Versão 2.0 do insulfilme.
Faz muito tempo que não posto nada. Vida louca.
O curioso é que mesmo assim, diraiamente recebo visitas.
Ainda estou trabalhando nesse conto aí que ficou inacabado.
Agora ele já mudou de nome e se chama "Se você dança com o Diabo". Mudei muito tudo o que eu tinha escrito nele.
Decidi que não posto mais nada aqui enquanto não for pelo menos semi-definitivo.
Andei dando uma mexida no conto anterior também, o "Insulfilme". Esse não mudou de nome. Esse continua se chamando insulfilme.
Publico a versão 2.0 para o caso de alguém querer ler.
INSULFILME
Segunda-feira, 10 de setembro de 2001.
Sem se despedir dos colegas, ele atravessou o corredor do seu setor com uma expressão esquisita no rosto. Mistura de dor, preocupação e desespero. Nem por isso, chamava a atenção dos outros funcionários: tudo discreto e controlado – Mauro sabia se conter. Talvez por não gostar de dividir seus problemas com ninguém.
Fingiu que assoviava enquanto esperava o elevador e até fez força para olhar as pernas da secretária, convenientemente à mostra sob seu sempiterno sorriso plástico.
O bonitão está olhando para mim de novo... Seus olhos no meu decote são quase uma indecência, quase uma violência, quase um estupro. Será que ele me acha bonita? Será que ele me acha gostosa? Será que de vez em quando ele se masturba pensando em mim? Eu, sim, já fechei os olhos e pensei nele, com essa cara de criança abandonada, que dá até vontade de colocar no colo. Sei que ele é solteiro: não tem aliança no dedo... É estranho. Embora ele me olhe, está sempre com essa cara de sério, parece estar com um olho no peixe, outro no gato.
Com um pequeno arrepio de susto, voltou a si ao ouvir a campainha que indicava que o elevador tinha chegado. Levantou os olhos das volumosas coxas subalternas e cumprimentou, com um sorriso discreto e amarelo, as pessoas que, dali de dentro, olhavam-no e aguardavam que ele entrasse.
Será que esse palhaço vai entrar logo ou não vai. Cara de filhinho-de-papai do caralho. Com certeza é parente de algum figurão. Por isso não tem pressa. Tem todo o tempo do mundo, o babaca.
Entrou e reparou que o botão do subsolo já havia sido apertado, pois estava aceso. Sem saber o que fazer com o indicador já esticado na direção do painel, pressionou-o mesmo assim.
Que inferno, porra, que calor! Não me conformo que esses caras embacem tanto para consertar o maldito ar-condicionado. País tropical é essa merda. E a minha transferência que não sai. Se for depender desses filhos da puta para alguma coisa, está todo mundo fodido. Seria bom se eu fizesse amizade com um engomadinho desses, ou, melhor ainda, se eu descobrisse algum segredo dele. Esses caras sempre têm os seus segredos, sempre tiram por fora um salariozinho que não estava previsto no holerite. Roubam os próprios avós, tios, pais e irmãos. Tudo um bando de ganancioso filho da puta que nunca está satisfeito com a grana que tem. Esse aí, com sua carinha de anjo, duvido que não tenha lá sua continha na Suíça. Queria descobrir um segredinho desses. Uma indiretazinha aqui, outra ali e pronto, os caras me mandavam para Miami para eu parar de encher o saco.
Quando chegou ao seu destino, despediu-se dos companheiros de viagem com um "tchau" murmurado e caminhou apressado para o carro.
Abriu a porta e se arremessou com violência sobre o banco do veículo. Fechou a porta, afrouxou o nó da gravata, respirou fundo umas duas ou três vezes e deu a partida.
Poucos minutos mais tarde, estacionou o carro em frente ao prédio onde morava seu irmão. Tirou do porta-malas uma bolsa preta de academia e caminhou para a entrada do edifício. Tão logo o viu, o porteiro cumprimentou Mauro com um movimento de cabeça e destravou eletronicamente o portão de acesso.
Esses caras não me enganam. Podem até enganar todo mundo, mas eu? Não, senhor, não me enganam. Ha! Deviam saber que eu não nasci ontem, não. Essa história de irmão é só fachada, tenho certeza. Irmão, ha! Desde que eu comecei a trabalhar nesse prédio que o homem vem visitar o “irmão” toda segunda-feira. Sobe sempre com essa bolsa aí, espera o “irmão” chegar, fica um tempão lá em cima com ele e depois desce com outra roupa, de banho tomado. Irmão coisa nenhuma. Isso aí é coisa de baitola, é o que é. Ele deve é levar as rendinhas dentro daquela bolsa lá. Pouca vergonha!
Ele respondeu ao gesto com um aceno semelhante e seguiu em direção ao hall de entrada, enquanto procurava no bolso da calça a chave que tinha da porta da frente.
Como havia imaginado, o irmão ainda não estava em casa. Atravessou a pequena sala de estar, entrou no banheiro, colocou sobre o chão a bolsa preta e trancou a porta.
Depois de ter lavado as mãos e o rosto com a água fria da torneira, ficou algum tempo se olhando no espelho, com a habitual expressão quase perdida de alguém que ou está pensando em algo muito profundo, ou não está pensando em nada.
