"O Alienado" Conto em folhetim. 4ª Parte.
Rafael tinha sido internado no dia onze de setembro de 2001. Apenas mais um dia, como qualquer outro para enlouquecer. Mesmo assim, era curioso. Nova York ficava muito longe. O Brasil nada tinha a ver com aquilo. A probabilidade era muito pequena. Sempre acreditei que uma coincidência é apenas uma coincidência até que se prove o contrário; o que não quer de modo algum dizer que esse mesmo contrário nunca possa ser provado.
Na segunda visita que fiz ao meu paciente, repetiu-se aquele nosso excêntrico cumprimento seguido de seu estado de apatia irreversível. Desta vez tirei da minha pasta um saco plástico com algumas fotografias que tinha recortado de jornais e revistas. Sentei-me ao lado dele, na cama, e, sob o olhar curioso do diretor, pus-me a mostrar as imagens para o interno. Comecei com fotos neutras de paisagens, pessoas, animais, objetos que tinham o duplo objetivo de servir como placebo na experiência e esconder meu verdadeiro intento dos olhos supervisores do diretor.
Quando percebi que esse já não prestava atenção, meti a mão mais fundo no saco e passei a tirar dele fotos do atentado ao World Trade Center. Mostrava-as com insistência para Rafael, mas seu estado não se alterava em nada. Olhava-as sem interesse por poucos segundos para logo em seguida voltar a babar repetindo sua frase única.
Aos poucos fui perdendo minhas esperanças, embora ainda insistisse com algumas fotografias, que já não mostravam o atentado em si, mas eventos relacionados a ele, como a invasão do Afeganistão e a guerra do Iraque.
Diante de uma delas, Rafael despertou. Depois de um breve instante de contemplação da imagem, explodiu em uma reação furiosa. Soltou um urro e golpeou-me no rosto com muita força, levando-me ao chão. Subiu na cama e pôs-se a berrar coisas ininteligíveis. As lágrimas corriam pelo seu rosto. O diretor correu para fora e chamou um funcionário. Esse, ao tentar aproximar-se de Rafael, levou um violento chute no rosto e foi nocauteado. O rapaz acabou imobilizado por dois outros funcionários que o seguraram enquanto um terceiro injetou-lhe na veia um sonífero poderoso.
Muito agitado, o diretor aproximou-se de mim na enfermaria enquanto cuidavam do sangramento do meu nariz.
– Mas, afinal de contas, o que foi que você mostrou para ele?
Estendi a mão direita e a abri. Apareceu, toda amarrotada, a foto de uma cachoeira, com alguns turistas brincando na água. O diretor olhou para ela e depois para mim, sem entender.
– Eu não... eu não percebo...
Ergui os ombros. Depois gemi mais alto quando a enfermeira encostou o algodão no meu nariz, para que ele entendesse que eu estava mais preocupado com o soco que levara no rosto. Contrariado, ele tentou disfarçar seu embaraço.
– E... você está bem? Não se machucou muito? Eu lamento... Ele nunca se comportou assim antes...
Quando entrei no carro, examinei meu próprio rosto no retrovisor. Estava inchado. Rafael tinha feito um bom estrago. Tirei do bolso a foto que escondera. Era uma imagem da guerra do Iraque. Numa sala pequena e escura, dois rebeldes torturavam com fios elétricos um soldado americano capturado. Guardei a fotografia e dei a partida no carro. Era hora de mudar de frente.
Na segunda visita que fiz ao meu paciente, repetiu-se aquele nosso excêntrico cumprimento seguido de seu estado de apatia irreversível. Desta vez tirei da minha pasta um saco plástico com algumas fotografias que tinha recortado de jornais e revistas. Sentei-me ao lado dele, na cama, e, sob o olhar curioso do diretor, pus-me a mostrar as imagens para o interno. Comecei com fotos neutras de paisagens, pessoas, animais, objetos que tinham o duplo objetivo de servir como placebo na experiência e esconder meu verdadeiro intento dos olhos supervisores do diretor.
Quando percebi que esse já não prestava atenção, meti a mão mais fundo no saco e passei a tirar dele fotos do atentado ao World Trade Center. Mostrava-as com insistência para Rafael, mas seu estado não se alterava em nada. Olhava-as sem interesse por poucos segundos para logo em seguida voltar a babar repetindo sua frase única.
Aos poucos fui perdendo minhas esperanças, embora ainda insistisse com algumas fotografias, que já não mostravam o atentado em si, mas eventos relacionados a ele, como a invasão do Afeganistão e a guerra do Iraque.
Diante de uma delas, Rafael despertou. Depois de um breve instante de contemplação da imagem, explodiu em uma reação furiosa. Soltou um urro e golpeou-me no rosto com muita força, levando-me ao chão. Subiu na cama e pôs-se a berrar coisas ininteligíveis. As lágrimas corriam pelo seu rosto. O diretor correu para fora e chamou um funcionário. Esse, ao tentar aproximar-se de Rafael, levou um violento chute no rosto e foi nocauteado. O rapaz acabou imobilizado por dois outros funcionários que o seguraram enquanto um terceiro injetou-lhe na veia um sonífero poderoso.
Muito agitado, o diretor aproximou-se de mim na enfermaria enquanto cuidavam do sangramento do meu nariz.
– Mas, afinal de contas, o que foi que você mostrou para ele?
Estendi a mão direita e a abri. Apareceu, toda amarrotada, a foto de uma cachoeira, com alguns turistas brincando na água. O diretor olhou para ela e depois para mim, sem entender.
– Eu não... eu não percebo...
Ergui os ombros. Depois gemi mais alto quando a enfermeira encostou o algodão no meu nariz, para que ele entendesse que eu estava mais preocupado com o soco que levara no rosto. Contrariado, ele tentou disfarçar seu embaraço.
– E... você está bem? Não se machucou muito? Eu lamento... Ele nunca se comportou assim antes...
Quando entrei no carro, examinei meu próprio rosto no retrovisor. Estava inchado. Rafael tinha feito um bom estrago. Tirei do bolso a foto que escondera. Era uma imagem da guerra do Iraque. Numa sala pequena e escura, dois rebeldes torturavam com fios elétricos um soldado americano capturado. Guardei a fotografia e dei a partida no carro. Era hora de mudar de frente.

