Se você dança com o Diabo - Capítulo 20
Aposto que aquela vadia deu em cima de você.
Hein?
A puta que te deu o meu e-mail. Aposto que ela ficou jogando charminho para cima de você.
Por que você está dizendo isso?
Ele riu.
Aquela vaca dá em cima de todo mundo. É impressionante. Ela deve ser doente. Na hora H ela tira o corpo fora que eu estou ligado.
Ela dava em cima de você também?
Em mim não porque eu nunca dei trela. Mas dava em cima do Rafael o tempo todo.
Ela dava em cima do Rafael!?
Dava. Por quê?
Engraçado. Para mim ela falou que achava que era ele quem estava apaixonado por ela.
Ele gargalhou.
O Rafael? Ela deve estar mais maluca do que ele! O Rafael é a pessoa mais assexuada que eu já conheci. Só se interessava por matemática. Acho que teve uma namorada antes de se mudar para a capital e foi só. Quanto a essa garota da faculdade, ele mesmo vivia reclamando para mim que ela não largava do pé dele.
Ele atirou a bituca do cigarro pela janela e voltou a fechar o vidro.
Melhor você fechar a sua janela também.
Por quê?
Por causa dos homens.
Que que tem os homens?
Estão me vigiando...
Foi a minha vez de dar risada.
Ninguém está te vigiando.
E o que é que você sabe sobre isso? Está aí todo saidinho só porque deu sorte e conseguiu me desarmar. Aliás, conseguiu me desarmar o caralho. Se a arma fosse de verdade ia ter pedaço do seu cérebro por todo o pára-brisa.
Houve uma pausa.
Sou um bandido perigoso.
Dei risada novamente. Um bandido perigoso com uma arma inofensiva.
Inofensiva!? Você já viu no espelho tamanho da pelota na sua testa!? Além do mais, você sabe quanto custa uma arma de verdade? A venda de narcóticos está em baixa.
Dei risada outra vez.
Então é isso que você é. Um traficantezinho de faculdade. Um Zé-Ninguém preocupado com a polícia. Fica tranqüilo. A polícia está cagando e andando para você.
Você ainda não me perdoou pelo susto, não é mesmo? De qualquer jeito fala baixo. Eles podem estar te ouvindo. Diz aí. O que é que você quer de mim.
Já disse. Quero saber como foi e por que foi que o Rafael enlouqueceu.
Mas isso é muito simples. Vocês doutores não conseguiram descobrir sozinhos, não? Precisaram vir perguntar para o traficantezinho de merda aqui? O Rafael ficou maluco porque estava abusando do doce.
Do doce?
É, cara, do ácido.
Ele tomava ácido?! Você vendia ácido para ele?!
Só do da melhor qualidade.
E você acha que foi por isso que ele ficou louco?
Você é burro ou o quê? Eu não disse que ele enlouqueceu porque tomava ácido. Todo mundo toma ácido. Eu disse que ele surtou porque abusava do ácido. E se ele abusava, isso já não é culpa minha. Cada um tem que cuidar de si. Tem que saber os seus limites. O traficante é um homem de negócios. Não é necessariamente um assassino, mas também não é a mãe de ninguém. O cigarro também mata uma galera e ninguém fecha as porras das fábricas de tabaco. Ninguém enche o saco quando você vai comprar o seu cigarrinho. Se o cara abusa do álcool e atropela alguém, ninguém vai encher o saco do dono do bar. Então também não me venha azucrinar porque um cliente meu abusou do doce e ficou maluco.
Se tem alguém te azucrinando é a sua própria consciência... Eu cago montes para a sua responsabilidade ou ausência dela no enlouquecimento do Rafael. Já disse que meu interesse é científico. Não é moral. E não me venha com essa merda desse discurso ridículo de apologia ao tráfico. Faz uma coisa útil Me explica aí essa história de abusar do ácido.
É simples. Ele começou a comprar cada vez mais. Além disso, estava numa paranóia forte. Vivia me repetindo que tinha descoberto uma coisa. Uma coisa muito foda. Era o que ele dizia. Quando eu perguntava que coisa foda era aquela, ele me dizia que isso, infelizmente, ele não podia me contar. Eu não insistia muito porque já estava desconfiado que aquilo era viagem do doce.
Me diz uma coisa. Ele chegou a comentar com você alguma coisa sobre ir para os Estados Unidos.
Falou, sim. Falou muito, aliás. Mas isso foi antes... Ele apertou os olhos como se fizesse um esforço para se lembrar. É... isso foi bem antes. Ele nem estava tomando doce ainda. Isso não foi viagem. Isso foi coisa séria. O cara parece que estava meio desiludido com as possibilidades acadêmicas daqui. Queria ir para fora para estudar. Prestou uns exames e tal. Conseguiu a vaga. Não conseguiu a grana. Enfim, não deu certo...
Sei. E aí?
