito, muito, muito favor, com açúcar em cima, que aqueles que tiverem lido a história até aqui deixem um comentário com seu nome. Só isso. Não precisa escrever mais nada. Pode ser? ;)

Se você dança com o Diabo - Capítulo 5

Ao final da nossa visita daquele dia, quando chegou o momento de eleger o meu objeto de estudo, perguntei simultaneamente ao professor e ao diretor se eu poderia analisar o caso daquele interno.
Os dois trocaram olhares rápidos.
Quer dizer então que, apesar do susto, o Te enganei conseguiu conquistar a sua simpatia? Perguntou o diretor. Por mim, não vejo problemas, mas já adianto que não tem muito o que estudar no caso dele. Um quadro meio inexplicável, mas bastante comum, na verdade. Não há nenhuma má-formação do aparelho cognitivo. Nenhum trauma no sistema nervoso central. É só um pobre diabo lunático que enlouqueceu do dia para noite e que agora reveza estados de euforia, como esse que você presenciou, e de apatia, quando fica ensimesmado. Já tentei conversar com ele algumas vezes. Mas jamais consegui penetrar na mente daquela criatura.
Talvez você devesse escolher outro paciente mais acessível. Sugeriu o professor, amistoso e persuasivo.
Mas alguma coisa tinha me atraído no olhar dele. Um brilho escondido de inteligência, de sensibilidade por trás da idiotia aparente. Acho que eu ainda não estava pronto para admitir, mas era como se eu quisesse acreditar que não tinha sido por acaso que ele tinha se aproximado. Que, se ele tinha vindo até mim, era porque devia ter alguma coisa para me dizer.
Argumentei que, se não havia nenhum problema fisiológico com o paciente, era um motivo a mais para que se estudassem casos como esse, na tentativa de descobrir a causa para a insanidade e, se possível fosse, combatê-la, ou ao menos, preveni-la no futuro.
Diante da minha insistência, o professor acabou cedendo. Ficou acertado que eu voltaria sozinho ao hospício dentro de alguns dias para começar os meus estudos.

Quarta-feira, Março 09, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 4

Me virei devagar e dei com um dos pacientes bem na minha frente.
Era jovem. Devia ter mais ou menos a minha idade. Vestia uma espécie de roupão de tecido leve e claro. Comum a todos os internos da instituição. Era muito magro e um pouco curvado. Tinha os cabelos escuros e lisos. A pele do rosto era cheia de espinhas. A expressão era amigável. Os olhos, vivos e perscrutadores. O sorriso parecia ingênuo.
Apenas eu tinha terminado de me virar para ele, o interno prendeu meu nariz entre o dedo médio e o indicador da sua mão direita e começou a balançar meu rosto de um lado para outro, soltando uma gargalhada infantil e cantarolando:
Te enganei! Te enganei!
Por pouco não entrei em pânico.
Meus colegas caíram na gargalhada, sem a menor piedade diante da cena. O diretor se aproximou de nós com um sorriso de desprezo nos lábios.
Solta o nariz do moço, Te enganei.
Ele obedeceu. Apertou as bochechas do diretor. Repetiu ainda mais uma vez aquele refrão. Afastou-se correndo e foi se sentar no gramado, ao lado de outro paciente. Passou então a balançar as orelhas dele com seus indicadores, enquanto cantarolava sempre:
Te enganei! Te enganei!
Foi assim que ele me escolheu.

Terça-feira, Março 08, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 3

O ambiente era sombrio. Entrava pouca luz pelas janelas. No ar, um certo cheiro de abandono.
Nos recebeu um senhor de idade que se apresentou como diretor da casa. Parecia conhecer bem o professor. Nos contou em poucas palavras a história do lugar.
O velho nos conduzia por ali como se visitássemos algum museu, ou atração turística de outro tipo. Ali eram os quartos dos pacientes. Ali ficava o refeitório. Ali estavam os chuveiros.
Por fim, fez com que o seguíssemos por uma porta que se abria para um amplo pátio dos fundos, no qual os doentes mansos tomavam todos os dias seu banho de sol.
Lá estavam no momento em que saímos pela porta. Poucos se deram conta da nossa presença. Muitos permaneciam apenas sentados, imóveis, os olhos no vazio. Outros balançavam o tronco para frente e para trás, emitindo grunhidos. Alguns deles se voltaram para nós e nos olharam com timidez.
Paramos um pouco para observar. O diretor começou a falar da rotina deles. Dos horários das refeições. Dos banhos de sol. Estávamos todos de pé sobre o gramado, em semicírculo ao redor dele. Seu discurso começava a se tornar maçante e as nossas atenções se dispersavam...
Senti o peso de uma mão sobre meu ombro esquerdo. Estremeci.

