Atentado

A arte como terrorismo


Destruir as casas com cimento e aço;
construir, com canhões de guerra, o espaço
e tudo transformar com pacifismo terrorista.
aprendiz de terrorista. Quando era criança, explodia formigueiros. Agora trata de explodir a realidade nos seus textos. Nas horas vagas, gosta de desconstruir as coisas. não fala sobre nada.
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Quinta-feira, Outubro 28, 2004

"O alienado" - Conto em fohetim. (2ª Parte)

O ambiente era um tanto sombrio. Havia pouca luminosidade e no ar um certo cheiro de abandono. Recebeu-nos um senhor de idade que se apresentou como o diretor da casa. Parecia conhecer muito bem o professor, pois se tratavam com intimidade bastante informal. Contou-nos em poucas palavras a história do sanatório e, em seguida, passou a nos conduzir por volta do hospício como se visitássemos algum museu, ou atração turística de outro tipo, apontando-nos onde eram os quartos dos pacientes; onde ficava o refeitório; onde estavam os chuveiros e, por fim, fez com que o seguíssemos por uma porta que se abria para um amplo pátio dos fundos, espécie de espaçoso quintal, no qual os doentes mansos tomavam todos os dias seu banho de sol.
Lá estavam eles no momento em que saímos pela porta, mas poucos se deram conta da nossa presença. Muitos permaneciam apenas sentados, imóveis, os olhos cravados no vazio. Outros balançavam o tronco ritimadamente para frente e para trás, emitindo grunhidos ininteligíveis. Alguns deles se voltaram para nós quando ganhamos o pátio e nos olhavam, ao mesmo tempo, com curiosidade e timidez.
Paramos um pouco para observá-los e o diretor começou a falar da rotina dos internos, dos horários das refeições, dos banhos de sol. Estávamos todos de pé, sobre o gramado, dispostos em semicírculo ao redor dele. Seu discurso começava a se tornar maçante e as nossas atenções se dispersavam quase involuntariamente.
Senti o peso de uma mão sobre meu ombro esquerdo e estremeci. Virei-me devagar e dei com um dos pacientes bem na minha frente. Era jovem, como eu, devia ter mais ou menos a minha idade; vestia uma espécie de roupão de tecido leve e claro, comum a todos os internos da instituição; era muito magro e um pouco curvado; tinha os cabelos escuros e lisos. A não ser por um sério problema de acne que enchia a pele do seu rosto de marcas vermelhas e pela postura, tinha um aspecto geral agradável. A expressão era amigável, os olhos eram vivos e perscrutadores, o sorriso parecia ingênuo.
Apenas eu havia terminado de me virar para ele, o interno prendeu meu nariz entre os dedos médio e indicador da sua mão direita e pôs-se a balançar meu rosto de um lado para outro, soltando uma gargalhada infantil enquanto cantarolava:
– Te enganei! Te enganei!
Quase entrei em pânico. Meus colegas desataram a rir sem a menor piedade diante da cena. O diretor aproximou-se de mim com um sorriso de desprezo nos lábios e disse, voltando-se para o doente:
– Solta o nariz do moço, Te enganei.
O rapaz obedeceu de pronto e, depois de apertar as bochechas do diretor e de repetir ainda mais uma vez aquele seu refrão, afastou-se de nós correndo e foi sentar-se no gramado, ao lado de outro paciente cujas orelhas pôs-se a balançar com seus indicadores enquanto cantarolava sempre:
– Te enganei! Te enganei!
Foi assim que ele me escolheu.
Foi assim que, ao final da nossa visita daquele dia, quando chegou o momento de escolhermos o nosso objeto de estudo, eu acabei perguntando simultaneamente ao professor e ao diretor se eu poderia estudar o caso dele.
– Parece então que, apesar do susto, o Te enganei conseguiu conquistar a sua simpatia? – Disse-me o diretor, sorrindo com benevolência. – Por mim, não vejo problemas, mas já lhe adianto que não há muito o que se estudar no caso dele. É apenas um pobre diabo lunático que só fica repetindo aquilo o dia todo. Já tentei conversar com ele algumas vezes, mas parece que ele não sabe mesmo dizer outra coisa.
– Talvez você devesse escolher outro paciente mais acessível. – Sugeriu-me o professor.
Mas havia algo no olhar daquele rapaz que tinha despertado a minha curiosidade. Um brilho escondido de inteligência, de sensibilidade por trás da idiotia aparente. Talvez eu não estivesse pronto ainda, naquela altura, para admiti-lo, mas eu tinha a sutil impressão de que ele tinha se aproximado de mim naquele dia porque queria me dizer alguma coisa.
[continua na próxima semana]

Segunda-feira, Outubro 18, 2004

Conto em Folhetim - "O alienado" - Primeira parte.