Aí ele ficou muito deprimido. É... foi isso mesmo. Foi aí que ele me falou pela primeira fez que estava querendo experimentar coisas novas. A gente já era amigo há algum tempo. Ele sabia que eu vendia droga na faculdade. Mas aquela foi a primeira vez que ele veio falar disso comigo. Disse que estava querendo conhecer melhor o mundo em volta dele. Daí eu sugeri que ele experimentasse o doce.
E ele?
Relutou um pouco no começo. Nem beber direito ele bebia. Acabou experimentando. Ficou fissurado. Na semana seguinte veio falar comigo com os olhinhos brilhando. Disse que queria mais.
E você deu mais para ele?
Dei não que dar a gente só dá a amostra grátis. Sabe como é. A gente tem que confiar no produto. Se o doce é bom, o cliente volta.
E ele voltou.
Voltou. Disse que tinha adorado. Que queria mais. Eu vendi mais para ele. E quanto mais ele ia tomando, mais ele ia querendo. Eu percebi que o cara estava se viciando pesado. Aumentei o preço. Na camaradagem. Para ver se ele se tocava que o negócio estava ficando sério para ele. Mas ele não se tocou. Gastava todo o dinheiro dele com isso. Uma fortuna por semana. Começou a matar aulas na faculdade. Depois veio com aqueles papos esquisitos.
De que tinha descoberto alguma coisa?
Isso mesmo. Tinha descoberto uma coisa foda. Não podia contar para ninguém. A vida dele estava correndo perigo. Tinha uns caras atrás dele. Querendo pegar ele por causa do que ele tinha descoberto. Era uma informação que não tinha preço. Que valia mais que muitas vidas humanas juntas. Enfim, doidera pura.
Comecei a sentir a minha cabeça latejando.
Depois teve outro dia que, como ele não aparecia mais na faculdade, eu fui até a pensão onde ele morava. Para ver se ele queria mais doce. Cheguei lá e a dona da pensão, que já me conhecia, foi dizendo para eu entrar. Que o Rafael estava enfurnado no quarto. Me perguntou se ele estava doente. Já fazia dois dias que ele não saía. Respondi que sim. Que eu estava ali para visitar ele. “Coitadinho”. “Leva isso aqui para ele e vê se ele come”. Subi as escadas com a bandeja na mão. Parei em frente da porta. Chamei. Ele não respondeu. Empurrei a porta com o pé. O Rafael estava sentado na frente de uma mesa. Tinha um ferro de soldar na mão. Estava trabalhando no que parecia ser uma espécie de circuito eletrônico, ou coisa do tipo.
Hein?
A puta que te deu o meu e-mail. Aposto que ela ficou jogando charminho para cima de você.
Por que você está dizendo isso?
Ele riu.
Aquela vaca dá em cima de todo mundo. É impressionante. Ela deve ser doente. Na hora H ela tira o corpo fora que eu estou ligado.
Ela dava em cima de você também?
Em mim não porque eu nunca dei trela. Mas dava em cima do Rafael o tempo todo.
Ela dava em cima do Rafael!?
Dava. Por quê?
Engraçado. Para mim ela falou que achava que era ele quem estava apaixonado por ela.
Ele gargalhou.
O Rafael? Ela deve estar mais maluca do que ele! O Rafael é a pessoa mais assexuada que eu já conheci. Só se interessava por matemática. Acho que teve uma namorada antes de se mudar para a capital e foi só. Quanto a essa garota da faculdade, ele mesmo vivia reclamando para mim que ela não largava do pé dele.
Ele atirou a bituca do cigarro pela janela e voltou a fechar o vidro.
Melhor você fechar a sua janela também.
Por quê?
Por causa dos homens.
Que que tem os homens?
Estão me vigiando...
Foi a minha vez de dar risada.
Ninguém está te vigiando.
E o que é que você sabe sobre isso? Está aí todo saidinho só porque deu sorte e conseguiu me desarmar. Aliás, conseguiu me desarmar o caralho. Se a arma fosse de verdade ia ter pedaço do seu cérebro por todo o pára-brisa.
Houve uma pausa.
Sou um bandido perigoso.
Dei risada novamente. Um bandido perigoso com uma arma inofensiva.
Inofensiva!? Você já viu no espelho tamanho da pelota na sua testa!? Além do mais, você sabe quanto custa uma arma de verdade? A venda de narcóticos está em baixa.
Dei risada outra vez.
Então é isso que você é. Um traficantezinho de faculdade. Um Zé-Ninguém preocupado com a polícia. Fica tranqüilo. A polícia está cagando e andando para você.
Você ainda não me perdoou pelo susto, não é mesmo? De qualquer jeito fala baixo. Eles podem estar te ouvindo. Diz aí. O que é que você quer de mim.
Já disse. Quero saber como foi e por que foi que o Rafael enlouqueceu.
Mas isso é muito simples. Vocês doutores não conseguiram descobrir sozinhos, não? Precisaram vir perguntar para o traficantezinho de merda aqui? O Rafael ficou maluco porque estava abusando do doce.