Livrou-se da gravata, pendurando-a na maçaneta da porta. Fez o mesmo com o paletó e com a camisa. Fechou a tampa da privada e sobre ela colocou a calça dobrada. As meias, a cueca e os sapatos ficaram pelo chão.
Mais uma vez, ficou se olhando no espelho, como que indeciso. Tirou da bolsa preta um pequeno estojo de banheiro e colocou-o encima da pia. Começou pegando nele uma navalha e uma lata com espuma de barbear. Abriu a torneira da esquerda e, enquanto esperava que a água esquentasse, espalhou, o mais homogeneamente que pôde, a espuma sobre a pele do rosto. Depois, segurando a navalha com firmeza, raspou, com movimentos precisos, a barba que crescera desde de manhã.
Tirou do estojo uma pequena pinça metálica e, com a cara quase colada ao seu reflexo no vidro, pôs-se a extrair a indesejada penugem negra que crescia na região intermediária das sobrancelhas. Terminada essa tarefa, procurou na bolsa preta uma diminuta máquina de raspar cabelo e, com ela, passou a aparar os pelos das axilas e da virilha, até que, por fim, se olhou uma última vez no espelho e se sentiu satisfeito. Antes de entrar no box lembrou-se ainda de cortar as unhas, tanto dos pés, quanto das mãos.
Ligou o chuveiro. Tomou um banho igualmente meticuloso e detalhista, ensaboando e enxaguando cada parte do seu corpo com concentração e capricho. Quando acabou, enxugou-se com a toalha limpa que trouxera na bolsa; passou desodorante, loção pós-barba e perfume; vestiu-se com sua melhor calça e com sua camisa mais cara. Arrumou o cabelo com gel.
Depois destrancou a porta e saiu do banheiro.
Deu com o irmão, que acabara de chegar, sentado no sofá:
– Grande Mauro! Tudo bem com você?
Abraçaram-se e trocaram algumas palavras afetuosas. Alguns minutos mais tarde, sentaram-se à mesa e comeram juntos uma lasanha pré-pronta que o irmão de Mauro tinha preparado no microondas.
Depois de conversar um pouco (bem pouco) com ele, Mauro se levantou da mesa, foi até o banheiro, escovou os dentes e reforçou o perfume. Em seguida juntou todos os seus pertences na bolsa preta, balbuciou umas desculpas e abriu a porta para sair.
Virou-se ainda uma última vez e parece que ia dizer alguma coisa, mas o irmão atalhou:
– Já sei, já sei, seu sem-vergonha! Se a tua mulher te ligar, digo que você está tirando um cochilo. Pode deixar. Vê se se cuida, hein, garanhão!
Ele agradeceu sem sorrir e entrou no elevador.
O Maurão não toma jeito mesmo. A filhinha que acabou de nascer e ele sustentando amante fora de casa. É de doer no coração. E o pior de tudo é que eu dou cobertura para ele. Está certo que irmão é irmão e que a gente sempre cuidou um do outro, desde de moleque, mas isso também já está pesando na minha consciência, já está indo longe demais. Daqui a pouco o cara está aí, sustentando duas famílias...
A noite estava esquisita. Fazia frio e havia muita neblina sobre as ruas quase vazias.
Parado em um sinal vermelho, Mauro parecia ansioso. Olhou para os lados, mas tudo que viu foi outros carros, parados também. Havia insulfilme em todos os vidros e ele não podia ver seus interiores. Fosse ali um amigo e Mauro não o poderia reconhecer. Afastariam-se um do outro sem que jamais tomassem conhecimento do encontro casual.
Na avenida, à sua frente, todos os semáforos estavam fechados, como um intransponível mar vermelho. Depois de um tempo viria o milagre. Numa reação em cadeia, eles se abririam, um após o outro, dando passagem, até que a avenida inteira se transformasse numa longa passarela de luzes verdes que desaparecessem no horizonte, como um luminoso convite a seguir adiante.
Ele seguia. Com uma expressão dolorida que devia ser de angústia, como se sofresse a tração oposta de duas forças antagônicas.
Estacionou o carro numa rua escura e seguiu a pé para uma casa de fachada amarela. Tocou a campainha. Um segurança veio abrir-lhe a porta.
– Ô Maurão! Como é que vai, rapaz? Tudo beleza?
Mauro apertou a mão que lhe era oferecida e esticou os braços para o lado, para que o segurança pudesse revistá-lo.
– Que isso, Maurão! Não precisa, não. Você já é de casa...
Entrou.
O Maurão é gente boa. Olha no olho, cumprimenta. Sabe respeitar os outros. E olha que ele tem muita grana. Podia esnobar, podia fazer de conta que eu nem existo, mas não: sempre me olha nos olhos e aperta a minha mão. Podia ficar irritado com a revista, como a maioria desses caras que vem aqui ficam, mas não: levanta os braços para os lados antes mesmo que eu peça. Deve ter muita grana mesmo o cara. Sempre bem vestido, sempre cheirando a perfume importado. Se o chefe descobre que eu deixo ele passar sem revista é bem capaz que eu perca meu emprego. Mas na vida a gente tem que correr riscos para fazer o que é certo. O Maurão é gente boa. Merece a gentileza.
Ao mesmo tempo que chegava aos seus ouvidos uma música antiga e fora de moda, suas narinas se sensibilizavam com o aroma de perfume barato e seus olhos eram simultaneamente investigados por uma dezena de olhares diferentes, indo do mais receptivo possível ao mais agressivo possível, passando por algumas extravagantes combinações de curiosidade e provocação.
