Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
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Sábado, Março 19, 2005

Se você dança com o Diabo - Capítulo 14

Não pude conter minha surpresa. Nem minha exaltação. Apertei com minhas mãos os ombros dela. Quase gritei:
O quê!?
Um pouco assustada com a explosão, ela balbuciou:
É... foi isso que ele disse... que estava com medo... medo do ataque...
Minha respiração estava ofegante. Ouvia meu coração bater dentro da minha cabeça.
Não é possível, não é possível!
Você está me machucando... Murmurou, cada vez mais assustada.
Desculpa. Mas...! Não! Não é possível! Afinal, de que ataque ele estava falando!?
Foi o que eu também perguntei para ele...
E ele!?
Deu uma gargalhada e começou a gritar: “das torradas! Das torradas!”
Das torradas!?
É... provavelmente ele já estava doidinho. Coitado. Não deve ter sido nada fácil para ele ter sufocado uma paixão durante três anos. Claro – eu acho que sei o que você está pensando – alguns dias depois, quando caiu o World Trade Center, eu fiquei toda arrepiada me lembrando do que o Rafa tinha me dito. Mas só pode ter sido coincidência. Afinal, o que ele podia ter a ver com tudo aquilo?
Cheguei a abrir a boca para responder. Percebi que a pergunta era retórica.
E essa foi a última vez que nós nos falamos. Alguns dias depois fiquei sabendo que ele tinha sido internado.
Longo silêncio. Me esqueci da presença dela e fiquei meditando.
Não. Meditar não é o verbo. Meditar pressupõe calma, tranqüilidade de espírito. E o meu era tomado pelo caos verdadeiro. Medo. Excitação. Angústia. Rafael tinha deixado para mim um caminho obscuro de pistas difíceis. Segui-las era como seguir os seus próprios passos. Era como percorrer o mesmo caminho.
A verdade não poderia estar longe agora. Eu sentia seu cheiro nos cabelos da garota. Ouvia seu murmúrio vindo de dentro das minhas próprias entranhas. Não. A verdade não estava longe. Como seria ela? Poderia eu suportá-la? Quão absurda e irracional ela pareceria? Poderia eu acreditar nela? Convencer-me dela? Convencê-los dela?
Tem mais alguma coisa que você queira me perguntar?
Tem sim. Eu estava pensando... Será que tem algum jeito de eu entrar em contato com esse outro amigo do Rafael? Esse que você disse que tinha cara de marginal...
Eu acho que tenho o e-mail dele em algum lugar. Quer que eu te mande?
Por favor.
Eu mando.
Breve silêncio.
E então?
Então o quê?
O que você acha?
O que eu acho do quê?
Ela riu.
Ih... mas você é distraidinho que nem o Rafa.
Ficou um instante me olhando nos olhos.
Você não acha que eu estou certa? Você não acha que ele enlouqueceu por minha causa?
Sorri.
Tenho certeza que sim.