Escondida num canto remoto da cidade, a casa era quase uma ruína.
Conferi duas vezes o endereço, que trazia anotado num pedaço de papel, antes de, por fim, convencer-me de que era ali mesmo. Estacionei o carro e caminhei até o portão de acesso. Era um velho portão de metal, cujas grades estavam muito enferrujadas. Um homem moreno de bigode, que parecia ser o porteiro, olhava-me com uma expressão interrogativa à medida que me aproximava. Quando enfim ficou claro que era para lá mesmo que eu me dirigia, ele me desejou um bom dia e me perguntou se eu pretendia visitar alguém.
– Não, senhor. Sou do grupo de estudantes. Não sei se o senhor está sabendo...
Estava. Pediu desculpas pela distração e, enquanto destrancava o portão, informou-me que eu era o primeiro a chegar.
Era um velho casarão do começo do século passado. Seu último dono tinha sido um poderoso barão do café, grande proprietário de terras, que o comprara para passar ali, eventualmente, alguns dias na cidade.
O barão, porém, morrera de repente, sem deixar herdeiros. Não tinha filhos, esposa, sobrinhos, irmãos, nada. Nenhum parente próximo ou distante, de maneira que todas as suas propriedades, inclusive a casa, foram parar nas mãos do governo do estado.
Em princípio, fora decidido que a mansão seria vendida em leilão e que o capital arrecadado seria convertido em obras de embelezamento da cidade. No entanto, graças à influência de um político local, que, além de parlamentar, era alienista, resolveu-se de última hora que a casa seria antes transformada em sanatório para enfermidades mentais.
Cem anos depois, naquela manhã de domingo, era possível ver na fachada, como no rosto de uma velha senhora, todas as marcas da passagem do tempo, fosse pelo estado lastimável da pintura, fosse pelo mato que tomara conta do que um dia, se imaginava, havia sido o jardim. A estátua do alienista, porém, ainda estava lá, no pátio da frente. Era uma grande estátua de bronze, que retratava o fundador do hospício com a mão direita erguida, como pronto para tomar a palavra e proferir seu discurso sobre a necessidade do sanatório. Mas até mesmo o olhar austero do doutor parecia ceder à passagem do tempo e, ano após ano, a estátua ia se enferrujando e perdendo o viço.
Acendi um cigarro enquanto esperava. Eu estava ali para uma espécie de excursão; uma visita opcional, organizada por um professor da faculdade para os alunos interessados em estudar de perto, sob sua orientação, pacientes reais, vítimas de insanidade mental. Em outras palavras, teríamos a possibilidade de escolher um determinado interno e analisar o seu caso com o auxílio do mestre.
Esse chegou logo em seguida. Cumprimentou-me com um ar de mau-humor matinal e pôs-se a esperar em silêncio que os demais alunos aparecessem. Eles não tardaram muito e, minutos mais tarde, entrávamos todos no corredor principal do hospício.
[Continua daqui a uma semana]

Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Moléstias

Câncer (ou “Putrefação pré-mortem”)

Num beco escuro da carne,
num canto escondido do corpo,
num tecido esquecido do tato:
células que guardam um segredo.



H.I.V (ou “A virtude Moderna”)

A morte do pecado é compensada
pelo diabo que se esconde no teu sexo.



Alzheimer (ou “A crítica da razão pura”)

Não há nada de positivo
e o homem rejeita o fato.

A razão se desintegra;
a memória se esvazia;
o raciocínio se desarticula.

Cansado de não ver,
o homem fecha o olho,
no escuro.



Ebola

Morrer depressa...
Desfazer-se, de repente.
Como uma multidão que se dispersa
sob a chuva fina da manhã.

Desmanchar-se como papel
no chão molhado da avenida.
Os órgãos liquefeitos
numa oferenda para o asfalto.