Era forte o impacto. Tanto que a cabeça sensível de Mauro girou por um instante e ele deixou-se cair numa poltrona, enquanto fechava os olhos e respirava fundo.
Quando os abriu de novo, viu a gerente da casa parada na sua frente:
– Oi, gostosão! Não cumprimenta mais as amigas?
Ele esperou que ela se inclinasse e beijou-lhe discretamente a face.
– Quer que eu mande as garotas se apresentarem?
Mauro fez que sim com a cabeça e aproveitou para pedir também uma dose de uísque para relaxar um pouco.
Qual será a desse cara, hein? “Me trás uma dose de uísque, por favor”. Pensa que eu sou garçonete? Eu sou a gerente, a gerente! Esses canalhas acham que aqui é tudo puta, que podem me tratar como se eu fosse puta também. Eu nunca fiz programa, nunca. Esse cara também é esquisito. As meninas comentam... mas eu também não me meto: isso é lá com elas que se vendem para estranhos. Se bem que, para falar a verdade, ele é bonitão, bem arrumado, educado, cheiroso... O tipo de cliente que nós – que elas gostam. Mesmo assim, não sei não. Para mim, digam o que disserem, ele é muito esquisito.
Uma a uma, as garotas começaram a vir até sua poltrona. Diziam-lhe seus nomes, beijavam-lhe a face e se afastavam rebolando nas mini-saias. Algumas já o conheciam, outras eram novas na casa.
Lentamente o álcool se espalhava pelo sangue de Mauro e a realidade se diluía numa suave sensação de irresponsabilidade. Passados alguns minutos, ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali e chamou uma das moças novas, que veio sentar-se no seu colo. Ele remexeu-se um pouco na poltrona, incomodado. A jovem percebeu e sorriu:
– Já entendi. Você é dos tímidos.
Levantou-se, pegou uma cadeira de perto do bar e colocou-a ao lado da poltrona de Mauro. Depois segurou a mão dele e afetando uma voz inocente, disse:
– Me conta, meu lindo. O que é que você quer de mim?
Subiram as escadas juntos. Ela, um pouco na frente, ria alto e rebolava. Ele seguia em silêncio. Seu rosto outra vez se tornara taciturno. Estava um pouco tonto por conta do uísque e calculava bem os passos antes de executá-los. Ela parou diante de uma porta e encarou-o com uma expressão vulgar no rosto:
– É aqui, garanhão.
Mauro desviou os olhos, parecendo perturbado. Depois fez um gesto impaciente, estendendo o braço e solicitando que ela entrasse primeiro. Sempre sorrindo e sempre rebolando, ela obedeceu enquanto ele fazia o possível para não olhar para o nauseante vai-e-vem dos seus quadris.
Ele fechou a porta e ficou algum tempo ali parado, os olhos fixos na maçaneta, como se hesitasse ou esperasse por alguma coisa. Quando enfim voltou-se outra vez para o interior do quarto, viu que a garota já estava na cama, completamente nua, o dedo indicador da mão direita descrevendo círculos lentos em torno do mamilo esquerdo.
Sentiu o uísque embrulhar-lhe o estômago e subir-lhe até o que deveria ser, mais ou menos, o meio do esôfago. Teve uma convulsão rápida e levou as costas da mão à boca. Quase vomitou ali mesmo, no chão do quarto.
Ela se levantou da cama.
– Você está se sentindo bem?
Ele respondeu que sim, que estava tudo bem, que era só o uísque que não tinha descido direito. Concluiu pedindo para que, por favor, ela recolocasse as suas roupas.
A jovem, porém, irritou-se com o pedido e começou a falar muito alto que não era culpa dela se ele estava bêbado, que agora ela já tinha subido, que eram normas da casa, que uma vez dentro dos quartos não se aceitavam desistências.
Mauro suspirou fundo. Parou diante dela e segurou-lhe de leve as duas mãos. Disse-lhe que se acalmasse, que não queria desistir de nada, que só estava pedindo para ela vestir as roupas.
A irritação dissipou-se do rosto da moça e ela sorriu enquanto atendia ao pedido dele.
– Já sei. Você quer tirar você mesmo, né, bebezão?
Ele não respondeu. Conduziu-a até a cama e fez com que se sentasse.
Ela o olhava estranhando um pouco aqueles gestos quase formais. Parecia haver desistido de compreendê-lo e agora o encarava com curiosidade, aguardando para ver o que ele faria em seguida.
Mauro conseguiu sorrir para demonstrar sua aprovação. Deu um passo para trás, suspirou de novo e encarou a garota, fixando-a diretamente no rosto com um ar frio e imóvel.
Ela sentiu de imediato o choque da mudança e baixou a cabeça, meio intimidada. Segundos depois, quando reergueu os olhos, encontrou os dele na mesma expressão intensa e inerte.
Um pouco insegura, ela estendeu o braço pra ele e chamou com a voz doce:
– Vem cá, vem...
Nada. Mauro nem se mexeu. Só seu semblante pareceu endurecer ainda mais enquanto as pálpebras se apertavam, revelando pequenas rugas nos cantos.