Segunda-feira, Março 07, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 2

Eu revia as ruas sombrias. Os rostos estranhos naquela manhã nublada. Eu ouvia a garoa fina caindo sobre o pára-brisa enquanto eu me esforçava para ler as placas nas esquinas.
Perdido. Eu nunca tinha estado antes naquela zona da cidade. As ruas pareciam iguais e talvez fossem mesmo. Uma impressão constante de estar andando em círculos. Desmentida só mesmo pelos nomes, que mudavam de placa em placa, conforme eu avançava pela avenida.
A casa apareceu de repente. Escondida entre dois edifícios robustos. Quase uma ruína. Conferi o endereço anotado num pedaço de papel. Estacionei o carro.
Caminhei até o portão de acesso. Era um portão velho de metal. As grades enferrujadas. Um homem me olhava com uma expressão interrogativa à medida que eu me aproximava. Quando ficou claro que era para lá mesmo que eu ia, ele me disse bom dia e me perguntou se eu pretendia visitar alguém.
Não, senhor. Sou do grupo de estudantes. Não sei se o senhor está sabendo...
Estava. Pediu desculpas pela distração e, enquanto destrancava o portão, informou que eu era o primeiro a chegar.
Era um casarão antigo, do começo do século passado. Seu último dono tinha sido um poderoso barão do café. Tinha comprado a casa para poder passar, quando precisasse, alguns dias na cidade. Morreu de repente, sem deixar herdeiros. Não tinha filhos, esposa, sobrinhos, irmãos, nada. Nenhum parente próximo ou distante. Todas as suas propriedades, inclusive a casa, foram parar nas mãos do governo do estado.
No começo, tinham decidido que a mansão seria vendida em leilão e que o capital arrecadado seria convertido em obras de embelezamento da cidade. Não aconteceu. Graças à influência de um político local – que também era alienista – resolveram, de última hora, transformar a casa em manicômio.
Cem anos depois, dava para ver na fachada decaída todas as marcas da passagem do tempo. O estado lastimável da pintura. O mato que tinha tomado conta do jardim.
A estátua do alienista ainda estava lá. No pátio da frente. Era uma grande escultura de bronze. Retratava o fundador do hospício com a mão direita erguida, como pronto para tomar a palavra e proferir seu discurso sobre a necessidade do sanatório. Mas até mesmo o olhar austero do doutor parecia ceder à passagem do tempo. Ano após ano, a estátua ia enferrujando e perdendo o viço.
Acendi um cigarro enquanto esperava. Eu estava ali para uma espécie de excursão. Organizada por um professor da faculdade para que os alunos pudessem estudar de perto alguns malucos de verdade.
Ele chegou logo em seguida. Me cumprimentou mal-humorado com um gesto e ficou esperando quieto que os demais alunos aparecessem.
Minutos mais tarde, reunido o grupo, nós entramos pelo saguão principal do edifício.

Domingo, Março 06, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 1

E então a câmera dava um close no rosto do ator. A música parava de repente e ele dizia: “Se você dança com o Diabo, o Diabo não muda; ele muda você”. Uma cena bastante comum. Um desses clichês de filme de suspense. Uma frase de efeito. Tosca, mas bonitinha. O suficiente para convencer um público medíocre da perspicácia do roteirista.
Eu já estava quase pegando no sono. Mas quando ouvi aquela frase despertei outra vez. Foi numa daquelas noites em que eu já não conseguia dormir, em que não conseguia mais parar de pensar no Rafael.
Cochilava às vezes. Acordava logo agitado. Com a impressão vaga de que tinha achado a resposta durante o sono. A solução difícil da charada.
Minha pele se arrepiava. Eu me levantava da cama, passando as mãos pelos cabelos. Talvez tivesse medo de estar, eu também, enlouquecendo.
Me incomodava o silêncio. Ligava a televisão. Os filmes na t.v. a cabo me distraíam. Me acalmavam um pouco. Ia até a cozinha e tomava um copo de leite. A angústia cedia. Trégua de alguns minutos. Depois se insinuava de novo na minha cabeça. Rebolando com a leveza de uma odalisca. Como uma visita inesperada, que diz que não vai ficar muito tempo e acaba passando a noite. A obsessão me espremia. Me pendurava num varal.
O cérebro era automático. Rebobinava sozinho a fita. Eu assistia a tudo de novo. Outra vez. Com um masoquismo de câmera lenta...

Se você dança com o diabo - Folhetim de mistério

Sabe aquele folhetim que eu tinha começado e abandonei, "O Alineado"? Pois é. Agora eu, finalmente terminei de escrever o conto. Ele mudou de nome para "Se você dança com o Diabo". Os capítulos serão publicados aqui diariamente. Dessa vez não tem erro: eles já estão escritos. Todos estão convidados a participar e a opinar.