Morrer depressa, como um óvulo
envelhecido e arrependido
que se redime finalmente no expurgo
de uma menstruação tardia.



Tuberculose

Saiu de moda com o final do romantismo.

Insulfilme

Segunda-feira, 10 de setembro de 2001.
Sem se despedir dos colegas, ele atravessou o corredor do seu setor com uma expressão esquisita no rosto. Mistura de dor, preocupação e desespero. Mas, nem por isso, chamava a atenção dos outros funcionários: tudo discreto e controlado – Mauro sabia se conter. Não gostava de dividir seus problemas com ninguém.
Fingiu que assoviava enquanto esperava o elevador e até fez força para olhar as pernas da secretária, convenientemente à mostra sob seu sempiterno sorriso plástico.
O bonitão está olhando para mim de novo... Seus olhos no meu decote são quase uma indecência, quase uma violência, quase um estupro. Será que ele me acha bonita? Será que ele me acha gostosa? Será que de vez em quando ele se masturba pensando em mim? Eu, sim, já fechei os olhos e pensei nele, com essa cara de criança abandonada, que dá até vontade de colocar ele no colo. Sei que ele é solteiro: não tem aliança no dedo... É estranho. Embora ele me olhe, está sempre com essa cara de sério, parece estar sempre com um olho no peixe, outro no gato.
Com um pequeno arrepio de susto, voltou a si ao ouvir a campainha que indicava que o elevador tinha chegado. Levantou os olhos das volumosas coxas subalternas e cumprimentou, com um sorriso discreto e amarelo, as pessoas que, dali de dentro, olhavam para ele e aguardavam que ele entrasse.
Será que esse palhaço vai entrar logo ou não vai. Cara de filhinho-de-papai do caralho. Com certeza é parente de algum figurão. Por isso não tem pressa. Tem todo o tempo do mundo, o babaca.
Entrou e reparou que o botão do subsolo já havia sido apertado, pois estava aceso. No entanto, sem saber o que fazer com o indicador já esticado na direção do painel, pressionou-o mesmo assim.
Que inferno, porra, que calor! Não me conformo que esses caras embacem tanto para consertar o maldito ar-condicionado. País tropical é essa merda. E a minha transferência que não sai. Se for depender desses filhos da puta para alguma coisa, está todo mundo fudido. Seria bom se eu fizesse amizade com um engomadinho desses, ou, melhor ainda, se eu descobrisse algum segredo dele. Esses caras sempre têm os seus segredos, sempre tiram por fora um salarariozinho que não estava previsto no holerite. Roubam os próprios avós, tios, pais e irmãos. Tudo um bando de ganancioso filho da puta que nunca está satisfeito com a grana que tem. Esse aí, com sua carinha de anjo, duvido que não tenha lá sua continha na Suíça. Queria descobrir um segredinho desses. Uma indiretazinha aqui, outra ali e pronto, os caras me mandavam para Miami para eu parar de encher o saco.
Quando chegou ao seu destino, despediu-se dos companheiros de viagem com um "tchau" murmurado e caminhou apressado para o carro.
Abriu a porta e se arremessou com raiva sobre o banco do veículo. Fechou a porta, afrouxou o nó da gravata, respirou fundo umas duas ou três vezes e deu a partida.
Poucos minutos mais tarde, estacionou o carro em frente ao prédio onde morava seu irmão. Tirou do porta-malas uma bolsa de academia preta e caminhou para a entrada do edifício. Tão logo o viu, o porteiro cumprimentou Mauro com um movimento de cabeça e destravou eletronicamente o portão de acesso.
Esses caras não me enganam. Podem até enganar todo mundo, mas eu? Não, senhor, não me enganam. Ha! Deviam saber que eu não nasci ontem, não. Essa história de irmão é só fachada, tenho certeza. Irmão, ha! Desde que eu comecei a trabalhar nesse prédio que o homem vem visitar o “irmão” toda segunda-feira. Sobe sempre com essa bolsa aí, espera o “irmão” chegar, fica um tempão lá em cima com ele e depois desce com outra roupa, de banho tomado. Irmão coisa nenhuma. Isso aí é coisa de baitola, é o que é. Ele deve é levar as rendinhas dentro daquela bolsa lá. Pouca vergonha!