A jovem corou um pouco, mas deu de ombros em seguida, deitando-se na cama e virando as costas para ele. Ficou assim uns dois minutos e não resistiu mais tempo: virou-se para Mauro e encontrou-o do mesmo jeito. Dessa vez sentiu medo.
Tem algo de errado com esse cara. Tem algo de doente no olho dele. Até me fez lembrar daquelas histórias que ouvi quando comecei a trabalhar. Maníacos que estrangulam meninas dentro dos quartos, ou que sufocam elas com o travesseiro, para depois treparem com os corpos. Sempre achei que era besteira, que era historinha de bicho-papão, mas será? Tanta gente doente nesse mundo... Vai que o cara é brocha mesmo e é revoltado, surtadão. Ai, meu Deus! Ele não tira a mão do bolso. Que será que tem naquele bolso? E se tiver uma arma, ou uma faca? Ai, pelo menos isso não. Isso é impossível. Ai, graças a Deus que tem revista na entrada.
Mauro deu dois passos em direção da cama. Os olhos sempre apertados, a expressão transtornada e decidida. A mão direita no bolso da calça.
Ela encolheu-se um pouco na cama e olhou para o telefone na mesinha de cabeceira. Teve vontade de ligar para baixo e pedir que o segurança subisse. Voltou-se para ele uma última vez e surpreendeu-se com um par de lágrimas, que corriam pequenas e paralelas sobre a pele do seu rosto.
– Que é isso? Você está chorando?
Toda a agressividade tinha se apagado do rosto de Mauro. Seus olhos se desfizeram da dureza anterior para se fixarem inexpressivos no vazio, como se não houvesse nada nem ninguém na sua frente. As lágrimas se repetiam num fluxo contínuo, porém contido. Os lábios tremiam um pouco.
A garota pegou a mão dele e puxou-o brandamente para a cama. Ele não opôs resistência: deixou-se levar com indiferença e deitou-se ao seu lado enquanto ela se punha a acariciar-lhe os cabelos e a dizer-lhe palavras meigas que ele já não podia ouvir.
Começou a soluçar e encolheu-se na cama, a cabeça quase instintivamente buscou o colo dela. Entregava-se aos poucos. Talvez lutasse contra si mesmo. Acabou abraçando as próprias pernas e ficou assim durante muito tempo: em posição fetal, chorando alto no colo da prostituta.
Enquanto destrancava a porta do seu apartamento, Mauro ouviu ruídos no interior. A mulher, com certeza, ainda estava acordada. Antes de entrar, olhou por algum segundos para a aliança no dedo e sorriu.
Recebeu-o em casa um silêncio resoluto. A esposa provavelmente correra para o quarto e agora fingia estar dormindo. Era o castigo que ela lhe impunha toda vez que ele chegava tarde.
A caminho do dormitório, parou diante de um espelho que havia na parede do corredor. Encarou o reflexo no vidro como se lhe perguntasse qualquer coisa, mas o reflexo apenas respondeu com aquele seu próprio sorriso, que agora teimava em aparecer-lhe nos lábios.
Entrou no quarto sem fazer barulho e se dirigiu ao berço da filha. Ela dormia. Parecia tranqüila, o que era incomum naquele horário. Logo ela acordaria chorando e ele viria de imediato pegá-la nos braços e segurá-la contra o peito para que ela se acalmasse.
Sobre a cama, a mulher estava deitada com uma camisola prateada que ele havia lhe dado na lua-de-mel. Agachou-se ao seu lado e acariciou de leve o seu rosto com as costas da mão. Ela abriu os olhos devagar, fingindo despertar.
Ele está me traindo. Dói demais, mas é verdade. Meu Deus, o que eu vou fazer agora se ele resolver me deixar? O que vai ser de mim e da minha filha? Coitadinha. Eu o amo tanto, tanto... Mas não, não posso chorar agora. Não quero que ele saiba que eu sei. Pelo menos não por enquanto. Será que eu já estou ficando velha? Estou gorda? Feia? Por que, meu Deus, por que ele está fazendo isso comigo? Toda segunda-feira chega tarde em casa, com esse bafo de uísque. Diz que vai jantar com o irmão, diz que não me convida porque ele é um solteirão que se constrangeria com a minha presença na casa dele, diz que toma banho lá porque sua muito naquele terno, diz que se arruma assim só para mim, para estar bonito para mim quando chega em casa, mas não, eu não sou idiota: com certeza ele tem outra e, qualquer dia desses, eu vou ter uma prova, qualquer dia desses, eu pego ele no pulo e aí não vai ter como negar. Por isso é melhor disfarçar por enquanto...
O beijo foi longo e sôfrego. As mãos dele desapareciam por debaixo da camisola prateada, que poucos minutos mais tarde era atirada para cima e caía num canto do quarto. Mauro gostava de olhá-la nos olhos e fazia força para não piscar. Assistia ao prazer dela como se fosse um show de mágica. Sabia ler no seu rosto todos os sinais do orgasmo vindouro e abria um sorriso escancarado e quase bobo quando finalmente a ouvia dizer:
– Ai, Maurinho... ai...
Outra vez silêncio no quarto. A esposa e a filha dormiam – essa no seu berço, aquela encostada ao seu peito nu – enquanto ele velava ainda, absorvido por algum pensamento distante. O olhar fixo no teto; a respiração se descompassando vez ou outra com um suspiro; um sorriso indefinido nos lábios.