Do doce?
É, cara, do ácido.
Ele tomava ácido?! Você vendia ácido para ele?!
Só do da melhor qualidade.
E você acha que foi por isso que ele ficou louco?
Você é burro ou o quê? Eu não disse que ele enlouqueceu porque tomava ácido. Todo mundo toma ácido. Eu disse que ele surtou porque abusava do ácido. E se ele abusava, isso já não é culpa minha. Cada um tem que cuidar de si. Tem que saber os seus limites. O traficante é um homem de negócios. Não é necessariamente um assassino, mas também não é a mãe de ninguém. O cigarro também mata uma galera e ninguém fecha as porras das fábricas de tabaco. Ninguém enche o saco quando você vai comprar o seu cigarrinho. Se o cara abusa do álcool e atropela alguém, ninguém vai encher o saco do dono do bar. Então também não me venha azucrinar porque um cliente meu abusou do doce e ficou maluco.
Se tem alguém te azucrinando é a sua própria consciência... Eu cago montes para a sua responsabilidade ou ausência dela no enlouquecimento do Rafael. Já disse que meu interesse é científico. Não é moral. E não me venha com essa merda desse discurso ridículo de apologia ao tráfico. Faz uma coisa útil Me explica aí essa história de abusar do ácido.
É simples. Ele começou a comprar cada vez mais. Além disso, estava numa paranóia forte. Vivia me repetindo que tinha descoberto uma coisa. Uma coisa muito foda. Era o que ele dizia. Quando eu perguntava que coisa foda era aquela, ele me dizia que isso, infelizmente, ele não podia me contar. Eu não insistia muito porque já estava desconfiado que aquilo era viagem do doce.
Me diz uma coisa. Ele chegou a comentar com você alguma coisa sobre ir para os Estados Unidos.
Falou, sim. Falou muito, aliás. Mas isso foi antes... Ele apertou os olhos como se fizesse um esforço para se lembrar. É... isso foi bem antes. Ele nem estava tomando doce ainda. Isso não foi viagem. Isso foi coisa séria. O cara parece que estava meio desiludido com as possibilidades acadêmicas daqui. Queria ir para fora para estudar. Prestou uns exames e tal. Conseguiu a vaga. Não conseguiu a grana. Enfim, não deu certo...
Sei. E aí?
Aí ele ficou muito deprimido. É... foi isso mesmo. Foi aí que ele me falou pela primeira fez que estava querendo experimentar coisas novas. A gente já era amigo há algum tempo. Ele sabia que eu vendia droga na faculdade. Mas aquela foi a primeira vez que ele veio falar disso comigo. Disse que estava querendo conhecer melhor o mundo em volta dele. Daí eu sugeri que ele experimentasse o doce.
E ele?
Relutou um pouco no começo. Nem beber direito ele bebia. Acabou experimentando. Ficou fissurado. Na semana seguinte veio falar comigo com os olhinhos brilhando. Disse que queria mais.
E você deu mais para ele?
Dei não que dar a gente só dá a amostra grátis. Sabe como é. A gente tem que confiar no produto. Se o doce é bom, o cliente volta.
E ele voltou.
Voltou. Disse que tinha adorado. Que queria mais. Eu vendi mais para ele. E quanto mais ele ia tomando, mais ele ia querendo. Eu percebi que o cara estava se viciando pesado. Aumentei o preço. Na camaradagem. Para ver se ele se tocava que o negócio estava ficando sério para ele. Mas ele não se tocou. Gastava todo o dinheiro dele com isso. Uma fortuna por semana. Começou a matar aulas na faculdade. Depois veio com aqueles papos esquisitos.
De que tinha descoberto alguma coisa?
Isso mesmo. Tinha descoberto uma coisa foda. Não podia contar para ninguém. A vida dele estava correndo perigo. Tinha uns caras atrás dele. Querendo pegar ele por causa do que ele tinha descoberto. Era uma informação que não tinha preço. Que valia mais que muitas vidas humanas juntas. Enfim, doidera pura.
Comecei a sentir a minha cabeça latejando.
Depois teve outro dia que, como ele não aparecia mais na faculdade, eu fui até a pensão onde ele morava. Para ver se ele queria mais doce. Cheguei lá e a dona da pensão, que já me conhecia, foi dizendo para eu entrar. Que o Rafael estava enfurnado no quarto. Me perguntou se ele estava doente. Já fazia dois dias que ele não saía. Respondi que sim. Que eu estava ali para visitar ele. “Coitadinho”. “Leva isso aqui para ele e vê se ele come”. Subi as escadas com a bandeja na mão. Parei em frente da porta. Chamei. Ele não respondeu. Empurrei a porta com o pé. O Rafael estava sentado na frente de uma mesa. Tinha um ferro de soldar na mão. Estava trabalhando no que parecia ser uma espécie de circuito eletrônico, ou coisa do tipo.


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