Ele respondeu ao gesto com um aceno semelhante e seguiu em direção ao hall de entrada, enquanto procurava no bolso da calça a chave que tinha da porta da frente.
Como havia imaginado, o irmão ainda não estava em casa. Atravessou a pequena sala de estar, entrou no banheiro, colocou sobre o chão a bolsa preta e trancou a porta.
Depois de ter lavado as mãos e o rosto com a água fria da torneira, ficou algum tempo se olhando no espelho, com a habitual expressão quase perdida de alguém que ou está pensando em algo muito profundo, ou não está pensando em nada.
Livrou-se, por fim, da gravata, pendurando-a na maçaneta da porta. Em seguida fez o mesmo com o paletó e com a camisa. Fechou a tampa da privada e sobre ela colocou a calça dobrada. As meias, a cueca e os sapatos ficaram pelo chão.
Mais uma vez, ficou se olhando no espelho, como que indeciso. Tirou da bolsa preta um pequeno estojo de banheiro e colocou-o encima da pia. Começou pegando nele uma navalha e uma lata com espuma de barbear. Abriu a torneira da esquerda e, enquanto esperava que a água esquentasse, espalhou, o mais homogeneamente que pôde, a espuma sobre a pele do rosto, Depois, segurando a navalha com firmeza, raspou, com movimentos precisos, a barba que crescera desde de manhã.
Em seguida, tirou do estojo uma pequena pinça metálica e, com a cara quase colada ao seu reflexo no vidro, pôs-se a extrair a indesejada penugem negra que crescia na região intermediária das sobrancelhas. Terminada essa tarefa, procurou na bolsa preta uma diminuta máquina de raspar cabelo e, com ela, passou a aparar os pelos das axilas e da virilha, até que, por fim, se olhou uma última vez no espelho e se sentiu satisfeito. Antes de entrar no box lembrou-se ainda de cortar as unhas, tanto dos pés, quanto das mãos.
Ligou o chuveiro. Tomou um banho igualmente meticuloso e detalhista, ensaboando e enxaguando cada parte do seu corpo com concentração e capricho. Quando acabou, enxugou-se com a toalha limpa que trouxera na bolsa; passou desodorante, loção pós-barba e perfume; vestiu-se com sua melhor calça e com sua camisa mais cara. Arrumou o cabelo com gel.
Depois destrancou a porta e saiu do banheiro.
Deu com o irmão, que acabara de chegar, sentado no sofá:
– Grande Mauro! Tudo bem com você?
Abraçaram-se e trocaram algumas palavras afetuosas. Alguns minutos mais tarde, sentaram-se à mesa e comeram juntos uma lasanha pré-pronta que o irmão de Mauro tinha preparado no microondas.
Depois de conversar um pouco (bem pouco) com ele, Mauro se levantou da mesa, foi até o banheiro, escovou os dentes e reforçou o perfume. Em seguida juntou todos os seus pertences na bolsa preta, balbuciou umas desculpas e abriu a porta para sair.
Virou-se ainda uma última vez e parece que ia dizer alguma coisa, mas o irmão atalhou:
– Já sei, já sei, seu sem-vergonha! Se a tua mulher te ligar, digo que você está tirando um cochilo. Pode deixar. Vê se se cuida, hein, garanhão!
Ele agradeceu sem sorrir e entrou no elevador.
O Maurão não toma jeito mesmo. A filhinha que acabou de nascer e ele sustentando amante fora de casa. É de doer no coração. E o pior de tudo é que eu dou cobertura para ele. Está certo que irmão é irmão e que a gente sempre cuidou um do outro, desde de moleque, mas isso também já está pesando na minha consciência, já está indo longe demais. Daqui a pouco o cara está aí, sustentando duas famílias...
A noite estava esquisita. Fazia frio e havia muita neblina sobre as ruas quase vazias.
Parado em um sinal vermelho, Mauro estava ansioso. Seu olhar estendido pela avenida a sua frente, com seus semáforos todos fechados como um intransponível mar vermelho.
Depois de um tempo vinha o milagre.
Numa reação em cadeia, eles se abriam, um após o outro, dando passagem, até que a avenida inteira se transformasse numa longa passarela de luzes verdes que desaparecia no horizonte, como um luminoso convite a seguir adiante.