Talvez fosse felicidade. Impossível ter certeza.
O curioso é que mesmo assim, diraiamente recebo visitas.
Ainda estou trabalhando nesse conto aí que ficou inacabado.
Agora ele já mudou de nome e se chama "Se você dança com o Diabo". Mudei muito tudo o que eu tinha escrito nele.
Decidi que não posto mais nada aqui enquanto não for pelo menos semi-definitivo.
Andei dando uma mexida no conto anterior também, o "Insulfilme". Esse não mudou de nome. Esse continua se chamando insulfilme.
Publico a versão 2.0 para o caso de alguém querer ler.
INSULFILME
Segunda-feira, 10 de setembro de 2001.
Sem se despedir dos colegas, ele atravessou o corredor do seu setor com uma expressão esquisita no rosto. Mistura de dor, preocupação e desespero. Nem por isso, chamava a atenção dos outros funcionários: tudo discreto e controlado – Mauro sabia se conter. Talvez por não gostar de dividir seus problemas com ninguém.
Fingiu que assoviava enquanto esperava o elevador e até fez força para olhar as pernas da secretária, convenientemente à mostra sob seu sempiterno sorriso plástico.
O bonitão está olhando para mim de novo... Seus olhos no meu decote são quase uma indecência, quase uma violência, quase um estupro. Será que ele me acha bonita? Será que ele me acha gostosa? Será que de vez em quando ele se masturba pensando em mim? Eu, sim, já fechei os olhos e pensei nele, com essa cara de criança abandonada, que dá até vontade de colocar no colo. Sei que ele é solteiro: não tem aliança no dedo... É estranho. Embora ele me olhe, está sempre com essa cara de sério, parece estar com um olho no peixe, outro no gato.
Com um pequeno arrepio de susto, voltou a si ao ouvir a campainha que indicava que o elevador tinha chegado. Levantou os olhos das volumosas coxas subalternas e cumprimentou, com um sorriso discreto e amarelo, as pessoas que, dali de dentro, olhavam-no e aguardavam que ele entrasse.
Será que esse palhaço vai entrar logo ou não vai. Cara de filhinho-de-papai do caralho. Com certeza é parente de algum figurão. Por isso não tem pressa. Tem todo o tempo do mundo, o babaca.
Entrou e reparou que o botão do subsolo já havia sido apertado, pois estava aceso. Sem saber o que fazer com o indicador já esticado na direção do painel, pressionou-o mesmo assim.
Que inferno, porra, que calor! Não me conformo que esses caras embacem tanto para consertar o maldito ar-condicionado. País tropical é essa merda. E a minha transferência que não sai. Se for depender desses filhos da puta para alguma coisa, está todo mundo fodido. Seria bom se eu fizesse amizade com um engomadinho desses, ou, melhor ainda, se eu descobrisse algum segredo dele. Esses caras sempre têm os seus segredos, sempre tiram por fora um salariozinho que não estava previsto no holerite. Roubam os próprios avós, tios, pais e irmãos. Tudo um bando de ganancioso filho da puta que nunca está satisfeito com a grana que tem. Esse aí, com sua carinha de anjo, duvido que não tenha lá sua continha na Suíça. Queria descobrir um segredinho desses. Uma indiretazinha aqui, outra ali e pronto, os caras me mandavam para Miami para eu parar de encher o saco.
Quando chegou ao seu destino, despediu-se dos companheiros de viagem com um "tchau" murmurado e caminhou apressado para o carro.
Abriu a porta e se arremessou com violência sobre o banco do veículo. Fechou a porta, afrouxou o nó da gravata, respirou fundo umas duas ou três vezes e deu a partida.
Poucos minutos mais tarde, estacionou o carro em frente ao prédio onde morava seu irmão. Tirou do porta-malas uma bolsa preta de academia e caminhou para a entrada do edifício. Tão logo o viu, o porteiro cumprimentou Mauro com um movimento de cabeça e destravou eletronicamente o portão de acesso.
Esses caras não me enganam. Podem até enganar todo mundo, mas eu? Não, senhor, não me enganam. Ha! Deviam saber que eu não nasci ontem, não. Essa história de irmão é só fachada, tenho certeza. Irmão, ha! Desde que eu comecei a trabalhar nesse prédio que o homem vem visitar o “irmão” toda segunda-feira. Sobe sempre com essa bolsa aí, espera o “irmão” chegar, fica um tempão lá em cima com ele e depois desce com outra roupa, de banho tomado. Irmão coisa nenhuma. Isso aí é coisa de baitola, é o que é. Ele deve é levar as rendinhas dentro daquela bolsa lá. Pouca vergonha!
Ele respondeu ao gesto com um aceno semelhante e seguiu em direção ao hall de entrada, enquanto procurava no bolso da calça a chave que tinha da porta da frente.
Como havia imaginado, o irmão ainda não estava em casa. Atravessou a pequena sala de estar, entrou no banheiro, colocou sobre o chão a bolsa preta e trancou a porta.
Depois de ter lavado as mãos e o rosto com a água fria da torneira, ficou algum tempo se olhando no espelho, com a habitual expressão quase perdida de alguém que ou está pensando em algo muito profundo, ou não está pensando em nada.
Livrou-se da gravata, pendurando-a na maçaneta da porta. Fez o mesmo com o paletó e com a camisa. Fechou a tampa da privada e sobre ela colocou a calça dobrada. As meias, a cueca e os sapatos ficaram pelo chão.
