Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
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Domingo, Novembro 21, 2004

"O Alienado" Conto em folhetim. 4ª Parte.

Rafael tinha sido internado no dia onze de setembro de 2001. Apenas mais um dia, como qualquer outro para enlouquecer. Mesmo assim, era curioso. Nova York ficava muito longe. O Brasil nada tinha a ver com aquilo. A probabilidade era muito pequena. Sempre acreditei que uma coincidência é apenas uma coincidência até que se prove o contrário; o que não quer de modo algum dizer que esse mesmo contrário nunca possa ser provado.
Na segunda visita que fiz ao meu paciente, repetiu-se aquele nosso excêntrico cumprimento seguido de seu estado de apatia irreversível. Desta vez tirei da minha pasta um saco plástico com algumas fotografias que tinha recortado de jornais e revistas. Sentei-me ao lado dele, na cama, e, sob o olhar curioso do diretor, pus-me a mostrar as imagens para o interno. Comecei com fotos neutras de paisagens, pessoas, animais, objetos que tinham o duplo objetivo de servir como placebo na experiência e esconder meu verdadeiro intento dos olhos supervisores do diretor.
Quando percebi que esse já não prestava atenção, meti a mão mais fundo no saco e passei a tirar dele fotos do atentado ao World Trade Center. Mostrava-as com insistência para Rafael, mas seu estado não se alterava em nada. Olhava-as sem interesse por poucos segundos para logo em seguida voltar a babar repetindo sua frase única.
Aos poucos fui perdendo minhas esperanças, embora ainda insistisse com algumas fotografias, que já não mostravam o atentado em si, mas eventos relacionados a ele, como a invasão do Afeganistão e a guerra do Iraque.
Diante de uma delas, Rafael despertou. Depois de um breve instante de contemplação da imagem, explodiu em uma reação furiosa. Soltou um urro e golpeou-me no rosto com muita força, levando-me ao chão. Subiu na cama e pôs-se a berrar coisas ininteligíveis. As lágrimas corriam pelo seu rosto. O diretor correu para fora e chamou um funcionário. Esse, ao tentar aproximar-se de Rafael, levou um violento chute no rosto e foi nocauteado. O rapaz acabou imobilizado por dois outros funcionários que o seguraram enquanto um terceiro injetou-lhe na veia um sonífero poderoso.
Muito agitado, o diretor aproximou-se de mim na enfermaria enquanto cuidavam do sangramento do meu nariz.
– Mas, afinal de contas, o que foi que você mostrou para ele?
Estendi a mão direita e a abri. Apareceu, toda amarrotada, a foto de uma cachoeira, com alguns turistas brincando na água. O diretor olhou para ela e depois para mim, sem entender.
– Eu não... eu não percebo...
Ergui os ombros. Depois gemi mais alto quando a enfermeira encostou o algodão no meu nariz, para que ele entendesse que eu estava mais preocupado com o soco que levara no rosto. Contrariado, ele tentou disfarçar seu embaraço.
– E... você está bem? Não se machucou muito? Eu lamento... Ele nunca se comportou assim antes...
Quando entrei no carro, examinei meu próprio rosto no retrovisor. Estava inchado. Rafael tinha feito um bom estrago. Tirei do bolso a foto que escondera. Era uma imagem da guerra do Iraque. Numa sala pequena e escura, dois rebeldes torturavam com fios elétricos um soldado americano capturado. Guardei a fotografia e dei a partida no carro. Era hora de mudar de frente.