Ele seguia. Sempre angustiado, sempre com aquela expressão dolorida de quem sofre a tração oposta de duas forças antagônicas.
Estacionou o carro numa rua escura e seguiu a pé para uma casa de fachada amarela. Tocou a campainha. Um segurança veio abrir-lhe a porta.
– Ô Maurão! Como é que vai, rapaz? Tudo beleza?
Mauro apertou a mão que lhe era oferecida e esticou os braços para o lado, para que o segurança pudesse revistá-lo.
– Que isso, Maurão! Não precisa, não. Você já é de casa...
Entrou.
O Maurão é gente boa. Olha no olho, cumprimenta. Sabe respeitar os outros. E olha que ele tem muita grana. Podia esnobar, podia fazer de conta que eu nem existo, mas não: sempre me olha nos olhos e aperta a minha mão. Podia ficar irritado com a revista, como a maioria desses caras que vem aqui ficam, mas não: levanta os braços para os lados antes mesmo que eu peça. Deve ter muita grana mesmo o cara. Sempre bem vestido, sempre cheirando a perfume importado. Se o chefe descobre que eu deixo ele passar sem revista é bem capaz que eu perca meu emprego. Mas na vida a gente tem que correr riscos para fazer o que é certo. O Maurão é gente boa. Merece a gentileza.
Ao mesmo tempo que chegava ao seus ouvidos uma música antiga e fora de moda, suas narinas se sensibilizavam com o aroma de perfume barato e seus olhos eram simultaneamente investigados por uma dezena de olhares diferentes, indo do mais receptivo possível, ao mais agressivo possível, passando por algumas extravagantes combinações de curiosidade e provocação.
Era forte o impacto. Tanto que a cabeça sensível de Mauro girou por um instante e ele deixou-se cair numa poltrona, enquanto fechava os olhos e respirava fundo.
Quando os abriu de novo, viu a gerente da casa parada na sua frente:
– Oi, gostosão! Não cumprimenta mais as amigas?
Ele esperou que ela se inclinasse e beijou-lhe discretamente a face.
– Quer que eu mande as garotas se apresentarem?
Mauro fez que sim com a cabeça e aproveitou para pedir também uma dose de uísque para relaxar um pouco.
Qual será a desse cara, hein? “Me trás uma dose de uísque, por favor”. Pensa que eu sou garçonete? Eu sou a gerente, a gerente! Esses canalhas acham que aqui é tudo puta, que podem me tratar como se eu fosse puta também. Eu nunca fiz programa, nunca. Esse cara também é esquisito. As meninas comentam... mas eu também não me meto: isso é lá com elas que se vendem para estranhos. Se bem que, para falar a verdade, ele é bonitão, bem arrumado, educado, cheiroso... O tipo de cliente que nós – que elas gostam. Mesmo assim, não sei não. Para mim, digam o que disserem, ele é muito esquisito.
Uma a uma, as garotas começaram a vir até sua poltrona. Diziam-lhe seus nomes, beijavam-lhe a face e se afastavam rebolando nas mini-saias. Algumas já o conheciam, outras eram novas na casa.
Lentamente o álcool se espalhava pelo sangue de Mauro e a realidade se diluía numa suave sensação de irresponsabilidade. Passados alguns minutos, ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali e chamou uma das moças novas, que veio sentar-se no seu colo. Ele remexeu-se um pouco na poltrona, incomodado. A jovem percebeu e sorriu:
– Já entendi. Você é dos tímidos.
Levantou-se, pegou uma cadeira de perto do bar e colocou-a ao lado da poltrona de Mauro. Depois segurou a mão dele e afetando uma voz inocente, disse:
– Me conta, meu lindo. O que é que você quer de mim?
Subiram as escadas juntos. Ela, um pouco na frente, ria alto e rebolava. Ele seguia em silêncio. Seu rosto outra vez se tornara taciturno. Estava um pouco tonto por conta do uísque e calculava bem os passos antes de executá-los. Ela parou diante de uma porta e encarou-o com uma expressão vulgar no rosto:
– É aqui, garanhão.
Mauro desviou os olhos, perturbado. Depois fez um gesto impaciente, estendendo o braço e solicitando que ela entrasse primeiro. Sempre sorrindo e sempre rebolando, ela obedeceu enquanto ele fazia o possível para não olhar para o nauseante vai-e-vem dos seus quadris.