Mais uma vez, ficou se olhando no espelho, como que indeciso. Tirou da bolsa preta um pequeno estojo de banheiro e colocou-o encima da pia. Começou pegando nele uma navalha e uma lata com espuma de barbear. Abriu a torneira da esquerda e, enquanto esperava que a água esquentasse, espalhou, o mais homogeneamente que pôde, a espuma sobre a pele do rosto. Depois, segurando a navalha com firmeza, raspou, com movimentos precisos, a barba que crescera desde de manhã.
Tirou do estojo uma pequena pinça metálica e, com a cara quase colada ao seu reflexo no vidro, pôs-se a extrair a indesejada penugem negra que crescia na região intermediária das sobrancelhas. Terminada essa tarefa, procurou na bolsa preta uma diminuta máquina de raspar cabelo e, com ela, passou a aparar os pelos das axilas e da virilha, até que, por fim, se olhou uma última vez no espelho e se sentiu satisfeito. Antes de entrar no box lembrou-se ainda de cortar as unhas, tanto dos pés, quanto das mãos.
Ligou o chuveiro. Tomou um banho igualmente meticuloso e detalhista, ensaboando e enxaguando cada parte do seu corpo com concentração e capricho. Quando acabou, enxugou-se com a toalha limpa que trouxera na bolsa; passou desodorante, loção pós-barba e perfume; vestiu-se com sua melhor calça e com sua camisa mais cara. Arrumou o cabelo com gel.
Depois destrancou a porta e saiu do banheiro.
Deu com o irmão, que acabara de chegar, sentado no sofá:
– Grande Mauro! Tudo bem com você?
Abraçaram-se e trocaram algumas palavras afetuosas. Alguns minutos mais tarde, sentaram-se à mesa e comeram juntos uma lasanha pré-pronta que o irmão de Mauro tinha preparado no microondas.
Depois de conversar um pouco (bem pouco) com ele, Mauro se levantou da mesa, foi até o banheiro, escovou os dentes e reforçou o perfume. Em seguida juntou todos os seus pertences na bolsa preta, balbuciou umas desculpas e abriu a porta para sair.
Virou-se ainda uma última vez e parece que ia dizer alguma coisa, mas o irmão atalhou:
– Já sei, já sei, seu sem-vergonha! Se a tua mulher te ligar, digo que você está tirando um cochilo. Pode deixar. Vê se se cuida, hein, garanhão!
Ele agradeceu sem sorrir e entrou no elevador.
O Maurão não toma jeito mesmo. A filhinha que acabou de nascer e ele sustentando amante fora de casa. É de doer no coração. E o pior de tudo é que eu dou cobertura para ele. Está certo que irmão é irmão e que a gente sempre cuidou um do outro, desde de moleque, mas isso também já está pesando na minha consciência, já está indo longe demais. Daqui a pouco o cara está aí, sustentando duas famílias...
A noite estava esquisita. Fazia frio e havia muita neblina sobre as ruas quase vazias.
Parado em um sinal vermelho, Mauro parecia ansioso. Olhou para os lados, mas tudo que viu foi outros carros, parados também. Havia insulfilme em todos os vidros e ele não podia ver seus interiores. Fosse ali um amigo e Mauro não o poderia reconhecer. Afastariam-se um do outro sem que jamais tomassem conhecimento do encontro casual.
Na avenida, à sua frente, todos os semáforos estavam fechados, como um intransponível mar vermelho. Depois de um tempo viria o milagre. Numa reação em cadeia, eles se abririam, um após o outro, dando passagem, até que a avenida inteira se transformasse numa longa passarela de luzes verdes que desaparecessem no horizonte, como um luminoso convite a seguir adiante.
Ele seguia. Com uma expressão dolorida que devia ser de angústia, como se sofresse a tração oposta de duas forças antagônicas.
Estacionou o carro numa rua escura e seguiu a pé para uma casa de fachada amarela. Tocou a campainha. Um segurança veio abrir-lhe a porta.
– Ô Maurão! Como é que vai, rapaz? Tudo beleza?
Mauro apertou a mão que lhe era oferecida e esticou os braços para o lado, para que o segurança pudesse revistá-lo.
– Que isso, Maurão! Não precisa, não. Você já é de casa...
Entrou.
O Maurão é gente boa. Olha no olho, cumprimenta. Sabe respeitar os outros. E olha que ele tem muita grana. Podia esnobar, podia fazer de conta que eu nem existo, mas não: sempre me olha nos olhos e aperta a minha mão. Podia ficar irritado com a revista, como a maioria desses caras que vem aqui ficam, mas não: levanta os braços para os lados antes mesmo que eu peça. Deve ter muita grana mesmo o cara. Sempre bem vestido, sempre cheirando a perfume importado. Se o chefe descobre que eu deixo ele passar sem revista é bem capaz que eu perca meu emprego. Mas na vida a gente tem que correr riscos para fazer o que é certo. O Maurão é gente boa. Merece a gentileza.
Ao mesmo tempo que chegava aos seus ouvidos uma música antiga e fora de moda, suas narinas se sensibilizavam com o aroma de perfume barato e seus olhos eram simultaneamente investigados por uma dezena de olhares diferentes, indo do mais receptivo possível ao mais agressivo possível, passando por algumas extravagantes combinações de curiosidade e provocação.