Segunda-feira, Novembro 08, 2004

O alienado - parte 3

Diante da minha insistência, o professor acabou cedendo. Ficou acertado que eu voltaria sozinho ao hospício dentro de alguns dias para começar meus estudos.
Nesse meio tempo, reuni e revisei o material teórico que podia ser útil na minha pesquisa. Estudei com ênfase especial os textos que tratavam de casos de alienação parecidos ao daquele rapaz. Convenci-me de que o mais provável no caso dele era que tivesse ficado daquele jeito por causa de algum trauma psicológico, algum evento intenso, agudo e bem situado no tempo.
Quando voltei pela primeira vez ao sanatório, estava bastante confiante. É possível que estivesse, sobretudo, excitado com a situação, com a ligeira sensação de poder que ela me transmitia.
O diretor recebeu-me bem humorado, ainda que não fizesse o mínimo esforço para tentar esconder seu desprezo. Em seus olhos e em seu sorriso bem calculado, apenas uma mensagem discreta e polida: eu estava perdendo meu tempo.
Um funcionário foi verificar se o paciente já estava acordado e em condições de receber minha primeira visita. O diretor me entregou a ficha do doente e pôs-se a falar dele, enquanto caminhávamos pelo corredor escuro:
– O Te enganei é um dos internos mais mansos. Está aqui já tem uns três anos e nunca tivemos problemas com ele, a não ser no começo quando a gente ainda servia café da manhã para ele. Não sei o que ele tem contra o café da manhã, mas era só o funcionário entrar com a bandeja que ele ficava na hora muito agitado, berrava e se debatia até que tirassem a comida da frente dele. Depois a gente simplesmente parou de servir o café da manhã para ele e nunca mais tivemos nenhum tipo de problema. Ele gosta de brincar, como fez com você naquele dia, mas nunca faz mal a uma mosca. Parece que era um bom rapaz. É uma pena que tenha ficado assim, idiota. Os médicos nunca entenderam direito o que foi que aconteceu com ele, mas ele é desses lunáticos que perderam quase que completamente o contato com a realidade. Vive no mundinho dele, como se diz. Desde que chegou aqui nunca falou uma palavra que não fosse aquele te enganei de sempre. Uma pena mesmo. Ouvi dizer que era um rapaz inteligente, fazia até faculdade, engenharia, parece... Chegamos. O quarto dele é esse aqui.
Antes de entrar, enquanto o diretor trocava algumas palavras com o funcionário que acabara de sair do quarto, aproveitei para percorrer com os olhos a ficha do meu interno. Chamava-se Rafael Nasser e tinha vinte e três anos. Era tudo que o papel informava a seu respeito, além de alguns dados médicos como tipo sangüíneo, altura, peso. Grampeado à ficha estava o pedido de internação, assinado por um psiquiatra, pelo diretor e por um parente responsável, que no caso de Rafael era uma sua tia. Devia ser seu parente mais próximo e o endereço para contato de que constava a ficha era de uma cidade pequena, no interior do estado. Já o psiquiatra que assinara o pedido não era outro se não o próprio professor que havia organizado a primeira visita.
Assim que entrei no quarto, Rafael olhou para mim e tive a impressão de que ele havia me reconhecido. Pôs-se de pé sobre a cama, batendo palmas, os olhos radiantes, uma expressão de felicidade intensa no rosto:
– Te enganei!
Sorri para ele e perguntei-lhe se se lembrava de mim.
Como resposta, o rapaz desceu da cama, parou um segundo na minha frente, prendeu, como outrora, meu nariz entre seus dedos e pôs-se a balançá-lo para lá e para cá, soltando gargalhadas e babando de alegria.
– Te enganei!
Sem saber o que fazer em princípio, acabei, eu também, segurando-lhe o nariz e balançando-o de maneira idêntica. Redobraram-se suas gargalhadas. Não me lembro de ter nunca lido em nenhum manual de psiquiatria que se devesse imitar o comportamento de um doente. Mas, ali, no improviso, foi a única coisa que me ocorreu, como uma espécie de impulso comunicativo, que, bem ou mal, parecia ter surtido algum efeito.
Um instante depois, já farto daquilo, o rapaz me soltou e voltou a se sentar na cama. Os olhos fixaram-se no vazio e ele começou a se balançar suavemente para frente e para trás, murmurando seu estribilho transformado em espécie de mantra.
– Te enganei... te enganei... te enganei...
Durante mais de uma hora, eu tentei restabelecer contato com ele. Esforço inútil. Parecia que ele não estava mais ali, que se escondera em algum lugar profundo, dentro de si mesmo. Chamei-lhe pelo nome e pelo apelido, toquei-lhe algumas vezes o ombro ou a face, falei com ele. Foi em vão. Nada parecia capaz de trazê-lo de volta naquele momento.
Do canto do quarto onde estava, o diretor observava a cena. Parecia satisfeito.
– Eu bem que te avisei, meu jovem. O Te enganei é sempre assim. Você nunca vai conseguir tirar nada dele.
Desanimado, deixei meu corpo cair numa cadeira que havia no quarto e pus-me a examinar a ficha de Rafael. O diretor tagarelava sobre o tempo que ele mesmo havia perdido em tentativas semelhantes de conversar com o paciente. Nesse instante, um dado curioso chamou minha atenção. É provável que minha surpresa tenha se manifestado no meu rosto, pois o diretor pareceu percebê-la:
– Alguma coisa errada?
Não sei muito bem por que, menti e respondi que não era nada. Ele me olhou desconfiado. Seu rosto nublou-se por um momento. Depois ele sorriu outra vez e disse, abrindo a porta do quarto:
– Venha. Não adianta você insistir mais tempo hoje.
Obedeci. Deixamos o quarto e ele me acompanhou até meu carro.
[continua]