Ele fechou a porta e ficou algum tempo ali parado, os olhos fixos na maçaneta, como se hesitasse ou esperasse por alguma coisa. Quando enfim voltou-se novamente para o interior do quarto, viu que a garota já estava na cama, completamente nua, o dedo indicador da mão direita lentamente descrevendo círculos em torno do mamilo esquerdo.
Sentiu o uísque embrulhar-lhe o estômago e subir-lhe até o que deveria ser, mais ou menos, o meio do esôfago. Teve uma convulsão rápida e levou as costas da mão à boca. Quase vomitou ali mesmo, no chão do quarto.
Ela se levantou da cama.
– Você está se sentindo bem?
Ele respondeu que sim, que estava tudo bem, que era só o uísque que não tinha descido direito. Concluiu pedindo para que, por favor, ela recolocasse as suas roupas.
A jovem, porém, irritou-se com o pedido e começou a falar muito alto que não era culpa dela se ele estava bêbado, que agora ela já tinha subido, que eram normas da casa, que uma vez dentro dos quartos não se aceitavam desistências.
Mauro suspirou fundo. Parou diante dela e segurou-lhe de leve as duas mãos. Disse-lhe que se acalmasse, que não queria desistir de nada, que só estava pedindo para ela vestir as roupas.
A irritação dissipou-se do rosto da moça e ela sorriu enquanto atendia ao pedido dele.
– Já sei. Você quer tirar você mesmo, né, bebezão?
Ele não respondeu. Conduziu-a até a cama e fez com que se sentasse.
Ela o olhava estranhando um pouco aqueles gestos quase formais. Parecia haver desistido de compreendê-lo e agora o encarava com curiosidade, aguardando para ver o que ele faria em seguida.
Mauro conseguiu sorrir para demonstrar sua aprovação. Deu um passo para trás, suspirou de novo e encarou a garota, fixando-a diretamente no rosto com um ar frio e imóvel.
Ela sentiu de imediato o choque da mudança e baixou a cabeça, meio intimidada. Ele, que até aquele momento se deixara conduzir com timidez e hesitação, assumia, de repente, uma atitude decidida, confiante e irredutível. Segundos depois, quando ela reergueu os olhos, encontrou os dele na mesma expressão intensa e inerte.
Um pouco insegura, ela estendeu o braço pra ele e chamou com a voz doce:
– Vem cá, vem...
Nada. Mauro nem se mexeu. Só seu semblante pareceu endurecer ainda mais enquanto as pálpebras se apertavam, revelando pequenas rugas nos cantos.
A jovem corou um pouco, mas deu de ombros em seguida, deitando-se na cama e virando as costas para ele. Ficou assim uns dois minutos e não resistiu mais tempo: virou-se novamente para Mauro e encontrou-o exatamente do mesmo jeito. Dessa vez sentiu medo.
Tem algo de errado com esse cara. Tem algo de doente no olho dele. Até me fez lembrar daquelas histórias que ouvi quando comecei a trabalhar. Maníacos que estrangulam meninas dentro dos quartos, ou que sufocam elas com o travesseiro, para depois treparem com os corpos. Sempre achei que era besteira, que era historinha de bicho-papão, mas será? Tanta gente doente nesse mundo... Vai que o cara é brocha mesmo e é revoltado, surtadão. Ai, meu Deus! Ele não tira a mão do bolso. Que será que tem naquele bolso? E se tiver uma arma, ou uma faca? Ai, pelo menos isso não. Isso é impossível. Ai, graças a Deus que tem revista na entrada.
Mauro deu dois passos em direção da cama. Os olhos sempre apertados, a expressão transtornada e decidida. A mão direita no bolso da calça.
Ela encolheu-se um pouco na cama e olhou para o telefone na mesinha de cabeceira. Teve vontade de ligar para baixo e pedir que o segurança subisse imediatamente, mas voltou-se para ele uma última vez e surpreendeu-se com um par de lágrimas, que corriam pequenas e paralelas sobre a pele do seu rosto.
– Que é isso? Você está chorando?