Era forte o impacto. Tanto que a cabeça sensível de Mauro girou por um instante e ele deixou-se cair numa poltrona, enquanto fechava os olhos e respirava fundo.
Quando os abriu de novo, viu a gerente da casa parada na sua frente:
– Oi, gostosão! Não cumprimenta mais as amigas?
Ele esperou que ela se inclinasse e beijou-lhe discretamente a face.
– Quer que eu mande as garotas se apresentarem?
Mauro fez que sim com a cabeça e aproveitou para pedir também uma dose de uísque para relaxar um pouco.
Qual será a desse cara, hein? “Me trás uma dose de uísque, por favor”. Pensa que eu sou garçonete? Eu sou a gerente, a gerente! Esses canalhas acham que aqui é tudo puta, que podem me tratar como se eu fosse puta também. Eu nunca fiz programa, nunca. Esse cara também é esquisito. As meninas comentam... mas eu também não me meto: isso é lá com elas que se vendem para estranhos. Se bem que, para falar a verdade, ele é bonitão, bem arrumado, educado, cheiroso... O tipo de cliente que nós – que elas gostam. Mesmo assim, não sei não. Para mim, digam o que disserem, ele é muito esquisito.
Uma a uma, as garotas começaram a vir até sua poltrona. Diziam-lhe seus nomes, beijavam-lhe a face e se afastavam rebolando nas mini-saias. Algumas já o conheciam, outras eram novas na casa.
Lentamente o álcool se espalhava pelo sangue de Mauro e a realidade se diluía numa suave sensação de irresponsabilidade. Passados alguns minutos, ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali e chamou uma das moças novas, que veio sentar-se no seu colo. Ele remexeu-se um pouco na poltrona, incomodado. A jovem percebeu e sorriu:
– Já entendi. Você é dos tímidos.
Levantou-se, pegou uma cadeira de perto do bar e colocou-a ao lado da poltrona de Mauro. Depois segurou a mão dele e afetando uma voz inocente, disse:
– Me conta, meu lindo. O que é que você quer de mim?
Subiram as escadas juntos. Ela, um pouco na frente, ria alto e rebolava. Ele seguia em silêncio. Seu rosto outra vez se tornara taciturno. Estava um pouco tonto por conta do uísque e calculava bem os passos antes de executá-los. Ela parou diante de uma porta e encarou-o com uma expressão vulgar no rosto:
– É aqui, garanhão.
Mauro desviou os olhos, parecendo perturbado. Depois fez um gesto impaciente, estendendo o braço e solicitando que ela entrasse primeiro. Sempre sorrindo e sempre rebolando, ela obedeceu enquanto ele fazia o possível para não olhar para o nauseante vai-e-vem dos seus quadris.
Ele fechou a porta e ficou algum tempo ali parado, os olhos fixos na maçaneta, como se hesitasse ou esperasse por alguma coisa. Quando enfim voltou-se outra vez para o interior do quarto, viu que a garota já estava na cama, completamente nua, o dedo indicador da mão direita descrevendo círculos lentos em torno do mamilo esquerdo.
Sentiu o uísque embrulhar-lhe o estômago e subir-lhe até o que deveria ser, mais ou menos, o meio do esôfago. Teve uma convulsão rápida e levou as costas da mão à boca. Quase vomitou ali mesmo, no chão do quarto.
Ela se levantou da cama.
– Você está se sentindo bem?
Ele respondeu que sim, que estava tudo bem, que era só o uísque que não tinha descido direito. Concluiu pedindo para que, por favor, ela recolocasse as suas roupas.
A jovem, porém, irritou-se com o pedido e começou a falar muito alto que não era culpa dela se ele estava bêbado, que agora ela já tinha subido, que eram normas da casa, que uma vez dentro dos quartos não se aceitavam desistências.
Mauro suspirou fundo. Parou diante dela e segurou-lhe de leve as duas mãos. Disse-lhe que se acalmasse, que não queria desistir de nada, que só estava pedindo para ela vestir as roupas.
A irritação dissipou-se do rosto da moça e ela sorriu enquanto atendia ao pedido dele.
– Já sei. Você quer tirar você mesmo, né, bebezão?
Ele não respondeu. Conduziu-a até a cama e fez com que se sentasse.
Ela o olhava estranhando um pouco aqueles gestos quase formais. Parecia haver desistido de compreendê-lo e agora o encarava com curiosidade, aguardando para ver o que ele faria em seguida.
Mauro conseguiu sorrir para demonstrar sua aprovação. Deu um passo para trás, suspirou de novo e encarou a garota, fixando-a diretamente no rosto com um ar frio e imóvel.
Ela sentiu de imediato o choque da mudança e baixou a cabeça, meio intimidada. Segundos depois, quando reergueu os olhos, encontrou os dele na mesma expressão intensa e inerte.
Um pouco insegura, ela estendeu o braço pra ele e chamou com a voz doce:
– Vem cá, vem...
Nada. Mauro nem se mexeu. Só seu semblante pareceu endurecer ainda mais enquanto as pálpebras se apertavam, revelando pequenas rugas nos cantos.
A jovem corou um pouco, mas deu de ombros em seguida, deitando-se na cama e virando as costas para ele. Ficou assim uns dois minutos e não resistiu mais tempo: virou-se para Mauro e encontrou-o do mesmo jeito. Dessa vez sentiu medo.
