Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
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Quarta-feira, Março 23, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 17

Nunca soube de onde tirei a coragem para ir ao encontro. Não tinha a mínima idéia se aquele cão apenas ladrava ou se também mordia. Latir, pelo menos, latia bem. Eu bem podia agora estar indo encontrar um maluco de verdade. Um psicopata. Nada como os mansos do hospício. Um psicopata. Solto e armado. Provocado pela minha teimosia.
Já não havia preço que fosse alto demais para desvendar o mistério. Tinha a sensação de que tinha nascido para isso. Se Deus existisse, ele teria me criado para descobrir a verdade. Somente a verdade. Nada mais que a verdade.
Você é o cara?
Eu esperava sentado num banco da praça quando ouvi a pergunta atrás de mim. Fiz um gesto para virar a cabeça. A mesma voz interveio num tom imperativo e grave:
Não vira para mim! Levanta! Depois murmurando no meu ouvido: Tenho uma arma apontada para sua coluna, palhaço! Prefere morrer ou ficar paraplégico?
Por correio eletrônico, as ameaças intimidam pouco. Outra coisa é ter uma voz ao ouvido dizendo que você vai morrer e sentir a pressão de uma arma contra o dorso. O medo me dominou. Tive vontade de sair correndo. Correndo o mais rápido que pudesse. Em zigue-zague entre as pessoas. Desaparecer na multidão. Me enfiar na primeira delegacia de polícia que encontrasse. Nunca mais sair de lá. Como deveria ser confortável e segura uma delegacia de polícia. Como seria bom estar numa delas agora. Tomando um café com o seu delegado. Vendo um monte de policiais armados que impediriam que um maluco viesse apontar uma arma para as minhas costas e me dizer que eu ia morrer.
Você está surdo? Porra! Eu disse para você ir andando para frente. Hei! Devagar, devagar. Para que a pressa? Assim é melhor. Vira à direita aqui nesta rua. Vai andando. À esquerda agora.
Ele foi me levando para uma rua deserta. Minhas pernas tremiam. Desespero. Tentava pensar numa maneira de escapar. Não conseguia.
Está vendo aquele carro preto estacionado ali na frente? Aquele filmado. Quero que você abra devagar a porta direita da frente. Depois senta no banco do passageiro e fecha a porta.
Enquanto eu obedecia, o sujeito, por sua vez, entrou pela porta traseira do mesmo lado e se sentou no banco atrás de mim. Agora não tinha mais jeito. Ele ia mesmo me matar. Que estúpido eu tinha sido. Deveria ter tentado fugir quando tinha tido a chance. Se eu tivesse saído correndo no meio da praça era improvável que ele se arriscasse a me assassinar na frente de tantas testemunhas. Meu medo, minha submissão tinham lhe facilitado muito o serviço. Agora podia me matar ali. À queima-roupa. Com um tiro preciso. Sem testemunhas. Agora eu ia morrer. Não podia fazer nada para me salvar. O pensamento se assentou na minha cabeça. Curioso. Senti uma certa tranqüilidade. Uma certa resignação. Afinal, não era um jeito tão ruim para se morrer. Um tiro assim na nuca não deveria nem dar tempo de doer. Talvez não desse nem tempo de eu ouvir o disparo. Desaparecer simplesmente. Como se fosse mágica.
Pode começar a falar, babaca! Quem é você? Por que está atrás de mim?
Fica calmo. Eu já te disse. Sou um estudante...
O caralho! Pensa que eu sou idiota? Pensa que eu vou engolir essa?
Fica calmo, por favor.
Ele apertou o cano da arma contra a minha têmpora esquerda.
Se você me mandar ficar calmo outra vez, prometo que vai ser a última, está me entendendo?
Estou.
Ótimo. Agora me diz. Se você é mesmo uma porra de estudante, por que está no meu pé que nem se fosse a porra da minha mãe? Por que não vai estudar outro caralho de pessoa?
Foi o que eu tentei te explicar nas mensagens que te mandei. Não é você que eu quero estudar. É um amigo seu. Um que enlouqueceu quando fazia faculdade com você. Se chamava Rafael Nasser. Você não se lembra?
Um instante de silêncio.
Sim. Eu me lembro do Rafael.
Novo silêncio.
Mas como foi que você conseguiu o meu e-mail?
Eu expliquei a ele.
Então foi aquela vaca que te deu o meu email?
Foi.
Vaca. Que estúpido que eu sou também. Já devia ter mudado essa porra desse endereço. O foda era avisar todos os clientes.
Enquanto ele se distraía falando consigo mesmo, aproveitei e dei uma espiada no retrovisor. Era um jovem franzino. Na mão esquerda segurava a arma. Apesar de próxima à minha cabeça, nesse momento ela estava apontada para outro lado. Era agora.
Fiz um movimento rápido. Girei o corpo. Agarrei o braço dele. Claro que não deu certo. Não podia nunca ter dado certo com uma arma assim tão perto da minha cabeça. Percebi isso no meio da manobra. Tive vontade de voltar atrás. Já não dava mais tempo.