Toda a agressividade pareceu apagar-se do rosto de Mauro. Seus olhos se desfizeram da dureza anterior para se fixarem inexpressivos no vazio, como se não houvesse nada nem ninguém na sua frente. As lágrimas se repetiam num fluxo contínuo, porém contido. Os lábios tremiam um pouco.
A garota pegou a mão dele e puxou-o brandamente para a cama. Ele não opôs resistência: deixou-se levar com indiferença e deitou-se ao seu lado enquanto ela se punha a acariciar-lhe os cabelos e a dizer-lhe palavras meigas que ele já não podia ouvir.
Começou a soluçar e encolheu-se na cama, a cabeça quase instintivamente buscou o colo dela. Entregava-se aos poucos, lutando contra si mesmo. Acabou abraçando as próprias pernas e ficou assim durante muito tempo: em posição fetal, chorando alto no colo da prostituta.
Enquanto destrancava a porta do seu apartamento, Mauro ouviu ruídos no interior. A mulher, com certeza, ainda estava acordada. Antes de entrar, olhou por algum segundos para a aliança no dedo e sorriu.
Recebeu-o em casa um silêncio resoluto. A esposa provavelmente correra para o quarto e agora fingia estar dormindo. Era o castigo que ela lhe impunha toda vez que ele chegava tarde.
A caminho do dormitório, parou diante de um espelho que havia na parede do corredor. Encarou o reflexo no vidro como se lhe perguntasse qualquer coisa, mas o reflexo apenas respondeu com aquele seu próprio sorriso, que agora teimava em aparecer-lhe nos lábios.
Entrou no quarto o mais silenciosamente que pôde e se dirigiu ao berço da filha. Ela dormia. Parecia tranqüila, o que era incomum naquele horário. Logo ela acordaria chorando e ele viria de imediato pegá-la nos braços e segurá-la contra o peito para que ela se acalmasse.
Sobre a cama, a mulher estava deitada com uma camisola prateada que ele havia lhe dado na lua-de-mel. Agachou-se ao seu lado e acariciou de leve o seu rosto com as costas da mão. Ela abriu os olhos devagar, fingindo despertar.
O Mauro está me traindo. Dói demais, mas é verdade. Meu Deus, o que eu vou fazer agora se ele resolver me deixar? O que vai ser de mim e da minha filha, coitadinha? Eu o amo tanto, tanto... Mas não, não posso chorar agora. Não quero que ele saiba que eu sei. Pelo menos não por enquanto. Será que eu já estou ficando velha? Estou gorda? Feia? Por que, meu Deus, por que ele está fazendo isso comigo? Toda segunda-feira chega tarde em casa, com esse bafo de uísque. Diz que vai jantar com o irmão, diz que não me convida porque ele é um solteirão que se constrangeria com a minha presença na casa dele, diz que toma banho lá porque sua muito naquele terno, diz que se arruma assim só para mim, para estar bonito para mim quando chega em casa, mas não, eu não sou idiota: com certeza ele tem outra e, qualquer dia desses, eu vou ter uma prova, qualquer dia desses, eu pego ele no pulo e aí não vai ter como negar. Por isso é melhor disfarçar por enquanto...
O beijo foi longo e sôfrego. As mãos dele desapareciam por debaixo da camisola prateada, que poucos minutos mais tarde era atirada para cima e caía num canto do quarto. Mauro gostava de olhá-la nos olhos e fazia força para não piscar. Assistia ao prazer dela como se fosse um show de mágica. Sabia ler no seu rosto todos os sinais do orgasmo vindouro e abria um sorriso escancarado e quase bobo quando finalmente a ouvia dizer:
– Ai, Maurinho... ai...
Outra vez silêncio no quarto. A esposa e a filha dormiam – essa no seu berço, aquela encostada ao seu peito nu – enquanto ele velava ainda, absorvido por algum pensamento distante.
Não sei exatamente o que se passa na cabeça do Mauro. Confesso que não compreendo muito bem seu comportamento e desconheço as causas das suas ações desse, que foi apenas mais um dia de sua vida, mas que, por outro lado, foi o único que coube a mim imaginar.
Agora me despeço dele e deixo-o assim: deitado sobre a cama do seu quarto; o olhar fixo no teto; a respiração se descompassando vez ou outra com um suspiro; um sorriso indefinido nos lábios.
Parece felicidade, mas não dá para ter certeza.