Tem algo de errado com esse cara. Tem algo de doente no olho dele. Até me fez lembrar daquelas histórias que ouvi quando comecei a trabalhar. Maníacos que estrangulam meninas dentro dos quartos, ou que sufocam elas com o travesseiro, para depois treparem com os corpos. Sempre achei que era besteira, que era historinha de bicho-papão, mas será? Tanta gente doente nesse mundo... Vai que o cara é brocha mesmo e é revoltado, surtadão. Ai, meu Deus! Ele não tira a mão do bolso. Que será que tem naquele bolso? E se tiver uma arma, ou uma faca? Ai, pelo menos isso não. Isso é impossível. Ai, graças a Deus que tem revista na entrada.
Mauro deu dois passos em direção da cama. Os olhos sempre apertados, a expressão transtornada e decidida. A mão direita no bolso da calça.
Ela encolheu-se um pouco na cama e olhou para o telefone na mesinha de cabeceira. Teve vontade de ligar para baixo e pedir que o segurança subisse. Voltou-se para ele uma última vez e surpreendeu-se com um par de lágrimas, que corriam pequenas e paralelas sobre a pele do seu rosto.
– Que é isso? Você está chorando?
Toda a agressividade tinha se apagado do rosto de Mauro. Seus olhos se desfizeram da dureza anterior para se fixarem inexpressivos no vazio, como se não houvesse nada nem ninguém na sua frente. As lágrimas se repetiam num fluxo contínuo, porém contido. Os lábios tremiam um pouco.
A garota pegou a mão dele e puxou-o brandamente para a cama. Ele não opôs resistência: deixou-se levar com indiferença e deitou-se ao seu lado enquanto ela se punha a acariciar-lhe os cabelos e a dizer-lhe palavras meigas que ele já não podia ouvir.
Começou a soluçar e encolheu-se na cama, a cabeça quase instintivamente buscou o colo dela. Entregava-se aos poucos. Talvez lutasse contra si mesmo. Acabou abraçando as próprias pernas e ficou assim durante muito tempo: em posição fetal, chorando alto no colo da prostituta.
Enquanto destrancava a porta do seu apartamento, Mauro ouviu ruídos no interior. A mulher, com certeza, ainda estava acordada. Antes de entrar, olhou por algum segundos para a aliança no dedo e sorriu.
Recebeu-o em casa um silêncio resoluto. A esposa provavelmente correra para o quarto e agora fingia estar dormindo. Era o castigo que ela lhe impunha toda vez que ele chegava tarde.
A caminho do dormitório, parou diante de um espelho que havia na parede do corredor. Encarou o reflexo no vidro como se lhe perguntasse qualquer coisa, mas o reflexo apenas respondeu com aquele seu próprio sorriso, que agora teimava em aparecer-lhe nos lábios.
Entrou no quarto sem fazer barulho e se dirigiu ao berço da filha. Ela dormia. Parecia tranqüila, o que era incomum naquele horário. Logo ela acordaria chorando e ele viria de imediato pegá-la nos braços e segurá-la contra o peito para que ela se acalmasse.
Sobre a cama, a mulher estava deitada com uma camisola prateada que ele havia lhe dado na lua-de-mel. Agachou-se ao seu lado e acariciou de leve o seu rosto com as costas da mão. Ela abriu os olhos devagar, fingindo despertar.
Ele está me traindo. Dói demais, mas é verdade. Meu Deus, o que eu vou fazer agora se ele resolver me deixar? O que vai ser de mim e da minha filha? Coitadinha. Eu o amo tanto, tanto... Mas não, não posso chorar agora. Não quero que ele saiba que eu sei. Pelo menos não por enquanto. Será que eu já estou ficando velha? Estou gorda? Feia? Por que, meu Deus, por que ele está fazendo isso comigo? Toda segunda-feira chega tarde em casa, com esse bafo de uísque. Diz que vai jantar com o irmão, diz que não me convida porque ele é um solteirão que se constrangeria com a minha presença na casa dele, diz que toma banho lá porque sua muito naquele terno, diz que se arruma assim só para mim, para estar bonito para mim quando chega em casa, mas não, eu não sou idiota: com certeza ele tem outra e, qualquer dia desses, eu vou ter uma prova, qualquer dia desses, eu pego ele no pulo e aí não vai ter como negar. Por isso é melhor disfarçar por enquanto...
O beijo foi longo e sôfrego. As mãos dele desapareciam por debaixo da camisola prateada, que poucos minutos mais tarde era atirada para cima e caía num canto do quarto. Mauro gostava de olhá-la nos olhos e fazia força para não piscar. Assistia ao prazer dela como se fosse um show de mágica. Sabia ler no seu rosto todos os sinais do orgasmo vindouro e abria um sorriso escancarado e quase bobo quando finalmente a ouvia dizer:
– Ai, Maurinho... ai...
Outra vez silêncio no quarto. A esposa e a filha dormiam – essa no seu berço, aquela encostada ao seu peito nu – enquanto ele velava ainda, absorvido por algum pensamento distante. O olhar fixo no teto; a respiração se descompassando vez ou outra com um suspiro; um sorriso indefinido nos lábios.
Talvez fosse felicidade. Impossível ter certeza.

